DENNIS HOPPER, O SELVAGEM

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É realmente difícil ser livre quando você pode ser comprado e vendido no mercado.” Sem Destino, 1969.

Ator americano nascido em 1936, na cidade de Dodge City, no estado do Kansas, famosa por ser a terra dos caubóis. Onde passou parte da infância numa fazenda de trigo, que pertencia a sua família. Começou a carreira como artista gráfico, mas logo desistiu e foi estudar na famosa escola de atores Actors Studio, dirigida pelo lendário Lee Strasberg, em Nova York.

Escalado para o personagem Goon, integrante da gangue no filme Juventude Transviada (Rebel Without a Cause,1955), logo ficou amigo do astro James Dean e acabou ficando marcado pelo estigma de rebeldia que Dean carregava. Foi através dele que conheceu o “método” e as drogas, entre elas o peiote, que segundo ele, Jimmy mantinha sempre fervendo dentro de uma panela e a maconha, que o acompanhou até os seus últimos dias de vida, companheira longínqua. Antes de morrer chegou a gastar US$ 700 dólares com maconha medicinal para aliviar as dores do câncer.

Mas foi com a ajuda do diretor Roger Corman, que tinha feito com ele Viagem ao mundo da alucinação (1967), que conseguiu produzir e dirigir um dos filmes mais importantes da contracultura americana: Easy Rider, no Brasil recebeu o título de Sem Destino, apesar que, o título original em tradução livre signifique “viajante tranquilo”, a intenção era passar uma imagem de motoqueiros hippies, mas é uma gíria para “cafetão”. Levantavam a bandeira da extinção da velha geração e seus valores conservadores, os jovens de 1969 tinham o cabelo comprido, ouviam músicas, usavam drogas, traziam consigo uma liberdade, que logo se tornaria uma filosofia de vida, porém, extremamente pessimista no final do filme.

Easy Rider é um road picture, uma espécie de subgênero em que o protagonista é um aventureiro. O filme se transformou em um bike movie, era um faroeste que substituíam os cavalos por motocicletas, uma mistura de hippies e Hells Angels, que dirigiam suas motos Harley-Davidson. Tínhamos dois caubóis modernos, Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Dennis Hopper), clara homenagem aos heróis Wyatt Earp e Billy the Kid, só que estes aqui eram traficantes de drogas e não estavam no Velho Oeste, mas rumo ao leste, para o evento Mardi Gras, considerado o maior carnaval americano, em Nova Orleans.

Peter Fonda que já havia feito o líder de uma gangue no filme Os anjos selvagens (1966), já estava familiarizado com o tema e entrou como produtor. O próximo passo foi chamar Terry Southern (Dr. Fantástico), para escrever o roteiro. Hopper, escalado para a direção, talvez, pudesse ser um problema e ele poderia transformar o filme em uma orgia de sexo e drogas. O que não aconteceu, em parte, já que circula um factoide de que eles teriam usado cerca de 200 kg de maconha para a equipe da produção do filme, e para o elenco quando tivesse em cena. Por isso na maior parte de suas cenas ele está usando óculos escuros, um dos efeitos do uso da Cannabis sativa é a vermelhidão nos olhos e Hopper já havia sido preso antes das filmagens começarem por fumar maconha em Los Angeles.

Dennis Hopper tinha 32 anos quando dirigiu o filme e uma discreta passagem pela televisão, participou dos seriados Medic, Cheyenne e Sugarfoot, no começo dos anos cinquenta. Fez ponta nas séries clássicas Túnel do tempo e Além da Imaginação. Realizado com um orçamento irrisório de U$$ 360 mil dólares; rendeu uma fortuna na época; U$$ 50 milhões e serviu para tornar Hopper, Nicholson e Fonda em celebridades. Gerou inúmeras imitações ao longo dos anos, mudando o modo de como o cinema era feito em Hollywood, depois de Easy Rider os diretores assumiram uma postura mais autoral, a partir dos anos de 1970 surgia um novo cinema americano.

