PARASITA

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Você sabe que tipo de plano nunca falha? Sem plano. Nenhum plano. Você sabe porque? Porque a vida não pode ser planejada. Olhe a sua volta. Você achou que essas pessoas planejaram dormir no ginásio de esportes com você? Mas aqui estamos agora, dormindo juntos no chão. Portanto, não há necessidade de um plano. Você não pode dar errado sem planos. Não precisamos fazer um plano para nada. Não importa o que acontecerá a seguir. Mesmo que seja matar alguém ou trair seu país, nenhuma merda importará. Entende?” Ki-taek / Parasita, 2019.

CONTÉM SPOILERS

Depois que conquistou a independência após a II Guerra Mundial (1939-1945), a Coreia ficou dividida entre do Norte, comunista e do Sul, capitalista. Antes quando eles ainda eram dominados pelo Japão, a indústria de cinema coreana não prosperou, faziam poucos títulos mudos. Quando o Japão partiu para conquistar a China a Coreia virou máquina de propaganda.

O cenário só foi mudar nos anos sessenta, com filmes como Hanyo (1960) e Obaltan (1961), dramas familiares e sombrios que envolviam a Guerra da Coreia (1950-1953). O cinema coreano só começou a ter visibilidade internacional a partir dos anos noventa com  filmes como Seopyeonje (1993) e O dia em que o porco caiu no poço (1996). Já nos anos 2000 Oldboy (2003) fez com que o cinema coreano atingisse o grande público mundial.

Este ano de 2019 foi o auge para o cinema asiático com o filme Parasita (Gisaengchung, KOR, 2019), do excelente Joon-ho Bong, que também assina o roteiro, primeira produção coreana vencedora com a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Mesmo sendo um prêmio inédito, em 2002 Im Kwon-taek venceu como melhor diretor em Cannes por Pinceladas de fogo (2002).

Seguindo os mandamentos do filósofo revolucionário socialista Karl Marx (1818-1883) uma família paupérrima da Coreia decide “tomar os meios de produção” ou quase isso. Para o plano dar certo todos devem se unir para se infiltrar na mansão de uma família milionária. Tudo começa quando Mín. (Seo-joon park) amigo da família, pede ajuda para Kim Ki-woo/Kevin (Woo-sik Choi) dar aulas particulares de inglês para a filha mais velha de uns ricaços. Meio receoso com o convite, pois para tal função ele teria que estar matriculado em uma Universidade, Kim/Kevin aceita o convite, já que ele, o pai, mãe e a irmã passam o dia dobrando caixas de pizzas para uma empresa que paga mal, e ainda desconta quando uma das caixas ficam mal dobradas. Com ajuda da irmã de Kim eles forjam um certificado e ele vai trabalhar na casa dos Parks.

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Logo no início o espectador pode se pegar torcendo para que a família de pobretões consiga ao menos ter um jantar decente e roupas limpas para vestir. Mas não se engane com eles, não é porque são pobres, que são pessoas de caráter. Aqui a pobreza não vem acompanhada de ingenuidade ou burrice, eles são bem safos. Antes de colocar o pé para fora da mansão, Kim induz a matriarca da família, a senhora Park Yeon-kyo (Yeo-jeong Jo) que o filho caçula tem o dom para a pintura, e que ele conhece um alguém que é amigo de uma especialista em psicologia da arte, tudo papo furado, para introduzir a irmã falsaria dele dentro da casa.

Mesmo estando em voga filmes com temáticas sociais, Parasita não tenta forçar a ideia que o dinheiro traz felicidade. E que aquelas pessoas estavam em busca de cometer um roubo, ou se vingar pela posição em que eles estavam e que deveria ser diferente se não fosse o aspecto financeiro. Até a metade do filme sim, eles tramam para que cada um passe a ter uma função dentro da casa, mas recebendo salário, tanto em que uma determinada cena o pai da família pobre, fala que se juntar o salário de todos eles, logo poderiam sair daquela espelunca que eles moram.

