FRANÇOIS TRUFFAUT

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François Truffaut, um dos criadores da Nouvelle Vague (movimento artístico do cinema francês, surgido nos anos sessenta), começou sua carreira de cineasta dirigindo um curta-metragem em preto e branco chamado: Uma Visita (Une visite, 1954, FRA). O curta tinha 8 minutos de duração e foi filmado em 16 mm. Seu amor pelo cinema, notadamente, visto em toda sua filmografia, e aspectos como perseverança, lucidez até a liberdade de expressão são os pontos que permearam boa parte dos seus filmes.

Tendo contribuído com o argumento do roteiro do filme anarquista, Acossado (A Bout de Souffle, 1959, FRA), de Jean-Luc Godard, uma das obras de maior relevância da carreira do diretor, que também era seu amigo e fundador da Nouvelle, juntamente com André Bazin (1918-1958). Truffaut foi coprodutor de um filme de Jean Cocteau, O Testamento de Orfeu (1959) e roteirizou a história de Mata-Hari (1964), de J. Richard.

Um dos principais nomes que se destacou dentro da crítica cinematográfica internacional e da teoria do cinema foi o francês André Bazin. O próprio Bazin que trouxe Truffaut para escrever críticas na elogiada revista de cinema conhecida como: Cahiers du Cinéma (1951). Muito popular dentro e fora da França nos anos cinquenta e sessenta. É uma das mais importantes publicações no que se refere à crítica de cinema no mundo. A revista surgiu quando alguns críticos de cinema resolveram expressar suas ideias e se tornarem diretores. Nomes como François Truffaut, Claude Chabrol e Jean-Luc Godard, colaboraram em várias edições. Era a revista que defendia o termo “politique des auteurs” ou política de autores, em português. Que segundo eles, um filme é uma produção individual e de responsabilidade do diretor. E Truffaut, era o que saia em defesa dos seus diretores prediletos: Alfred Hitchcock e Jean Renoir.

Bazin incentivava seus críticos a perseguirem suas ideias para além das questões estéticas e filosóficas que lhe interessassem, e Truffaut escrevia seus artigos para a revista de forma muita agressiva. Ele criticava de forma mordaz a “tradição de qualidade” do cinema francês daquele período. Isso pode ser notado quando escreveu um artigo na Cahiers, em que atacou de maneira contundente o trabalho dos roteiristas, Jean Aurenche (1903-1992) e Pierre Bost (1901-1975). Que naquele momento contribuíam com as obras literárias como: La Symphonie Pastorale (A Sinfonia Pastoral), Le Diable au Corps (Adúltera) e O Vermelho e o Negro. Eles tinham em mente adaptar o romance Diário de um Pároco de aldeia, de Georges Bernanos, considerado a obra mais popular do escritor e um dos melhores livros de língua francesa do século XX. Este último projeto foi entregue a Robert Bresson, que dirigiu o filme em 1951. Truffaut comparou os métodos de Aurenche e Bost com os de Bresson, exatamente como fez Kracauer, e as suas conclusões foram opostas. Para ele, Aurenche e Bost estavam querendo criar padrões da literatura francesa, ao insistir em adaptar tudo de acordo com os métodos de estúdio perfeitos.

Mas foi com Os Pivetes (Les Mistons, 1957, FRA), outro curta-metragem que Truffaut ganhou seu primeiro prêmio no festival Film Mondial de Bruxelas. O filme é baseado em um romance do escritor francês Maurice Pons (Mademoiselle B.), e fala da história de dois garotos que resolvem seguir um casal de amantes. Tem a duração de 23 minutos.

Em 1958, então casado com Madeleine Morgenstern, teve os custos da produção do filme Os Incompreendidos (Les 400 Coups, 1959, FRA), seu primeiro longa-metragem, bancado pelo pai de Madeleine. O papel principal foi feito pelo jovem ator Jean-Pierre Léaud, na época com 14 anos, Antoine Doinel é considerado alter ego do diretor. Mostra um jovem internado em um reformatório, com 12 anos, assim como Truffaut no passado. O filme marcou o surgimento da Nouvelle Vague e foi sucesso internacional. Obtendo uma indicação ao Oscar de melhor roteiro original, no ano de 1959 e ganhando o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes, naquele ano. O filme o colocou no mapa da cultura cinematográfica mundial e o personagem apareceu em mais quatro filmes, sendo esse o mais famoso deles.

Atirem no Pianista (Tirez sur le Pianiste, 1962, FRA), foi considerado um fracasso segundo a crítica, e muitos jornalistas da época disseram que seria o fim da Nouvelle Vague. Era um filme noir, baseado no livro policial do escritor americano David Goodis (1917-1967), autor de The Dark Road, que foi adaptado para o cinema em 1947.