Depois de entrar para a Actors Studio, ficou com a fama de rebelde e gerou problemas durante a produção de Caçada Humana (1958), ele brigou feio com o diretor Henry Hathaway. Seu forte temperamento quase arruinou sua carreira. Passou muito tempo fazendo apenas filmes B. Suas esquisitices e exigências o impediram que fosse contratado para papéis maiores, até conhecer Roger Corman.

Banido dos grandes estúdios, se envolveu de forma apaixonante pela fotografia, seu primeiro grande trabalho foi a arte da capa do álbum da dupla Tina Turner e Ike, River DeepMountain High, que fez enorme sucesso. Também foi o fotógrafo de Neil Young e da banda Grateful Dead, então no início de suas carreiras musicais. Além de ter ficado amigo de Brian Jones, dos Rollings Stones, foi até a Inglaterra para fotografá-lo em um estúdio. James Brown, Byrds, Roy Lichtenstein, todos passaram por suas lentes: “As únicas pessoas que eu realmente achava confortável em serem fotografadas eram artistas. Eles me pediram para fotografá-los. Eles queriam ser fotografados. E isso foi legal”. Revelou durante uma exposição em 1970. Em 1965, marchou para Selma, Alabama até Montgomery seguindo o líder político/religioso Martin Luther King, fotografando a rotina de quem acompanhava o protesto pelos direitos civis dos negros. As cenas de rua da cidade de Los Angeles para ele eram pop, esbanjavam cultura e brilhavam com o glamour das estrelas de cinema, ele amava L.A e ela era muito comercial e produtiva para quem era fotógrafo.  

Hoppy fervia tanto quanto aquela panela cheia de peiote, sempre soube que seria um artista, se seria reconhecido, esquecido ou canonizado era outra história, que talvez ele mesmo já soubesse como acabaria. Se martirizava por achar que nunca tinha dirigido um grande filme e atuado em um papel que o coroasse como um astro do cinema, como James Dean e Marlon Brando. Contudo, os excessos do começo da carreira podem ter lhe prejudicado, mesmo que Dean e Brando também tenham cometidos suas extravagâncias, mas Hopper não alcançou o status de star system, não, não mesmo, ele era o oposto. Ele era aquele que lutaria contra o sistema, não iam subjugá-lo.

NOS ANOS SESSENTA EU LIMPEI MEU TRASEIRO COM A BANDEIRA AMERICANA E POSSO DIZER: MEU TRASEIRO FICOU ASSADO!!! Huey Walker, Flashback, 1990.

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Depois dos louros colhidos pelo sucesso de Sem Destino e ser aclamado como a mais nova promessa de Hollywood, badaladíssimo no Festival de Cannes com o prêmio da primeira obra, chega ao fim seu casamento, o primeiro de muitos. Brooke Hayward (filha do famoso agente Leland Hayward e amiga de Jane Fonda, que ajudou fazer a ponte entre Hopper e Peter), com quem teve uma filha, Marin, que mais tarde se tornaria editora da revista Elle e moraria com ele nos últimos dias de vida. Brooke o abandonou depois que ele quebrou o nariz dela durante uma briga, passaria anos separado da filha e dos outros filhos que viriam depois. Começava aparecer seus sinais de fúria, agravado anos depois quando o câncer já lhe consumia. Essa violência que ele deixava transparecer rendeu inúmeros personagens vilanescos, de fato, foram seus melhores papéis, destaque para o psicopata de Veludo Azul (Blue Velvet, 1986), de David Lynch.  

Fracassaria não só no casamento, mas no seu próximo e profético filme: O Último Filme (1971). Mais um em que ele atuava e dirigia. Só existem dois caminhos no cinema para projetos pessoais: sucesso ou fracasso, não tem meio termo. O roteiro sobre um dublê de filmes de faroeste, em que ele colocava em prática o estilo “godardismo”, ganhou o Festival de Veneza, mas suas cópias limitadas nos Estados Unidos e a crítica negativa jogou na lama sua tentativa de se firmar como diretor respeitado.

