SUBVERSÃO, GLAMOUR E RELIGIÃO: OS PECADOS DE A DOCE VIDA

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E veio um dos sete anjos que tinham as sete taças, e falou comigo, dizendo-me: Vem, mostrar-te-ei a condenação da grande prostituta que está assentada sobre muitas águas. Com a qual fornicaram os reis da terra; e os que habitam na terra se embebedaram com o vinho da sua fornicação”. Apocalipse 17:9

Sátira da Roma hedonista do pós-guerra dirigida pelo italiano Federico Fellini, A Doce Vida (1960), narra as aventuras do aspirante escritor Marcello Rubini (Marcello Mastroianni), mas que ganha a vida como jornalista perseguindo estrelas de cinema pela rua Via Veneto, famosa por seus bares e cafés. Marcello (alter ego de Fellini em vários filmes, já que antes de ser diretor, ele também foi repórter) entra no mundo da sofisticada e excêntrica sociedade romana. O filme mostra a estrutura de classes, as relações entre o catolicismo e o Estado e a relação entre homens e mulheres.

Roteiro escrito por Fellini, Tulio Pinelli (recorrente dentro da sua filmografia), Ennio Flaiano, Brunello Rondi e Pier Paolo Pasolini, e o que chama atenção é a obsessão de Fellini pelo número 7. O filme foi feito depois de sete anos da morte misteriosa de Wilma Montesi, parte da história é uma metáfora sobre ela, que culminou em um escândalo nacional em 1953. Ficou conhecido como o Caso Montesi, ela era uma jovem de 21 anos que foi encontrada morta, em um sábado, véspera da Páscoa, na praia de Torvaianica, perto de Roma. Ela teria ido para uma festa em Capocotta, litoral romano, tinha o sonho de entrar para o mundo do cinema e estava prestes a se casar. Ela conhecia pessoas da alta sociedade, o nome dela foi ligado ao Marquês Ugo Montagna e ao filho do vice-primeiro Ministro Attilio Piccioni, Piero Piccioni. Se falou em suicídio e overdose de drogas, mas até hoje o crime nem a causa da morte foi esclarecida.

A cidade de Roma foi fundada em 753 a.C (o número 7 mais uma vez, e o 53), em cima das sete colinas: Capitólio, Quirinal, Viminal, Esquilino, Célio, Aventino e Palatino. Temos como cenário do filme as sete colinas de Roma e toda narrativa se desenvolve durante sete dias e sete noites. Segundo alguns estudiosos não existe nenhuma citação direta de que a Igreja Católica seja a prostituta da Babilônia, já outros falam que em Apocalipse 17:9 é feita esta ligação, já que a sede do Catolicismo fica no Vaticano, que por sua vez está localizada em Roma e é a cidade mais conhecida das sete colinas. “E na sua testa estava escrito o nome: Mistério, a grande Babilônia, a mãe das prostituições e abominações da terra. Aqui o sentido, que tem sabedoria. As sete cabeças são sete montes, sobre os quais a mulher está sentada”, vai depender da interpretação de cada um, lembrando que o Vaticano (residência oficial do Papa) não fica situado em nenhuma das sete colinas, a cidade foi construída onde foi enterrado o corpo de São Pedro, tornou-se uma cidade-estado, totalmente dissemelhante de Roma e do resto da Itália em alguns pontos.    

E os pecados capitais são sete, pelo menos alguns deles Marcello Rubini cometeu, como a luxúria, durante a orgia, a inveja, que ele sente de Steiner (Alan Cuny) pela vida supostamente estável que o amigo tem. Ele acha que a vida de Steiner é perfeita, ele é casado, tem filhos, financeiramente estável e é um filósofo respeitado, mas Marcello é frustrado quando Steiner fala para ele que: “Não seja como eu. A salvação não reside dentro de quatro paredes”. Até o que vale como felicidade para Steiner está desmoronando, quando ele fica sabendo do suicídio dele, não existe felicidade em canto nenhum deste mundo, nem na paz de uma vida doméstica ou no glamour da noite romana, a vida não passa de uma ilusão, como a visão da Virgem Maria ou na busca de sua Eva perfeita em Sylvia.

