A COR QUE CAIU DO ESPAÇO

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A Cor que Caiu do Espaço (2019)

Eu espero que a água maldita que passa por aqui, seja muito profunda. Mesmo assim, nunca vou beber dela. Pouco de nós se lembram desses estranhos dias agora. O que tocou esse lugar não pode ser quantificado ou entendido pela ciência humana. Era apenas uma cor vinda do espaço. Uma mensageira de reinos cuja simples existência atordoa o cérebro e nos entorpece com os negros abismos extracósmicos que abre diante de nossos olhos.” H.P. Lovecraft

Baseado em um conto do escritor H. P. Lovecraft (1890-1937) publicado dez anos antes da morte de Lovecraft, A Cor que Caiu do Espaço, ed. Hedra (2011), é o começo do autor em direção ao horror cósmico. No vilarejo interiorano no lado oeste de Arkham (cidade fictícia do estado de Massachusetts) um meteoro vindo do espaço cai na propriedade de um fazendeiro.

Uma das consequências que a pedra alienígena traz consigo é uma espécie de luz cromática, que causa danos na região, afetando tanto a flora e a fauna. Depois de contaminar o ambiente nada próspera mais naquela terra. O conto originalmente publicado pela revista de ficção científica “Amazing Stories”, foi pioneira em publicações desse tipo, a revista foi editada até 2005.

O filme dirigido pelo sul-africano Richard Stanley, que também é ator (A ilha do Dr. Moreau, 12 Macacos, Vampire Diary, entre outros) ele também assina o roteiro de A Cor que Caiu do Espaço (Color Out of Space, PRT, MYS, EUA, 2019). O filme estreou nos Estados Unidos em 26 de janeiro de 2020 e o lançamento mundial ficou para 5 de fevereiro. É uma produção de orçamento pequena US$ 6.000.000, mas que não conseguiu se pagar e que provavelmente não vai conseguir. Uma curiosidade é que boa parte dele foi filmado em Portugal (Lisboa) na Faculdade de Medicina de Nova Campo Mártires da Pátria, um diferencial, já que Stanley é conhecido por gostar de filmar no deserto africano.

Nathan Gardner (Nicolas Cage) é o fazendeiro que vive com a sua família em um belo sítio, com a vida quase tranquila, sua esposa Theresa (Joely Richardson) tem câncer, e os filhos ainda são adolescentes. Nathan que herdou o local de seu falecido pai, tornou-se um criador de alpacas, da família Camelídeos, mesma das Llamas, só que de menor estatura. A lã é muito utilizada para a confecção de roupas, casacos, bolsas e sapatos, muitas comunidades sobrevivem com a venda da fibra na Cordilheira dos Andes. Nathan utiliza para ordenha e o leite serve de alimento para a família dele, incluindo a carne do animal.

Color Out of Space

A jovem Lavinia Gardner (Madeleine Arthur) aspirante a Wica e leitora do livro dos mortos Necronomicon (nome de um livro de Lovecraft que contém fórmulas e rituais de magia negra) é flagrada pelo hidrólogo Ward (Elliot Knight) no momento em que intercedia em nome das forças ocultas, para que livrassem sua mãe do câncer. O ritual consiste em queimar uma mecha de cabelo da própria mãe, que ela subtraiu em algum momento.

Em uma noite qualquer, o casal resolve aproveitar a noite, Benny (Brendan Meyer) distraído no computador, Lavinia evocando algum espírito e o mais novo Jack é o primeiro a sentir que algo estava acontecendo depois de um pesadelo. Do nada o céu é tomado por uma variação de luzes cromáticas e latejantes. Todo o lugar é preenchido por essas luzes e em seguida o meteorito cai na terra da família Gardner.

Aos poucos cada um deles vão sofrendo os efeitos da exposição da pedra alienígena. Situações estranhas vão surgindo; como um odor que apenas Nathan consegue perceber; Lavinia em contato com a água começa a passar mal; Jack fica impressionado com algo que vinha do poço. As tempestades de raios coloridos aparecem apenas na região do sítio deles. Sempre localizadas de maneira natural, que parecem surgir de nenhum local específico.

No terreno grandes plantas carnosas na cor fúcsia vão crescendo do dia para a noite; de dentro do poço um enorme louva-a-deus roxo sai voando; a conexão com o rádios e a internet passa a sofrer uma interferência sem explicação; a água aparentemente fica contaminada e com cores estranhas. Os animais começam a ter atitudes estranhas, o cachorro deles some, o cavalo de Lavinia fica agressivo e foge, e as benditas alpacas de Nathan começam a agir de maneira peculiar. O tempo também sofre alguma interação e parece não ser mais o mesmo.

Color Out of Space
Alpacas antes da transformação.
Color Out of Space
Alpacas depois da transformação.

Segundo Lovecraft, sua teoria caso um dia os seres humanos dessem de cara com criaturas cósmicas, nos afetaria de tal forma, que não seríamos capaz de raciocinar em como descrevê-los, pois seriam completamente diferentes. O contato com seres de outro planeta, poderia colocar nossas mentes em colapso, não teríamos a capacidade de processar uma maneira de se comunicar.

A criação dessa cor era transformar ela em uma entidade, mas incompreensível para a raça humana, podendo apenas estabelecer semelhanças entre a cor e o espectro visual. Partindo desse silogismo o diretor, que como já foi mencionado também é o roteirista, junto com Scarlett Amaris, criaram uma atmosfera vaga, com luzes pulsantes e uma frequência de sons, que não parece estar dentro do quadro.