Foi até o limite enlouquecedor para a produção de um filme, rodou 37 horas de película (Marlon Brando gastou 35 horas quando dirigiu A Face Oculta), provocando a ira do chefe de estúdio. Nos Andes peruanos ele convidou Peter Fonda para filmar em um cenário construído numa altitude de 4.270 metros e aquela centena de índios que elevaram os custos, ele apenas apagava o fogo com gasolina. Para conseguir editar o filme foi para Taos, no Novo México, e assegurou-se de muita erva, hippies e alguns escritores. Foi a pá de cal jogada na cova em que ele passou a viver durante seus anos de exílio. “Eu superestimei o meu público”, comentou depois do lançamento do filme, contudo, não culpou ninguém pelo fracasso, apenas ele mesmo. Era um homem que praticava a indulgência, isso não se pode negar. Novamente era banido de Hollywood e nunca mais dirigiria algo tão revolucionário e libertador como Easy Rider, não teria uma nova chance.

Antes de partir para sua aventura peruana, casou-se mais uma vez, com a integrante do grupo The Mamas and the Papas, Michelle Phillips, em 1970, o matrimônio durou oito dias. Sendo um factoide ou não, sabe-se que tudo ia bem nos primeiros seis dias, quando no oitavo dia, Hopper teria amarrado Michelle ao aquecedor para que ela não partisse, antes de ir embora Michelle aconselhou que a melhor coisa que ele poderia fazer era se matar. O segundo casamento foi pelo ralo e o mais destrutivo talvez tenha sido o com a escritora e atriz Daria Halprin (Zabriskie Point).

O período que passou em Taos, esvaziava várias garrafas de Rum e andava armado pela cidade. Apesar de ser um homem da maconha, foi nessa época que se entregou à cocaína. Daria confessa que foi o período mais autodestrutivo de suas vidas. Com ela teve uma filha chamada Ruthana Hopper, coautora do best-seller Celebutantes (2008). Se punia por ter estragado uma carreira tão promissora. Descrevia Taos como sendo a “cidade do coração”, amava tanto a cidade que é lá que o seu corpo está enterrado. Mesmo com tantos casamentos, parecia que ele buscava a solidão, precisava ser perder e destruir um lar para ter que voltar para uma casa vazia, sem esposa, filhos ou qualquer resquício de algo que lembrasse uma família.

Usando uma psicologia de “fundo de quintal freudiana”, esse distanciamento e ao mesmo tempo a possessividade com gênero feminino pode ter sido em decorrência da relação conflituosa que mantinha com a mãe, Marjorie Davis. Quando Hoppy tinha cinco anos ela mentiu para o filho, afirmando que o pai teria morrido na guerra, quando na verdade ele estava trabalhando como espião na Ásia. O quão perturbador e fantasmagórico deve ter sido para aquela criança quando o pai surgiu de repente na soleira da porta. Nunca a perdoou. Mas era uma boa mãe, graças a ela que ao mudar-se para San Diego em busca de curar a asma do irmão mais novo, que ele conheceu a atuação.

Não acredito que suas maldades e agressividades com o sexo oposto tenham sido intencionais, mas que ele devia sentir prazer no sofrimento, isso sim. Depois de encher uma banheira com champanhe para uma noite de sexo selvagem com a atriz Natalie Wood, ela saiu aos gritos e foi parar no hospital, o champanhe teria queimado suas partes íntimas. “Queimou a xota dela, deixou pegando fogo, porra”. Comentou certa vez em uma entrevista. Pobre Natalie, logo ela que passaria a vida sofrendo de alcoolismo e morreria afogada. Já casado com a quinta e última esposa, uma garçonete de 24 anos que ele conheceu em uma viagem, quando o câncer entrou em metástase, Hoppy descontava toda a raiva nela.  

Passou a viver com Victoria Duffy numa enorme propriedade em Venice, na Califórnia, que parecia mais um galpão recheado de obras de arte com valor estimado em US$ 300 milhões de dólares. Ainda em começo de carreira comprou por US$ 75 dólares uma das peças mais conhecidas de Andy Wharol, a lata de sopa, que Brooke vendeu depois do divórcio. Ele tinha uma casa projetada por Frank Gehry, que Victoria teria mandado “reformar”, depois que Hopper teria se mudado para um anexo da casa principal. Encarava essas obras como verdadeiras amigas e que muitas pessoas gastavam dinheiro com outros hobbies e ele apenas vagabundeava em museus. Um vagabundo que entendia de arte, mais uma de suas controvérsias, como quando votou em George W. Bush, sendo que toda classe artística ia na contramão. Mas em 2008 declarou apoio a Barack Obama, pois não ia com a cara de Sarah Palin como candidata à vice-presidência.    