Não se deixando abater pelas críticas negativas ele dirigiu Uma Mulher Para Dois (Jules et Jim, 1962, FRA), hoje considerado um clássico do cinema francês. Tinha a atriz Jeanne Moreau no papel principal, por quem Truffaut era muito apaixonado, mas ela na época mantinha um relacionamento com o famoso estilista Pierre Cardin. O enredo tratava do amor de dois amigos apaixonados pela mesma mulher, Jules que era francês e Jim, o alemão, que vão viver um ménage a trois sofisticado. Adaptado do livro do jornalista e escritor Henri-Pierre Roché (1879-1959), provou que a Nouvelle Vague ainda estava bem viva.

Seu primeiro filme colorido foi uma ficção científica baseada no livro do escritor americano famoso na área de ficção científica, Ray Bradbury (1920-2012), chamado Fahrenheit 451 (idem, 1966, FRA). Era um pesadelo futurista, sobre uma sociedade em que os livros haviam sido proibidos. Recebeu duas indicações importantes uma no Bafta, considerado o Oscar dos ingleses e outra no Festival de Veneza.

Dirigiu a adaptação para o cinema A Noiva Estava de Preto (La Mariée Était en Noir 1967, FRA/ITA), baseada na obra do nova-iorquino William Irish. Esse livro Truffaut lia escondido da mãe. Era uma homenagem para a namorada Jeanne Moreau, sobre uma mulher que se vestia de preto e deixava cadáveres pelo caminho. Contribuiu não só com a direção, mas foi um dos roteiristas. As filmagens foram uma das mais conturbadas, pelas enormes brigas com o diretor de fotografia Raoul Coutard, que reclamava da intromissão constante dele em seu trabalho e por Pierre Cardin ser o figurinista do filme, e ex-namorado de Moreau.

Jean-Pierre Léaud retorna com o personagem que o deixou conhecido, Antoine Doinel, em Beijos Proibidos (Bisers Volés, 1968, FRA), aqui ele já está mais velho e se apaixona pela personagem de Christine Darbon (Claude Jade), que não corresponde aos interesses dele. Desiludido, mas ainda incansável na tentativa de reverter a situação, ele acaba se tornando detetive particular. Truffaut foi habilidoso no uso dos cortes rápidos, que deixavam transparecer a personalidade inconstante de Doinel. O roteiro escrito por Truffaut, Claude de Givray e Bernard Revon, mistura drama e humor com os sentimentos vividos pelo personagem, criando uma atmosfera de identificação entre o que é visto na tela e o que de fato é realidade. Uma atração à parte é a paisagem de inverno da cidade de Paris.

Novamente enveredando pelo estilo noir, com A Sereia do Mississippi (La Sirene du Mississipi, 1969, FRA), que tinha as participações de Catherine Deneuve e Jean-Paul Belmondo. Sobre um empresário que se corresponde através de cartas com uma mulher e decide casar-se com ela. O filme é uma inversão de valores, em que se têm Belmondo como o rapaz sério e casto, e Deneuve como a escandalosa.

Em O Garoto Selvagem (L`Efant Sauvage, 1970, FRA), o próprio Truffaut aparece como ator interpretando o professor Itard, que educa um garoto que foi criado na selva. Pierre Roché era uma figura constante nas adaptações de Truffaut, Duas Inglesas e o amor (Les Deux Anglaises et le Continent, 1971, FRA), também era baseado em um livro do escritor. E tratava de mais um triângulo amoroso, só que desta vez entre duas inglesas e um rapaz francês. Uma Jovem tão Bela como eu (Une Belle Fille comme moi, 1972, FRA), de Henry Farrell, é lançado em 1972, sobre uma socióloga que entrevista uma mulher acusada de assassinato.

A fama internacional veio com a comédia dramática A Noite Americana (La Nuit Americaine, 1973, FRA/ITA), que recebeu um Oscar na categoria de filme estrangeiro e levou três Baftas. Era um filme dentro de outro filme, o próprio Truffaut atuava como diretor/ator, mesclando realidade e ficção. O personagem dele era o diretor do filme Je vous presente Pamela, sua direção se misturava com a de A Noite Americana, alguns técnicos que estavam no filme acabavam atuando como atores no fictício filme. O elenco tinha os atores: Jean-Pierre Léaud, Jaqueline Bisset, Nathalie Baye e Valentina Cortese que foi indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante. Truffaut chegou a ser indicado ao Oscar de melhor diretor e perdeu para Francis Ford Coppola com a sua segunda parte da trilogia O Poderoso Chefão (1974).

