LAURA, CLÁSSICO NOIR DIRIGIDO POR OTTO PREMINGER

foto: Yahoo Images
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“Os homens a adoram. As mulheres a admiram”. É assim que a personagem Laura Hunt (Gene Tierney) é descrita no filme Laura (idem, EUA, 1944), dirigido pelo vienense Otto Preminger (1906-1986).

Motivo de estudo pelos críticos e especialistas em cinema, que até hoje não definiram ao certo se filme noir é um gênero ou estilo. Teve seu auge nos filmes dos anos 40. A palavra gênero que tem origem no latim é usada para definir algo que está dentro de uma categoria ou agrupamento. O responsável por definir muito bem o gênero cinematográfico foram os clássicos “hollywoodianos”.

Já o gênero cinematográfico é sempre ligado à estrutura econômica e institucional, pelo fato que alguns estúdios ficaram conhecidos por produzir determinados tipos de filmes, a Warner era famosa pelos filmes de gângsteres nos anos 30.

Filme noir é vulgarmente chamado de subgênero policial, chega até ser contraditório o fato que Laura é dirigido por um cineasta oriundo do teatro erudito europeu. Otto Preminger chegou a dirigir um filme na Áustria chamado Die Grosse Liebe em 1931, depois disso emigrou para os Estados Unidos em 1935. Laura ao lado de Carmen Jones (idem, EUA, 1954) são os filmes mais conhecidos do diretor, juntamente com a fama de ditador, mal humorado e desleixo na direção com atores.

Decidiu produzir a adaptação do romance policial da escritora feminista Vera Caspary (1899-1987), tida como uma autora subversiva para a época. Laura foi o livro de maior sucesso da americana, tanto que chegou a vender os direitos de adaptação da história mais quatro vezes depois que o filme foi lançado, uma delas para os palcos, chegando a contribuir no roteiro da peça. A maioria de seus romances tinham como tema mulheres independentes e assassinatos.

Laura tem todos os elementos conhecidos de um filme noir: o detetive, um crime misterioso e a femme fatale. Em alguns momentos lembra teatro filmado entrecortado por sombras, ângulos desconcertantes (ecos do expressionismo alemão), cenas com chuva e o belo contraste entre o preto e o branco da fotografia de Joseph LaShelle, premiado com o Oscar por este filme, esses são os pontos altos do filme.

Em algumas obras do tipo a figura do detetive está sempre envolvida em alguns traumas, como caráter duvidoso, mulherengo, mas os que mais se sobressai são os que têm problemas com a bebida. O único problema que o detetive durão Mark McPherson tem é o amor platônico pelo fantasma de Laura Hunt (destaque para o elemento lúdico que sempre está em suas mãos o pinball de mão). Quem primeiro percebe a paixonite é o personagem Waldo Lydecker (Clifton Webb), quando diz que o detetive vai acabar indo parar em algum hospício, já que está apaixonado por um cadáver.

Quando a gente pensa no tempo, dentro da narrativa em um filme é que ele continua sendo estudado segundo vários eixos: em que ordem são apresentados os acontecimentos? Que relação há entre a duração da narrativa e a dos acontecimentos contados? Com uma narrativa que vai e volta no tempo (flashback), narrado pelo personagem Waldo é ele quem descreve quem é e o que Laura Hunt representa para ele.

O espectador conhece a personagem através da visão de Waldo. O filme é considerado uma boa adaptação, o roteiro escrito por Jay Dratler, Samuel Hoffenstein e Elizabeth Reinhardt, que vai omitindo determinados acontecimentos (elipses) e revelando posteriormente na medida em que o filme avança para o epílogo, que por incrível que pareça não é nada inusitado ou surpreendente, eles deixam para antes do fim a surpresa.

O “servo” intelectual Waldo Lydecker é apresentando no filme pela primeira vez em uma cena que faz referência ao famoso quadro A morte de Marat, do pintor francês Jacques-Louis David (1748-1825). Marat sofria de psoríase e por causa da doença passava parte do tempo dentro de uma banheira com água, inclusive foi assassinado dentro da banheira, diferente do revolucionário francês, Lydecker, não sofria dessa doença, sofria de outras, bem piores.

Em umas de suas lembranças Waldo recorda como conheceu a jovem, deixando bem claro o quanto de elegância e talento ela não tinha, adquiriu depois, claro, com as suas investidas. Ensinou ela a escolher roupas elegantes, como se comportar perante a sociedade, apresentou gente nova e fez com que sua carreira na agência de publicidade decolasse. Até no corte de cabelo ele deu palpite. A princípio mostrando-se interessado em ajudar a solucionar a morte da amiga, mas logo notamos o quanto de inveja, obsessão e loucura ele nutria por Laura Hunt.

