SERGUEI EISENSTEIN

A data era 21 de dezembro de 1925, Serguei Eisenstein estava preocupado e não parava quieto nos corredores do Teatro Bolshoi na cidade de Moscou (Rússia), tinha medo em relação à reação do público, mas conforme as cenas eram aplaudidas, tranquilizou-se. Era a primeira vez que um filme era exibido naquele Teatro, todos estavam ali para comemorar o 20˚ aniversário da Revolução Russa de 1905 e o presente era o filme O Encouraçado Potemkin.

Mas o motivo de tanta apreensão era outro. Ele só havia terminado a montagem final do filme horas antes da estreia. Sem tempo, usou saliva para “colar” os planos do último rolo. No meio da correria o seu assistente esqueceu-se de substituir a saliva por cola.

Em sua autobiografia Memórias Imorais: Uma autobiografia (ed. Companhia das Letras), ele recordou o fato, “Mergulhado na mais completa confusão, desço as escadas em forma de saca-rolhas, possuído por um único desejo, o de me enterrar num porão, na terra, no esquecimento”. Segundo ele, alguma força superior, fez com que a saliva aguentasse e o filme rodasse até o fim.

O Encouraçado Potemkin saiu vitorioso daquele Teatro e agradou as autoridades soviéticas para entrar na história de como transformar as ideias sobre montagem, defendidas por ele, Eisenstein, poderiam dar certo. Levado pela proposta de que “a parte fala sobre o todo”, o cineasta resolveu concentra-se apenas em pequenos episódios da Revolução de 1905, deixando de lado os fatos que ocorreram durante todo aquele ano.

Entregou a maior obra-prima que o cinema já concebeu que serviu de modelo para inúmeros filmes, por vezes até imitado e reverenciado por grandes diretores do cinema internacional. Resume muito bem o que significa a construção dos três pilares de um filme: montagem, linguagem e sentido, que um filme deve ter, e como ele pode se tornar provocador diante do espectador.

A PARTE PELO TODO

Serguei Mikhailovitch Eisenstein nasceu em Riga (capital da Letônia). Seu pai era judeu-alemão e a mãe uma russa. Coincidentemente mudou-se para a cidade de São Petersburgo (Rússia) na época da Revolução de 1905 juntamente com a mãe, mais tarde lutaria em nome do Exército Vermelho (1918). Sabia falar japonês, até viajou para o Japão e era um amante do Teatro Kabuki. Suas leituras incluíam textos em alemão, inglês e francês, além de estudar Teatro, Linguística, Psicologia e Filosofia.

Entrou para a oficina de Teatro do russo Vsevolod Meyerhold (1874-1940). As companhias de Teatro pelo qual Eisenstein passou nutriam um desprezo pelas tradicionais escolas de arte e torciam o nariz para a cultura elevada. Alimentavam o povo desfavorecido de cultura com uma arte menos erudita, como o circo, teatro ao ar livre e musicais. Declaravam morte a arte antiga para que uma nova, acessível e mais democrática pudesse nascer.

Eisenstein chegou a estudar engenharia arquitetônica (o pai dele era arquiteto), mas virou teórico e professor por mais de quinze anos na escola de cinema de Moscou (a VGIK). Em paralelo a carreira de diretor de cinema ele desempenhou um papel importante sobre a teoria soviética da montagem. Suas ideias cresceram pouco durante os anos, mas ele se manteve fiel às formulações diferentes.

No começo dos anos vinte, Eisenstein começou a trabalhar como cenógrafo num teatro moscovita, mas só dirigiu o seu primeiro filme em 1923, com Diário de Dnevnik Glumova (Kinodnevik Glumova, 1923, URSS). Obtendo êxito com A Greve (Stachka, 1924, URSS), que continha elementos que marcavam a ruptura com as formas tradicionais e O Encouraçado Potemkin, em 1925, onde aplicou a sua famosa teoria da montagem. Depois do sucesso comercial do Potemkin, viajou em 1929 para a Europa, levando na bagagem alguns de seus filmes. Encontrou forte oposição por parte do governo comunista, tendo sido ameaçado de deportação.

Chegou a ser contratado pelo americano Jesse Lasky (1880-1958), para escrever o roteiro de Uma tragédia Americana (An American Tragedy, 1931, EUA), mas o estúdio da Paramount o recusou. Fez amizade com o escritor americano Upton Sinclair (1878-1968), que aceitou financiar um filme no México. Eisenstein rodou 60 mil metros de película, mesmo assim foi impedido de entrar nos Estados Unidos. Parte do material rodado foi enviado pelo amigo escritor ao cineasta russo, mas Sinclair logo arrependeu-se, vendendo tudo que já tinha sido feito para o produtor Sol Lesser (1890-1980).

Lesser aproveitou o que tinha e distribuiu o filme de várias formas: em Thunder Over Mexico (1933), Cenas de Viva Villa (1934), Death Day (1933), Eisenstein´s Mexican Project (1958). Somente em 1979 que Grigori Alexandrov, co-realizador das fitas Outubro e Linha Geral, deu o destino certo, planejado há quarenta anos por Eisenstein.