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Só no final que ele realmente se revolta e lembra de algo que Park Dong-ik (Sun-kyun Lee) fazia. Ele se incomodava com o cheiro de Kim Ki-taek (Kang-ho Song), as roupas dele tinham um cheiro característico, não só dele, como as do Kim, da irmã dele e da mãe que acabou indo trabalhar lá depois que eles sabotaram a governanta antiga. É o cheiro que segundo eles, só as pessoas que andam de metrô tem. Para a senhora Park só quem anda em transporte público tem esse cheiro peculiar e todos os novos empregados têm.

Joon-ho Bong conseguiu trabalhar bem o humor, drama e o terror. E ainda fazer crítica social, mesmo que a linguagem cinematográfica se aproxime mais do ocidente. A técnica, o visual e a composição de cena é tudo impecável. O uso da proporção de tela em 2.39:1 foi bem acertada, por causa do tamanho do ambiente da mansão, que são espaços grandes, ele fez questão que tudo coubesse no tamanho da tela.

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Talvez se perca em um fragmento ou outro, na continuidade e na verossimilhança. Depois de uma forte chuva e ter que caminhar a pé na volta para casa, não teria como o celular do Kim continuar funcionando. São detalhes que não comprometem o ritmo e nem faz o filme cair em nenhuma pontuação. Já é alardeado como uma obra-prima entre os críticos e o público.

RAMEN/UDON COM FATIAS DE LOMBO DE PORCO

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Quando Kim questiona a namorada Park Da-hye (Ji-so Jung) filha do casal de ricos, se ele pertencia aquele mundo, ele tem consciência que o golpe planejado por ele, e que a família embarcou, mas que no fim de tudo, tanto ele como os outros voltam no fim do dia para a cabeça de porco em que vivem. Mesmo que um dia ele se esforce muito e consiga dinheiro para sair dali, o abismo social entre este tipo de família não tem solução. A sala da casa da família do Kim é de frente para a rua, que constantemente um bêbado insiste em urinar por ali perto. Como a janela é de vidro e eles não têm uma cortina, são sempre surpreendidos pela cena desagradável. Já na mansão estilo high tech a sala é ampla e a vista é para um lindo jardim e um gramado perfeito.

Chung-sook (Hye-jin Jang) a mãe do clã de charlatões, reclama uma vez, que era melhor a visita ter levado comida invés de um presente e que se ela tivesse o tanto de dinheiro que os Parks têm, ela também seria uma pessoa legal.

O problema aqui é o conforto que todo pobre deseja. Ninguém gosta de pegar ônibus lotado, ter uma casa que alaga ou um sabonete de má qualidade para tomar um banho. As pessoas se acostumam com aquilo que é ruim, mas com a mesma facilidade, também se acostumam com o que é bom. Nesse ponto o filme tem uma reviravolta, ou plot twist, como gostam os mais modernos.

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Parasita que no dicionário pode ser um verme que se alimenta de um outro organismo, mas sem mais traumas para o ser humano, apesar que tem vermes que podem sim, trazer algum risco para a saúde. Mas também existe outra denominação, “diz-se de ou indivíduo que vive à custa alheia por pura exploração ou preguiça”. Não achem que o parasita do título é apenas a família de pobres que se instalaram na mansão. A senhora que trabalhava para os Parks antes de ter sido mandada embora, escondia um segredo. Aquela mansão era de um arquiteto muito famoso e que tinha construído um banker no porão. Com medo de uma guerra nuclear e as ameaças de Kim Jong-un, muitos coreanos, provavelmente os mais abastados, tem um meio de se proteger. Mas a governanta não repassou essa informação para os novos donos, com isso ela manteve o marido escondido dentro do banker durante quatro anos, sem ninguém desconfiar. Ele era o parasita.

Um dia quando os Parks resolvem dar um passeio para um lugar distante, Kim e a sua família se esbaldam com bebida, comida e banhos de banheira. Tem um ditado popular que diz que: “quando o gato sai, o rato faz a festa”. O diretor meio que mata o enredo final justamente nesta cena, em que eles estão reunidos. Chung-sook diz que o marido, caso os Parks chegassem naquele momento de balbúrdia, ele seria o primeiro a sair correndo, igual quando acendemos uma luz e todas as baratas saem correndo. E é isso que acontece no final.