Chegava ao cúmulo de obrigar Laura a telefonar para o noivo para saber se ele estava em casa ou não, talvez nos braços de outra. Waldo só não permitia que uma coisa entrasse na vida de Laura: pretendentes. Ele minava com a intenção de qualquer figura masculina que tentasse aproxima-se de seu objeto, pois era assim que ele a via, como uma propriedade particular e que apenas ele tinha o direito de utilizar.

Ególatra dos pés a cabeça, Waldo passava noites a fio lendo vários de seus textos para Laura, ele tinha uma coluna no rádio. As noites de sexta eram sagradas para ele e Laura, jantavam sempre nesse mesmo dia, mas aos poucos ela ia faltando com o compromisso, deixando Waldo irritado.

Waldo assemelha-se ao pássaro que existe na natureza chamado João de Barro (Funarius rufus), costuma-se acreditar que o macho constrói um ninho de barro envolta da sua fêmea, deixando ela sufocada até morrer, quando descobre que ela foi infiel. Não tardou para que ele descobrisse o motivo da falta de atenção por parte da amiga. Também não demorou para que ele desse um fim nesse “problema”. Ela logo lhe confidencia que está apaixonada e noiva de Shelby.

Shelby Carpenter (Vincent Price), jovem galante e alpinista social que adora receber os mimos da Sra.Ann Treadwell (Judith Anderson), melhor amiga de Laura, ele é sustentado descaradamente pela amiga ricaça da própria noiva. Considerado um bom partido entre as moças, conheceu Laura em um jantar e não demorou para engatar o romance, ele apenas esqueceu de contar para a futura esposa que de vez enquanto recebia pequenos cheques, presentes e jantares de Ann.

Ann não via problema algum em convidar Shelby para um jantar à luz de velas e ele achava normal omitir tal situação. Essa foi à oportunidade que Waldo viu para abrir os olhos de Laura e provar que estava certo em relação ao caráter de Shelby, afinal para ele, Laura merecia alguém melhor, que no caso dele, era ninguém.

Waldo, Shelby o noivo dissimulado e a amiga socialite, todos passam a serem interrogados por Mark McPherson (Dana Andrews), que apesar do esforço não consegue solucionar o assassinato. Foi e emprega de Laura que encontrou o corpo dela perto da porta de entrada da casa, logo o crime é assunto nos jornais e rádios. Já que a vítima tratava-se de uma pessoa famosa, virou notícia, a cidade inteira ficou sabendo, até mesmo em lugares mais afastados.

McPherson pode parecer desinteressado ou mesmo entediado com o caso, com o passar do tempo, acreditamos que ele poderia deixar pontas passarem despercebidas, mas note que pequenos detalhes como esse da notícia do crime no rádio, ele não deixou escapar, mais na frente isso é explicado na trama.

Otto Preminger de início escalado apenas como produtor substituiu o diretor Rouben Mamoulian, que em algumas publicações ainda divide os créditos como diretor do filme ao lado de Otto. Quando Preminger assumiu a direção de Laura o filme já estava todo muito bem estruturado, mas com o gênio difícil que tinha não utilizou nada do que Mamoulian havia rodado.

Ele escalou a revelia o ator Clifton Webb para viver o pegajoso Waldo, o estúdio era contra, por rumores envolvendo a homossexualidade de Webb. Clifton deu um show e rouba a cena toda vez que aparece, sendo indicado ao Oscar na categoria de melhor ator coadjuvante. Ele construiu uma personalidade dúbia, que vai de um sentimento de paternidade até a obsessão pela personagem Laura, deixando o espectador na duvida se o interesse era amoroso ou uma vontade de ser Laura.

Vera Caspary quando vendeu os direitos para a Fox ela não era conhecida e nem Preminger, o resultado do filme foi um grande sucesso comercial, tornando o diretor e a escritora reconhecidos. Todo o esforço de Preminger em continuar um filme que já estava andamento e os problemas na produção de Laura renderam cinco indicações ao Oscar incluindo melhor diretor, ator coadjuvante, fotografia, melhor roteiro e direção de arte. Hoje, considerado um clássico do noir é uma boa escolha para quem é aficionado pelo estilo ou gênero.

FICHA TÉCNICA

Laura (idem, 1944, EUA)

Direção: Otto Preminger e Rouben Mamoulian.

Idioma: Inglês.

Produção: Otto Preminger.

Roteiro: Jay Dratler, Samuel Hoffenstein e Elizabeth Reinhardt, baseado no livro de Vera Caspary.

Fotografia: Joseph LaShalle e Lucien Ballard.

Música: David Raksin.

Elenco: Dana Andrews, Clifton Webb, Vincent Price, Gene Tierney, Judith Anderson, Cy Kendall e Grant Mitchell.

Oscar: Joseph LaShalle (na categoria de melhor fotografia).

P&B.

Duração: 88 minutos.