Fim dos anos setenta Truffaut emplaca dois grandes sucessos: O Homem que Amava as Mulheres (L`Homme qui Aimait les Femmes, 77, FRA), e o Quarto Verde (La Chambre Verte, 1978, FRA), ele fazia o papel de um jornalista envolto com a morte prematura da esposa, baseado em dois contos de Henry James, autor de A Outra volta do Parafuso. Em 1979, põe fim à história de Antoine Doinel, interpretado por Léaud, em Amor em Fuga (L`Amour em Fuite, 1978, FRA).

Sua primeira parceria com o ator Gérard Depardieu foi com o filme O Último Metrô (Le Dernier Metro, 1980, FRA), e novamente trabalha com Catherine Deneuve. A história narra uma Paris ocupada por nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Serve como pano de fundo para um personagem judeu que tenta montar uma peça no porão de um teatro. Ele já havia prestado uma homenagem à literatura com Fahrenheit 451 e o cinema em A Noite Americana, desta vez o homenageado foi o teatro, outra arte muito admirada por ele. É um drama metalinguístico, que não foca nos acontecimentos trágicos da guerra, Truffaut foi chamado de “alienado”, pela abordagem diferenciada desse período. Todavia, ele como tendo defendido a política de autores, o filme é um olhar peculiar dele e o tema principal gira em torno do teatro.

Essa fase da sua carreira também ficou marcada por passar a retratar as relações entre homens e mulheres. A Mulher do lado (La Femme d’à Côté, 1981, FRA), descreve a trágica história de amor entre Bernard e Mathilde, que depois de viverem um romance no passado se reencontram e descobrem que são vizinhos. Casados com outras pessoas os dois amantes acabam morrendo ao estilo Romeu e Julieta. Nos papéis principais estão Gérard Depardieu e Fanny Ardant, esposa do diretor na época, ela foi indicada ao César por esse personagem (equivale ao Oscar, só que francês).

Sua última obra cinematográfica De repente, num domingo (Vivement Dimanche, 1983, FRA), é mais uma adaptação literária, desta vez de Charles Williams. Sobre um homem que buscava inocência ao ser acusado de um crime que não cometerá, e conta com ajuda de uma mulher, uma femme fatale. Com inúmeras referências ao uso da câmera utilizado por Alfred Hitchcock em seus filmes, pincelado com homenagens de Janela Indiscreta, quando os personagens observam algo através da fresta de uma janela e por Intriga Internacional, já que o protagonista tentar provar que não é o culpado. Tem um predominante clima noir, caracterizado pela fotografia em preto e branco marcante de Nestor Almendros. O cineasta brigou para que o filme fosse em P&B, o estúdio tinha preferência pelo colorido, visando lançar o filme na televisão e conseguir mais audiência.

François Truffaut nasceu no dia 6 de fevereiro, no ano de 1932, na charmosa cidade de Neuilly-sur-Seine, região dos Altos do Sena (França). Falecendo em 21 de outubro de 1984, vítima precoce de tumor no cérebro. Meses antes ele já havia se queixado de fortes dores de cabeça. Sua última esposa foi Fanny Ardant, atriz famosa na França e que já trabalhou com nomes como Costa-Gavras, Ettore Scola e Alain Resnais. Fanny foi protagonista do seu último filme e teve uma filha com François, Joséphine Truffaut (1983). Do seu primeiro casamento com Madeleine Morgenstern teve duas filhas Laura (1959) e Eva (1961). Quando ainda era casado com Madeleine, manteve um rápido romance com uma atriz de 17 anos, chamada Maria-France Pisier e chegou a ficar noivo de Claude Jade.

Era rebelde quando jovem, faltava à escola para ir ao cinema, sua fama de indisciplinado fez com que seus pais Roland Truffaut (pai adotivo) e Jeanine de Montferrand o internassem em um reformatório para jovens. Ainda na adolescência costumava cometer pequenos furtos, mas a paixão pelo o cinema o fez criar Cercle cinémane, em 1947, seu primeiro cineclube.

Sua passagem pela Cahiers du Cinéma durou seis anos, e ele publicou 170 artigos, entre críticas e entrevistas com diretores famosos como: Jean Renoir, Max Ophuls e Roberto Rossellini. François Truffaut, assim como Bazin, compartilhava as mesmas crenças da revista Cahiers, mas sua maneira de escrever seus textos e ver os filmes era mais livre e pessoal do que Bazin. Em Les Films de mavie (1981), ele deixa claro seu olhar afetuoso, como quem admira tanto um drama de Ingmar Bergman ou uma comédia escrachada de Jerry Lewis.