Mas quem toca a campainha naquela noite não são os donos da casa, mesmo porque eles teriam a chave. Moon-gwang (Jeong-eun Lee) a governanta anterior retorna para resgatar o marido que vivia no porão. Porém, nada sai como o planejado, pois como Ki-taek já tinha dito, nada de planos. Ela descobre que todos ali são da mesma família e que vai denunciar eles. Uma luta corporal acontece e nesse meio tempo os donos da casa chegam e eles dão um jeito de se esconderem até o amanhecer.

Tem uma piada interessante com o aplicativo de mensagens conhecido como WhatsApp. A governanta gravou um vídeo como prova que eles não são quem dizem ser. Ela compara o envio da mensagem como uma bomba nuclear. O botãozinho de enviar nunca foi tão perigoso, dependendo do que vai ser enviado, pode acabar com uma família ou até mesmo destruir um país. Uma sátira com o líder norte-coreano, o filme é da Coreia do Sul, ou Coreia boa como chamam.  

No final temos um banho de sangue em câmera lenta bem ao estilo hollywoodiano. Quando o marido da antiga empregada escapa do porão e se arma com uma faca e ataca Ki-jung (So-dam Park) o pai dela que já estava de saco cheio de como Dong-ik tratava os empregados. Ele tampa o nariz quando chega perto do homem que tinha atacado a moça, sendo que ele já havia falado para Ki-taek vestir uma fantasia de índio, pois ele estava recebendo um dinheiro extra, e que tinha que parecer feliz para os convidados da festa de aniversário. Acaba cravando uma faca no patrão.

Ele quer dizer que como você está sendo pago, é um dever se a sujeitar a qualquer coisa. Alguém como ele que vivia dobrando caixas de pizzas ganhando uma miséria, e teve que mudar de identidade para juntar um dinheiro para um dia morar em um lugar melhor. Mas que mesmo sendo um falsário, ele tem dignidade. Na metade do filme o personagem dele fica preocupado se o antigo motorista vai conseguir logo um emprego novo, já que uma armação da filha foi feita para que ele assumisse o posto.

No meio da confusão Kim é atacado, a irmã dele morre e o pai dele, como a mãe dele já tinha falado que em uma situação de risco ele seria o primeiro que fugiria. Ele escapa para o porão e permanece lá sem ninguém saber por um bom tempo que ele se se trancou lá. O filho dele e a esposa cumprem uma pena, mas depois são soltos. Sabendo que o filho entendia de código morse, de dentro do porão, todos os dias, através de interruptor ele envia esses códigos. Kim descobre que o pai ficou preso no porão da mansão e escreve uma carta dizendo que ele vai conseguir bastante dinheiro, vai comprar a casa e tirá-lo de lá. Passa alguns anos e Kim fica rico, compra a casa e liberta o pai dele.

Mas como na visão de Joon-ho Bong a vida é amarga e não importa se você é rico ou pobre, tudo não passou de um sonho e tanto Kim como o seu pai, continuam na mesma situação. O filme não te faz torcer por um dos lados, todos ali tiveram o que mereceram. Nem todo pobre é burro e nem todo rico é educado sempre, no salve-se quem puder, todos salvam a própria pele primeiro.

FICHA TÉCNICA

Parasita (Gisaengchung, KOR, 2019)

Direção: Joon-ho Bong.

Elenco: Kang-ho Song, Yeo-jeong Jo, So-dam Park,     Woo-sik Choi, Sun-kyun Lee, Seo-joon Park, Ji-so Jung, Hye-jin Jang e Jeong-eun Lee.

Roteiro: Joon-ho Bong e Jin Won Han.

Produção: Ok Kyung Bang, Joon-ho Bong, Min Heoi Heo, Young-Hwan Jang, Joohyun Lee, Miky Lee, Yang-kwon Moon, Park Myeong-Chan, Kwak Sin-ae.

Trilha sonora: Jaeil Jung.

Diretor de fotografia: Kyung-pyo Hong.

Duração: 132 minutos.

Cor.

País: Coreia do Sul.

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