Entre seus objetos de arte mais conhecidos são uma escultura que teria dado de presente para Victoria, de Robert Graham e um quadro de Banksy conhecido como In the Future Everyone Will Be Anonymous for Fifteen Minutes. Segundo ela, esses presentes custariam US$ 1,5 milhão, que ela tratou de guardá-los antes da partilha dos bens, com isso só levantou a desconfiança que os filhos e os amigos tinham dela, que era nada mais que uma alpinista social, que procurava se firmar como colecionadora de artes, sustentada com o sobrenome de Hopper.

Os filhos usavam a alienação parental e a doença do pai moribundo para acirrar ainda mais a raiva que Hopper tinha de Victoria, chegando a acusá-la de ter lhe causado o câncer. Quando ela assinou os papéis do divórcio disse que o amava  e que a coisa mais importante era a filha que eles tinham tido, ele soltou a frase: “Saia daqui, porra, você é uma lata de lixo humana”, na frente da filha do casal. Quando Hopper conheceu Victoria ele tinha acabado de se divorciar da dançarina Katherine LaNasa e tinha passado por um tratamento de reabilitação, e Victoria era cinco anos mais jovem do que a filha mais velha dele, precavido ou ranzinza, no contrato de casamento ela ficaria com 35% de toda sua fortuna mais 1% do seu seguro de vida, porém, perderia tudo caso pedisse o divórcio. Além de tirá-la da função de administradora das obras de arte, e ela não poderia chegar menos de três metros dele e dos filhos. Ele passou anos longe dos filhos e manter a esposa afastada os aproximaria novamente.

Preciosidades como uma caveira assinada por Damien Hirst, que ele usava como peso de papel ficava no seu escritório. Suas peças particulares ainda figuravam nomes como: Basquiat; Robert Rauschenberg; David Salle; Keith Haring e um quadro pintado pelo amigo Julian Schnabel, adornavam sua imensa propriedade que totalizavam cinco grandes casas. Sem contar as inúmeras armas que ele tinha espalhadas pela casa, afinal de contas, ele era um cara durão e a figura ameaçadora que ele conquistou ao longo dos anos tinha que ser mantida.

Seus últimos meses de vida foram dramáticos, filhos que não falavam com ele passaram a morar em Venice, como Marin e Henry, este último talentoso pintor ao estilo Jackson Pollock. Mas que fazia questão de jogar a madrasta contra o pai. Marin só foi morar com ele depois do divórcio do marido e depois que o câncer já havia entrado em metástase. Em suas derradeiras palavras apenas chamava o nome Henry, e teria olhado para algo na parede e fechado os olhos, foi um encrenqueiro até o fim.

“EU SOU FRANK”

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Existia uma áurea mística que o perseguia, depois da morte de James Dean, passou a vida coberto pelo manto da rebeldia, não tinha um dia que não chegasse gritando no set de Sem Destino, era uma disputa de ego, berros, regado com muito ácido. Nos créditos do filme consta o nome de três roteiristas: Fonda, Hopper e Southern, na verdade, Southern foi responsável pela maior parte dos diálogos, mas Hopper anos depois pediu que Peter Fonda assinasse um documento em que apenas ele, Dennis Hopper, tinha escrito o roteiro. O que não era verdade, causando muita mágoa entre os dois velhos companheiros de estrada.  

Rip Torn escalado para viver o personagem George, mas foi substituído de última hora por Jack Nicholson, não gostou nada quando Hopper declarou no programa The Tonight Show de Jay Leno, que Torn teria o ameaçado com uma faca e por isso foi demitido. Torn o processou em US$ 475 mil dólares, Hopper perdeu o processo e apelou perdendo novamente, o juiz acreditou na versão de Rip Torn, que Hopper é que teria puxado a faca contra ele.