A criação da cor por parte da técnica é diferente da história original, que seria algo indescritível, muito complexo, mas Steve Annis, o diretor de fotografia seguiu um caminho oposto. É possível identificar e descrever que cores são aquelas, ainda que não tenhamos a certeza de um tom exato, não são estáveis.

Existe forte influência de filmes como O Enigma de outro Mundo (1982), feito pelo John Carpenter, A Mosca (1986), Calafrios (1975). E a equipe de efeitos especiais liderada pelo supervisor Dan Martin, rompe tudo na parte final, quando a ameaça da cor deixa de ser um perigo que ficaria apenas no poço ou na pele de Nathan, e se espalha por toda a cidade. Antes disso fica clara a homenagem ao monstro de Carpenter em The Thing, quando Theresa se transforma em uma criatura artrópode.

Começa com uma narração de um texto de Lovecraft e um estado meio contemplativo da natureza, e os seus sons quase que galácticos. Ao longo da trama o diretor vai tentando descrever como seria essa entidade cósmica, ou no que ela poderia se transformar, de maneira bem sutil. Quando o casal está na varanda e Theresa pergunta se Nathan ainda amaria ela, mesmo depois que ela perdesse alguma das pernas, é um sinal do que estaria por vir. Numa tentativa de socorrer Jack, os dois são capturados pela luz e se transformam em uma aberração, parte do corpo do garoto atravessa o da sua mãe e ambos viram uma criatura bizarra e nojenta, cheia de pernas.

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Color Out of Space
Nic Cage eliminando as Alpacas.

Toda a história é levada com seriedade, por mais absurdo que pareça, mesmo que situações vistas em cenas desencadeie uma gargalhada ou outra, se imagina que o trabalho é sério. Não para Nic Cage, o rei do overacting no cinema, termo usado para definir atuações exageradas. Todos os outros personagens agem como se existisse uma lógica interna para sua sanidade que está se deteriorando.

A queda do meteorito vai mudando a vida de cada membro daquela família. A situação em que se encontram com suas mentes se desintegrando de maneiras diferentes, mas com um mínimo de racionalidade. Já o trabalho desenvolvido por Cage aqui, no entanto, sempre explosivo ao extremo, pelo menos em quatro momentos ele coloca total descredito no que é mostrado.

Color Out of Space
Cage em um momento de autorreflexão.

Sua atuação nem chega a ser engraçada, é no máximo irritante e que compromete o trabalho das outras pessoas envolvidas. Se você acha que o seu momento de autorreflexão vai ajudar, só piora. Não que isso não tenha ajudado a catapultar sua carreira no cinema, O Beijo do Vampiro (1989), A Outra Face (1997) e o mais recente Mandy (2018), mesmo que trabalhando em inúmeras produções de gosto duvidoso, ele ainda pode ser chamado de astro.

Muitos filmes em que ele é descaradamente 100 % maníaco, pareciam personagens não tão conscientes, aqui é tudo orgânico, e o diretor não faz questão de frear. Em algumas cenas fica claro que ele estava totalmente fora da linha do roteiro.

Color Out of Space
“O que tocou esse lugar não pode ser quantificado ou entendido pela ciência humana. Era apenas uma cor vinda do espaço. “

Richard Stanley levou 25 anos para voltar a dirigir um filme depois que foi sumariamente demitido por John Frankenheimer, durante a polêmica produção A Ilha do Dr. Moreau (1996), depois de apenas três dias de filmagens. Mas ele continuou trabalhando em curtas como The Sea of Perdition (2006), The Sun’s Gone Dim (2006) e o documentário de 2013 L’autre monde.

A Cor que Caiu do Espaço é um filme horror/ficção científica bem realizado. Com uma proposta de filme B que vai além dos parâmetros de ser esquecível. Não é uma adaptação fácil, coisas do universo Lovecraft necessitam de uma imaginação muito fértil, e é preciso ter gosto para esse tipo de gênero, muitas cenas pareceram ridículas, mas Richard Stanley leva o mérito por ter sido fiel e ter se contido, em outras mãos o estrago seria maior. Um belo de um comeback, para um diretor quase que “injustiçado”.

FICHA TÉCNICA

A Cor que Caiu do Espaço (Color Out of Space, PRT, MYS, EUA, 2019)

Direção: Richard Stanley.

Roteiro: Scarlett Amaris, Richard Stanley e H.P. Lovecraft (baseado no conto The Colour out of Space, 1927).

Elenco: Nicolas Cage, Joely Richardson, Madeleine Arthur, Elliot Knight, Tommy Chong, Brendan Meyer, Julian Hilliard, Josh C. Waller, Q’orianka Kilcher, Melissa Nearman, Amanda Booth, Keith Harle.

Produção: Brett W. Bachman, Timur Bekbosunov, Simão Cayatte, Johnny Chang, David Gregory, Stacy Jorgensen, Emma Lee, Elisa Lleras, Michael M. McGuire, Daniel Noah, Mário Patrocínio, Josh C. Waller, Lisa Whalen, Peter Wong, Elijah Wood.

Trilha Sonora: Colin Stetson.

Diretor de Fotografia: Steve Annis.

Duração: 1h 51 min.

Cor.

Gênero: Horror/Ficção Científica.

Proporção de Tela: 2.35 : 1.