Durante a sua estadia na América ficou muito amigo do diretor Charlie Chaplin (1889-1977). Conheceu Douglas Fairbanks, Josef Von Sternberg (esse que concluiu o filme Uma Tragédia Americana) e Walt Disney. Seus fãs mais famosos iam desde James Joyce, Gertrude Stein, Abel Gance até Albert Einstein, todos tinham profunda admiração pelo trabalho de Eisenstein.

EISENSTEIN PEDIA DESCULPA POR SER EISENSTEIN

Depois dos três anos que passou longe da Rússia, chegou à conclusão que o clima político e o choque cultural eram muito pesados para que continuasse lá. Voltou para Moscou depois de uma crise nervosa. Mas Serguei M. Eisenstein continuou tendo problemas com o governo da União Soviética; chegou a ser denunciado pelo diretor geral do cinema soviético, Boris Shumyatsky (1886-1938), tendo que fazer autocrítica pública para continuar filmando.

A segunda parte da trilogia do filme Ivan, o Terrível (Ivan Groznyi, 1944, URSS), foi censurada pelo próprio Ditador Josef Stalin (1878-1953), sendo que foi ele que teria convidado Eisenstein para dirigir o filme. Com o desgaste provocado pela destruição de parte do material da terceira parte do filme, fez com que Eisenstein sofresse um ataque cardíaco e ficou internado em um hospital. Mesmo debilitado ele pediu que o comitê que examinou o filme assistisse o mais uma vez. Derrotado e sem condições físicas de refazer Ivan, o Terrível parte 3, acabou falecendo em 11 de fevereiro de 1948 aos 50 anos.

Em 1958, a parte dois foi exibida nos cinemas, Eisenstein e Stalin já estavam mortos quando isso aconteceu. O elogiado O Encouraçado Potemkin também teve problemas com a censura, o filme chegou a ser proibido no Reino Unido até o ano de 1954, o motivo era que o filme fazia “propaganda bolchevique” e incitava o ódio entre as classes trabalhadoras.

Em 1988 na cidade de Oxford (Inglaterra) foram exibidos trechos que não tinham sido destruídos da parte 3 de Ivan, em comemoração ao nonagésimo aniversário de Serguei Eisenstein.

Nascido na Lituânia Eduard Tissé (1897-1961) foi um grande diretor de fotografia e colaborou para que todos os filmes de Eisenstein mantivessem profunda dramaticidade. Já o ucraniano Serguei Prokofiev (1891-1953), exímio compositor do modernismo clássico ficou conhecido pelas composições irônicas e por vezes popularescas, mas com muito refinamento. Escreveu a música para os únicos filmes falados do cineasta Serguei Eisenstein, Alexandre Nevski, realizado em 1938 e Ivan, o Terrível. Os três juntos criaram uma estética memorável.

Quando o filme A Greve foi lançado, recebeu críticas positivas. Por causa disso Eisenstein decidiu que iria adaptar o livro O Exército de Cavalaria (ed. Cosac Naify), célebre obra do russo Isaac Bábel (1894-1940), sobre a época em que participou da guerra russo-polonesa, considerado pela crítica como uma bela prosa expressionista. O outro livro que ele pretendia levar às telas era O Capital (ed. Civilização Brasileira), de Karl Marx e Ulisses (ed. Companhia das Letras), de James Joyce.

Os filmes de Serguei Eisenstein tinham uma estética antinaturalista, oriundos de composições pictóricas, já que sempre citava artistas como Leonardo da Vinci, Diderot, Wagner e Flaubert, todos muito distintos entre si. Eisenstein procurou através dos seus filmes enriquecer o cinema, torná-lo “multiculturalista”, por meio de uma ligação sinestésica com outras artes. Justaposto a isso com interpretações teatrais.

Os vanguardistas da década de vinte, financiados pela antiga União Soviética, intelectuais-realizadores do Instituto Estatal de Cinematografia gostavam não só das grandes ideias, mas pretendiam criar uma Indústria Cinematográfica Socialista. A união da criatividade autoral, juntando com eficácia política e popularidade de massa.

Levantaram todo tipo de questões, entre elas: Qual tipo de cinema devemos realizar? Ficção ou Documentário? Mainstream ou Vanguarda? Qual a definição correta de cinema revolucionário? Ficaram conhecidos como “operários da cultura”, conjunto de uma parte chamada de espectro social, com o propósito de modernizar e revolucionar a Rússia. Estudaram e se aperfeiçoaram em campos práticos que tinham a engenharia e a arquitetura como modelos. Adotaram para si, a técnica, parte da construção e o experimentalismo.

FILMOGRAFIA SERGUEI EISENSTEIN

Diário de Dnevnik Glumova, em 1923.

A Greve, em 1924.

O Encouraçado Potemkin, em 1925.

Outubro, em 1927.

O Velho e o Novo, em 1929.

A Linha Geral, em 1929.

Sturm uber La Sarraz, em 1929.

Que Viva México!, em 1931 (foi lançado e terminado em 1979 exibido como documentário).

Bezhin Lug, em 1935 (inacabado).

Alexandre Nevski, em 1938.

Ivan, o Terrível, em 1944.

Ivan, o Terrível parte 2, em 1958.

OBRAS ESCRITAS POR SERGUEI EISENSTEIN

A forma do filme, 1929 (ed. Zahar).

O sentido do filme, 1942 (ed. Zahar).

Memórias Imorais: Uma Autobiografia, 1946 (ed. Companhia das Letras).

 

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