Partindo do que conhecemos na história da Bíblia, o mundo foi criado por Deus em seis dias, e no sétimo ele descansou. Deus juntou todos os elementos do universo e deu vida a vários seres. No começo de tudo a Terra não tinha uma forma definida, era um mundo sombrio e caótico. A religião sempre foi o mote dentro de algumas obras de Fellini, e aqui ela não seria diferente, ela emerge entre orgias, falsos milagres e referências ao dia da Criação. Quando Sylvia (Anita Ekberg) profana a Fontana di Trevi ao banhar-se nela, e Marcello, apaixonado, fala: “Você é a primeira mulher do primeiro dia da Criação. É mãe, irmã, amante, amiga, anjo, demônio, terra, lar”. Mas a ilusão de uma Anadómene que instantes atrás deslizava em seus braços, se desfaz pela manhã, esse êxtase é pulverizado com o amanhecer.

Em Gênesis 1:1-5 Deus transformou trevas em luz, “Houve tarde e manhã, o primeiro dia”, ele separa a luz da escuridão. Mesmo já existindo terra, ainda não existia vida. E em seguida temos a água, o céu, os continentes a vida marinha e no sexto dia (Gênesis 1:24-31), Deus cria o homem e o resto das criaturas que vivem na terra, “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gênesis 1:26). É impossível dissociar a persona criada por Mastroianni nos sete (novamente) filmes em que colaborou com Fellini, um é a personificação do outro, Marcello era conduzido por Fellini, se submetia aos seus personagens líricos e oníricos nascidos de sua mente ou de seus sonhos. Marcello entendia que Fellini era um autor. Ele brigou para ter Mastroianni no filme, o estúdio insistia em Paul Newman, mas Fellini preferia um rosto comum, suave e discreto como Marcello. Em alguns filmes Fellini não dava o roteiro para o ator, no set de Fellini 8 ½ (1963) a criação de algumas falas ficavam por conta de Mastroianni, tanto era a confiança que Fellini tinha nele. Ao fim, não sabemos quem era o alter ego de quem, seus personagens foram criados a semelhança de um e do outro.

Mas como seus filmes foram moldados em cima de sonhos e memórias afetivas do diretor, podemos ter diferentes pontos de vista, o espectador é que vai dizer o que são todas essas nuances religiosas. A Doce Vida é recheada de metáforas bíblicas, no epílogo quando o pescador regasta o peixe arraia do mar, já em estado de putrefação, ele diz que o monstro já morreu “há três dias”, na Bíblia consta que esse foi o tempo que Jesus passou na tumba antes de ressuscitar. Wilma Montesi também foi encontrada morta depois de três dias de sumiço e o seu corpo já estava em estado de decomposição.

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A noite e o dia tem um simbolismo especial para Marcello, durante o dia sua vida parece suspirar um pouco de esperança, mas a noite ele é levado ao mundo da depravação e no amanhecer ele sucumbi a dura realidade que é a sua vida:

DIA

  • Marcello dentro de um helicóptero sobrevoa belas mulheres de biquíni, enquanto persegue uma estátua de Jesus Cristo.
  • Vai até a cúpula de São Pedro com a atriz americana Sylvia.
  • Fala sobre a suposta visão de Nossa Senhora pelas crianças.
  • Vai ao encontro do amigo Steiner na igreja, enquanto este toca Bach em um órgão.
  • Avista a doce garçonete Paola perto do mar no restaurante em um deslumbre angelical.
  • Não consegue ouvir o que Paola tem a dizer quando ela está na beira do mar.

NOITE

  • Encontra a socialite Maddalena na boate e dorme com ela.
  • Tira Sylvia para dançar nas Termas de Caracala, ou no original Viale delle Terme di Caracalla  (conhecida também como Termas Antoninas, era o segundo maior espaço de banho público de Roma, construído durante o reinado dos imperadores Sétimo Severo e Caracala).
  • Participa de um tumulto no lugar de um falso milagre.
  • Leva o pai moribundo para uma noite em uma boate e apresenta uma amiga dançarina para ele.
  • Faz amor com Jane no castelo.
  • Briga com namorada Emma.
  • Vai atrás dos amigos rumo à praia depois de arrombar a casa de um amigo.

