A VASTIDÃO DA NOITE

the vast of night

Everett: Por que acha que ninguém o ouve?

Billy: Acho que parte disso é porque sou negro. Desculpe se isso for um problema.

Everett: Não acho que seja. Achei que poderia ser. Nós nunca tivemos um ouvinte negro ligando antes.

Billy: E desculpe, eu devia ter dito isso. Mas todos nessas tarefas eram negros. Ou mexicanos. Todos nós fazemos o trabalho pesado.” A Vastidão da Noite/2020

O filme de estreia do diretor Andrew Patterson é uma história de ficção científica, lançada pela plataforma Amazon Prime este ano, que adquiriu os direitos de exibição. O roteiro de Patterson (sob o pseudônimo de James Montague) em colaboração com Craig W. Sanger, tem recebido críticas positivas por onde já foi lançado, como no Slamdance Film Festival, de 2019. Nesse mesmo festival o filme ganhou o prêmio de melhor longa-metragem, no Toronto International Film Festival foi o vice-campeão, na categoria Midnight Madness, e o prêmio do júri do Overlook Film Festival.

A trama é levemente inspirada em dois casos, no OVNI de Kecksburg, quando um grupo de pessoas, de diferentes regiões dos Estados Unidos, relataram o aparecimento de uma bola de fogo nos céus, e no Foss Lake Disappearances, quando dois carros foram encontrados submersos em um lago e que poderia estar envolvido no desaparecimento de algumas pessoas no final dos anos sessenta.

a vastidão da noite
Sierra McCormick é a jovem telefonista Fay Crocker.

Tudo começa quando a jovem telefonista Fay (Sierra McCormick) e o DJ de rádio Everett Sloan (Jake Horowitz) que moram na pequena cidade de Cayuga, nos anos 50,no estado do Novo México, os dois passam a investigar um som misterioso. Depois de gravar esse som enquanto escutava o programa de rádio de Everett, Fay liga para outras pessoas para saber se também ouviram algo semelhante.

Ela acaba recebendo um telefonema de uma mulher apavorada, que segundo ela algo de estranho estava no quintal da sua casa. Só que quase todo mundo do lugar não estava em casa, eles estavam no estádio assistindo ao jogo de basquete do ensino médio. Os dois então partem nessa escalada para tentar desvendar que frequência é essa, ou se pode ser algo vindo do espaço.

Depois que Everett roda o som que Fay gravou no seu programa de rádio, um ouvinte chamado Billy, ex-militar que trabalhou no serviço secreto liga para a rádio. Ele acaba revelando que durante um chamado do seu superior para ir até um local não informado, ele teve que cobrir um objeto gigantesco que ele não sabia o que era. Ao voltar para o avião, ele escuta pelo rádio que estava a bordo, o mesmo som que Everett tocou naquela noite. Billy ainda conta que ficou doente depois dessa operação secreta e que muito dos seus amigos também adoeceram. Mas ele diz que em Cayuga tem um homem que gravou os mesmos sons e que as fitas devem estar com ele.

A jornada dos dois amigos continua e eles encontram algumas pessoas da cidade que falam que viram objetos sobrevoando o céu. Fay descobre na biblioteca as fitas de Raymond Buck, enquanto isso Everett descobre outra ouvinte com uma história também assustadora sobre esses sons. Até que no final eles conseguem presenciar a aparição de uma enorme nave espacial no meio da floresta.

A HORA ESCANDALOSA DA TELEVISÃO

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A narrativa vai se desenrolando durante toda à noite, e algumas sequências são como se fizessem parte de um episódio do “Paradox Theatre”, que lembra a cultuada Além da Imaginação (The Twilight Zone, 1959). E o nome da cidade foi emprestado, Cayuga não existe no Novo México, mas em outras cidades sim, e já foi o nome da produtora de Rod Sterling, que foi o produtor de The Twilight Zone. WOTW é o nome da estação de rádio de Everett, que nada mais é um acrônimo para Guerra dos Mundos (The War of the Worlds, 1898) clássica história escrita por HG Wells.

O roteiro desenvolve bem e deixa claro as diferenças entre Fay e Everett, ela acredita que no futuro coisas imagináveis vão acontecer no mundo, como tubos rápidos que possibilite viagens, comunicação através de celulares com câmeras e outras coisas tecnológicas. Já ele é muito cético.