Truffaut publicou um livro sobre o inglês radicado americano, Alfred Hitchcock, seu ídolo. Realizado durante várias entrevistas (500 perguntas na verdade), que ele teve com o famoso diretor. Onde expôs toda a obra de Hitchcock, que incluíam detalhes de criação de todos os filmes de suspense do grande mestre de suspense do cinema e coisas íntimas também.

Considerava o crítico André Bazin como um pai, pois ele que o ajudou, não só quando o seu cineclube estava acabando, mas o incentivou o gosto pela escrita e pela leitura. Aos 18 anos, já era o assessor particular de André Bazin e passou a frequentar a Objectif 49, seleto grupo de intelectuais da época entre eles: Orson Welles, Roberto Rosselini (chegou a ser assistente dele) e Jean-Luc Godard. Foi convidado pela Warner Brothers para dirigir a refilmagem do clássico do cinema Casablanca (1942), depois da fama de A Noite Americana, tendo recusado o convite. Apareceu como ator no filme Contatos Imediatos do Terceiro grau (1977), de Steven Spielberg, ele interpreta um cientista francês chamado Claude Lacombe, mas suas investidas como ator nunca superaram o posto de cineasta.

Apesar de serem amigos, sua parceira com Godard, acabou em meados dos anos sessenta, quando Truffaut já estava famoso. Godard tentou retomar a amizade nos anos oitenta, mas sem sucesso. Truffaut havia discordado de Godard quando vieram às críticas negativas do filme Uma Mulher é uma Mulher (1961), ele acusou o amigo de usar imagens nada convencionais dificultando o entendimento do público. Godard odiou o posicionamento dele e a partir daí iniciou-se um rompimento para sempre na vida dos dois, ele chegou a exigir 100 mil francos da bilheteria de A Noite Americana, alegando que Truffaut teria gasto o dinheiro em um filme comercial, e ele, Godard, era quem merecia ter filmes financiados, já que era produtor independente. Os dois utilizavam os artigos da Cahiers du Cinéma para trocas farpas, se um escrevia seu diário de produção de um filme o outro fazia igual, além de se agredirem verbalmente através de cartas. Truffaut recusou-se a participar de uma manifestação no Festival Avignon, alegando que os manifestantes eram estudantes burgueses e que partes dos policiais vinham da classe operária. O fato é que um tornou-se um estudioso e o outro um ativista político.

Morreu no auge da carreira aos 52 anos e foi o diretor de atores. Seus filmes sempre foram voltados para as relações humanas, adaptações corretas, triângulos amorosos aclamados ou tragédias românticas. É um dos cineastas obrigatórios para quem pretende estudar linguagem cinematográfica. Dono de uma das filmografias mais completas no que se refere à análise fílmica.

De todas suas obsessões, talvez, a mais forte delas fosse o amor, de inúmeras formas imagináveis: a paixão violenta, a amizade, o sexo e o carinho. Truffaut deixou um legado para as gerações futuras e um aprendizado de que às vezes o jovem precisa apenas de um incentivo. Dirigiu 26 filmes em 25 anos de carreira e é considerado um dos maiores diretores de cinema que a França já teve. Antes de morrer estava com vontade de dedicar mais tempo para a literatura, ele pensava em escrever uma autobiografia em parceria com Claude de Givray, o que não foi possível. Sua morte repentina deixou um enorme vazio no cinema francês.

Aquilo que fizemos ontem, continua conosco hoje. Trecho do filme Atirem no Pianista.

FILMOGRAFIA FRANÇOIS TRUFFAUT      

Uma Visita (1955)

Os Pivetes (1957)

Os Incompreendidos (1959)

Atirem no Pianista (1960)

Uma Mulher para Dois (1962)

Um Amor aos vinte anos (1962)

Um só Pecado (1964)

Fahrenheit 451 (1966)

A Noiva estava de Preto (1968)

Beijos Proibidos (1968)

A Sereia do Mississipi (1969)

O Garoto Selvagem (1970)

Domicílio Conjugal (1970)

Duas Inglesas e o Amor (1971)

Uma Jovem Tão Bela como eu (1972)

A Noite Americana (1973)

A História de Adèle H (1975)

Na idade da inocência (1976)

O Homem que Amava as Mulheres (1977)

O Quarto Verde (1978)

Amor em Fuga (1979)

O Último Metrô (1980)

A Mulher do Lado (1981)

De Repente, num Domingo (1983)