ALVORADA

  • Emma que tinha tendências suicidas é encontrada por Marcello depois de uma overdose.
  • É “ungido” por Sylvia na Fontana di Trevi.
  • Observa a descoberta de um morto perto da árvore milagrosa.
  • Descobre que o amigo Steiner matou os filhos e cometeu suicídio.
  • É avisado que o seu pai sofreu um derrame.
  • Não tira os olhos da Matrona durante a missa.
  • Faz as pazes com a namorada.
  • Junto com outros amigos encontra uma arraia morta na praia.

Foi o filme que chamou atenção do público para o trabalho de Fellini e termina bem pessimista em relação a visão que o diretor tinha do futuro da humanidade, “Quando chegarmos a 1965, a depravação será total”, reflete, e o futuro não estava tão longe assim. No presente, além da depravação, estão todos surdos, como Marcello Rubini, que não ouve o que a garota fala para ele na praia, ele não ouve ou não quer ouvir.

O egoísmo do ser humano é elevado a um patamar que nem Fellini poderia prever, assim como muitos tentaram abafar a verdadeira causa da morte de Montesi, ninguém queria saber o que aconteceu, todos também se fizeram de surdos e os que tentaram provar alguma coisa foram processados. Antes fossemos apenas uns depravados romanos, em uma sociedade decadente com resquícios de glamour, mas não. A figura da jovem Paola representava um mundo de esperança para Marcello, que ele conscientemente lhe virá as costas.

A Doce Vida foi o primeiro filme que eu assisti de Federico Fellini, essa foi a quarta vez que o vi novamente, tive que revê-lo para escrever este texto, mas as sensações foram bem diferentes desde a primeira vez. Pois na primeira vez havia uma certa euforia, era Fellini, para qualquer cinéfilo é uma obrigação assistir qualquer obra dele, nem que seja uma única vez. Não gosto de listas, nem aquilo que alguns blogs fazem sobre cinema como os 10 mais, ou top 100/os melhores de todos os tempos, para mim cada filme tem a sua posição, sem precisar ser injusta com nenhum, estão todos em primeiro lugar.

Mas o entendimento que qualquer cinéfilo faz sobre o que é o cinema, suas linguagens, teorias, técnicas, mudam quando ele assisti um O Encouraçado Potemkin (1925) por exemplo, a minha visão mudou, o filme foi um divisor de águas, sobre o que eu achava tratar-se de linguagem cinematográfica, tudo está lá, no começo do século XX. Os mais novos podem achar primitivo, mas você não conhece os seus descendentes sem antes escavar sua árvore genealógica, e a do cinema está nos grandes mestres do início daquele século. Você não entende a linguagem cinematográfica sem antes passar os olhos em um Eisenstein, Fellini, Kurosawa, Rocha, Welles…, é uma lista, mas não é conclusiva e ela ficará aberta. Pois bem, a sensação durante os pós-créditos de La Dolce Vita, foi de melancolia, em saber que nem eu, nem meus filhos, netos e por aí vai, vão desfrutar dessa liberdade que existe neste filme, o mundo é muito diferente agora, não é ser depravado, é ser livre.

O futuro que Fellini apregoava de depravação, festas, glamour, não existe, o que sobrou foi o medo e o individualismo. O ato de sair de casa nas noites das grandes cidades é uma aventura, cheia de riscos, seja em Roma ou em terras tupiniquins. Ninguém, nem mesmo os turistas imitam mais a doce vida quando sentam nos cafés da Via Veneto, a Europa vive com a sensação de um ataque terrorista iminente. A desculpa para não olhar no rosto do outro durante uma conversa é que há um mundo mais interessante e vívido passando no smartphone. Passar a madrugada num castelo mal assombrado, perseguindo um fantasma, que coisa mais retrô, ninguém se toca mais, ninguém sente a pele do outro, o toque agora só do touchscreen, isso sim que é uma depravação.  

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