O diretor de fotografia M.I. Littin-Menz fez um trabalho voltado para tons granulados, azulados, esverdeados e ambientes com pouca iluminação. Dentro das casas as paletas de cores são amareladas, dando uma sensação de menos perigo. Já que o filme tem um tom de mistério, você fica tentando descobrir se vai aparecer algo do meio da penumbra. Não é o tipo de filme com um visual extravagante ou caro, ele é retrô. Todo apoiado nos diálogos, você vai se sentir como se realmente estivesse vendo uma transmissão ou lendo uma boa história, só que com imagens.

O filme toca em pontos que os americanos adoram: os soviéticos. A dupla Fay e Everett acham que eles podem estar sendo espionados pelos russos. Sem contar que Everett custa a acreditar que esse som não possa ser dos mexicanos, o filme brinca com essa paranoia de que eles estão sendo monitorados pelos “inimigos”.

A narrativa se passa no final da década de cinquenta, as pessoas eram mais ingênuas e suscetíveis, acreditavam em qualquer coisa. Muita gente acreditou no programa de rádio que Orson Welles transmitiu em 1938, quando ele narrou Guerra dos Mundos, teve gente que cometeu suicídio, outras desapareceram, é a adaptação radiofônica mais famosa do mundo.

Um dos pontos altos do filme é a movimentação de câmera desenvolvida por Patterson, parece simples, mas ele quer te situar como a cidade é pequena e que os fatos narrados em seguida vão se desentrelaçar nas próximas horas. Sem que pareça que ele está correndo com a história, ele inicia no travelling e você vai fazendo um tour pelas ruas de Cayuga. Ele te prende sem distrações bobas, como efeitos especiais inoportunos ou alguma pirotecnia comum em filmes de ficção científica, não que isso seja errado em filmes desse gênero, mas aqui não é um filme de ficção científica com ação.

A música que toca no início de A Vastidão da Noite é do lendário e misterioso A. Kostis, que é pseudônimo de um cartunista e jornalista grego chamado Kostas Bezos. Ele gravou várias músicas para o público grego que moravam na América. Ele tocava violão e guitarra e a voz era por conta do cantor Tetos Demetriades. O Rebético como é conhecido tem origem na Grécia e traz traços das raízes europeias e do oriente médio, considerado o blues greco.

a vastidão da noite resenha

O filme é simples e correto, sem arroubos cinematográficos que poderiam prejudicar a história. Patterson pode ser comparado com outros diretores que também enveredaram para uma ficção mais comedida, com ares de cult movie, como Jonathan Glazer (Sob a Pele), Richard Schenkman (O Homem da Terra) e Mark Romanek (Não Me Abandone Jamais).

Esse é o seu primeiro filme, todo mundo está dizendo que ainda vamos ouvir falar muito em Andrew Patterson, que ele é um diretor promissor. Afinal de contas, esse filme foi filmado em 2016, em apenas 17 dias e só agora quatro anos depois ele é lançado, já com críticas boas, não deixa de ser um feito incrível. A Vastidão da Noite (The Vast of Night, 2019) surpreende como um dos melhores filmes do gênero até o primeiro semestre de 2020.

TRILHA SONORA *Kaike Ena Sholio

FICHA TÉCNICA

A Vastidão da Noite (The Vast of Night, 2019)

Direção: Andrew Patterson.

Elenco: Sierra McCormick, Jake Horowitz, Gail Cronauer, Bruce Davis (voz), Cheyenne Barton , Mark Banik, Gregory Peyton, Adam Dietrich, Mallorie Rodak, Mollie Milligan, Ingrid Fease, Brandon Stewart, Kirk Griffith, Nika Sage McKenna e Brett Brock.

Roteiro: Andrew Patterson (sob o pseudônimo de James Montague) e Craig W. Sanger.

Produção: Adam Dietrich, Caleb Henry, Melissa Kirkendall, Andrew Patterson, Marcus Ross e Eric A. Williams.

Trilha Sonora: Erick Alexander e Jared Bulmer .

Fotografia: M.I. Littin-Menz.

Cor.

Duração: 1h 29 minutos.

Gênero: Drama, Mistério e Ficção Científica.

Data de lançamento: 15 de maio de 2020.