RINGU, O CHAMADO

 

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yūrei são fantasmas do folclore japonês, angustiados por não terem um funeral respeitado. 

 

Não é deste mundo. É a ira Sadako. Ela rogou uma praga sobre nós.” Ryûji Takayama/Ringu

Dirigido pelo ex-assistente de direção Hideo Nakata, que iniciou a carreira com Joyû-rei (1996), que conta a história de um diretor de cinema assombrado por imagens que ele viu na TV quando era criança. Em Ringu a trama é inspirada no livro do escritor japonês Kôji Suzuki, da trilogia Ring. O livro lançado em 1991 logo virou um best-seller, e em 1998, se transformou em um filme de sucesso, 100% made in Japan. Sobre uma lenda do folclore japonês que uma criada Okiku, teria sido morta pelo patrão, histórias de fantasmas transportadas para a atualidade.

Você pode até achar o começo um pouco parecido com a já conhecida fórmula de filmes de terror americanos (adolescentes que adoram mexer com o desconhecido), a cena do telefone lembra Pânico, do Wes Craven, feito dois anos antes. Ringu acompanha a jornada da repórter Reiko Asakawa (Nanako Matsushima), que começa investigar um caso estranho, que depois que um grupo de jovens assistia um vídeo, todos acabariam mortos de maneira misteriosa, parece uma história boba, repassada por adolescentes atrás de aventura.

O vídeo com duração de poucos segundos, contém imagens de uma mulher se penteando em frente um espelho, palavras sobre uma erupção, pessoas rastejando, um homem com a cabeça coberta, um anel de luz e um poço. Com defeitos de som e imagem, como se a fita já tivesse sido copiada várias vezes, resultando em uma imagem granulada. Ninguém sabe onde surgiu, mas que em um lugar em Izu, é de onde veio a última fita.

Aparentemente ninguém consegue escapar da maldição, depois de sete dias que a pessoa viu o pequeno vídeo ela é encontrada morta, quando Tomoko Ôishi (Yûko Takeuchi) conta para uma amiga sobre o vídeo, a amiga dela enlouquece quando encontra Tomoko morta. O rosto dos cadáveres ficam contraídos como se estivessem visto algo terrível. Logo essa ideia de um filme de terror clássico para adolescente vai se diluindo, quando Reiko descobre que Tomoko morreu depois de assistir o vídeo. Se torna um conto de horror policial.

O filme de Nakata criou um novo gênero nos filmes de terror japonês, o “J-horror”. São filmes em que a protagonista é sempre uma mulher tomada por fantasmas de garotas, inaugurou um filão em Hollywood, incluindo o remake de Ringu, O Chamado, de 2002, que é até uma versão acima da média, protagonizada pela inglesa Naomi Watts.  

Reiko então resolve refazer os últimos passos do grupo de amigos que assistiu a amaldiçoada fita, ela vai parar em uma cabana na ilha de Izu, perto do monte Fuji. Depois de encontrar o vídeo e assisti-lo, recebe um telefonema avisando que terá apenas sete dias de vida, sete também é a hora que marca no relógio quando ela atende o telefone. Ela volta para casa e conta com a ajuda do ex-marido para tentar decifrar as mensagens subliminares que estão no vídeo.

O MEDO GANHA VIDA PRÓPRIA

A jornalista se complica quando descobre que o seu filho assistiu o vídeo e fica também marcado para morrer. Para tentar entender o que aquela fita faz com as pessoas, Reiko faz uma cópia e mostra para Ryûji Takayma (Hiroyuki Sanada). Aos poucos Reiko vai descobrindo quem era a mulher no vídeo. Era uma vidente que no passado tinha ficado famosa por prever a erupção de um vulcão e que sabia ler mentes. Depois que um médico apresenta ela para um grupo de jornalista, ela é desmascarada, é aí que Sadako mostra do que é capaz. Ela deseja a morte de um dos jornalistas, que cai morto com a face igual das novas vítimas.

Depois que o filme volta no passado e explica o que aconteceu com a garota, ela foi jogada num poço pelo próprio pai, não fica explicado o motivo. Mas o cabelo do fantasma é penteado na frente do rosto, pois ela não teve o rito funerário digno. No Japão as mulheres eram enterradas com o cabelo penteado para cima e não para baixo. Como algo tão banal pode entrar em choque com a realidade e as tradições japonesas do imaginário Yūrei.

Quando você acha que o diretor deixou de lado os sustos, ele vai juntando as peças do quebra-cabeça, entremeado por pausas silenciosas. O filme definiu tudo que foi feito  sobre o gênero depois de Ringu, tanto as continuações japonesas, até Água Negra (2002) do próprio Nakato, as versões hollywoodianas e as infinitas “inspirações”.  

Aqui o fantasma de Sadako, e no livro, Oniku, parece procurar uma redenção, mas com o elemento do mal sendo ainda o destaque. Reiko acha que encontrando o corpo, ou restos mortais da garota, pode fazer um enterro decente para ela, e acabar com a maldição. Pelo menos ela conseguiu se livrar da morte, mas seu ex-marido não. É só então que ela descobre que precisa salvar a vida do seu filho, já que a maldição não foi totalmente desfeita. A cópia do vídeo tem que ser gravada e mostrada para outra pessoa, a praga de Sadako não tem fim.

Ringu é diferente dos filmes de terror anteriores, ele não é sustentado por sustos fáceis, sangue, escatologia, ele depende mais da imaginação do espectador. E tem esse aspecto de filme feito para a TV, realmente é o tipo de filme para ser visto na televisão, com um grupo de amigos ou sozinho, mas não se desespere se o telefone tocar no final.

FICHA TÉCNICA

Ringu (Ring, The, 1998, JAP)

Direção: Hideo Nakata.

Roteiro: Hiroshi Takahashi, baseado em Ring de Kôji Suzuki.

Produção: Shinya Kawai, Takenori Sento.

Elenco: Nanako Matsushima, Hiroyuki Sanada, Rikiya Ōtaka e Yoichi Numata.

Trilha Sonora: Kenji Kawai.

Duração: 90 minutos.

Cor.

Distribuição: Toho.

Ano: 1998.