Todas suas cenas em Apocalypse Now (1979) ele estava chapado de maconha e não filmava quando Marlon Brando estava por perto, pois Brando não tinha simpatia por Hopper. Enquanto Francis Ford Coppola enlouquecia tentando aturar os improvisos de Brando e Hopper, Laurence Fishburne ficava colado nele, pois achava que aquele homem realmente era um cara livre: “O jorro de consciência que saía dele era impressionante. Eu era só um garoto de 15 anos, mas fiquei maravilhado com a capacidade dele”. Recorda. A liberdade foi mais uma amante fiel que Hoppy soube tratar dignamente.

Era do tipo de ator que escolhia seus papéis conforme a sua alma, eles o representavam, era na tela que jogava com seus demônios interiores. Na biografia Marilyn (Editora Record, 1973), de Norman Mailer, o autor fala que a melhor maneira de se conhecer um ator é assistindo seus filmes. Não é que ele procurava esses personagens, eles vinham até ele como um cão farejador, Billy, Frank Booth, Paris… todos seriam apenas mais um, se não fosse pelo veneno ameaçador que Hoppy destilava em seus papéis. Quem não acreditaria que ele era um racista sulista em Paris Trout, um assassino de aluguel em Morte por Encomenda, um vilão saído de um videogame famoso em Super Mario Bros ou um terrorista sem dedo de Velocidade Máxima. Se era para pagar de cara mau, ele pagou durante toda a vida.

Um vilão, ele nasceu para ser Frank Booth e o universo conspirou para isso. Seu come back foi com Veludo Azul. David Lynch escreveu o roteiro em 1973 e como pretendia dirigir Eraserhead (1976), não teve a chance de dirigi-lo naquele momento, nem Hopper poderia fazer, pois Lynch não era conhecido e ele ainda amargava o fracasso do seu The Last Movie. Quando Duna (1984) ficou pronto, depois de todos os problemas envolvendo sua pós-produção, Dino Di Laurentis, sabendo que o filme fracassaria nas bilheterias, liberou Lynch para rodar Blue Velvet. Com a condição de ficar com metade do salário dele e que ele fizesse o filme com apenas US$ 6 milhões disponíveis, já que Dino teve que abrir uma produtora para distribuir o filme, pois ninguém queria fazer. Foi aí que Dennis Hopper com quase 50 anos de idade, telefonou para Lynch e implorou pelo papel: “Eu sou Frank, David, eu preciso fazer esse papel”. Talvez o diretor não soubesse a importância dele na vida de Hoppy, mas ele sabia que era a representação de tudo que ele já tinha vivido, uma simbiose.

O filme é um tapa com luva de pelica na cara da sociedade ultraconservadora americana pós-guerra, em que aparentemente tudo corre tranquilo em cima da superfície, com suas cerquinhas brancas e casas suburbanas bem asseadas. Quando na parte de baixo, na verdade, tudo não passa de seres que levam uma vida subversiva, sádica e com desvios sexuais, entremeado com lindas canções de amor, que fica claro no prólogo. Uma mistura de terror com voyeurismo, pincelado com elementos do surrealismo, Veludo Azul não foi só o testamento de Hopper, mas serviu para transformar Lynch em um diretor cult, que assim como Hopper também soube mesclar elementos biográficos nos seus trabalhos para o cinema.

O veludo azul que dá nome ao título faz referência ao roupão que a personagem de Isabella Rossellini usa quando Frank a estupra, um objeto delicado que serve  para uma ação violenta. Com ares de filme noir dos anos cinquenta, o filme tem aspecto luxuoso e onírico, como boa parte da filmografia de David Lynch. A sequência que lembra outro filme polêmico, é o drama de Bernardo Bertolucci Último Tango em Paris, onde Marlon Brando também violenta Maria Schneider, seria uma formar de caçoar de Brando ou homenageá-lo? Provar que era tão bom quanto ele, afinal, ambos eram adeptos do “método”, os dois também eram amigos de James Dean, até hoje não se sabe que mágoa um tinha do outro, Hoppy tinha feito uma ponta não creditada em Sayonara (1957), que tem Brando. Mas a crítica sempre torceu o nariz para Hopper, já Brando é um ícone.

Sua aplaudida atuação como o sádico tarado Frank Booth, que sente um barato quando inala anil nitrato, nem pode ser descrita como um divisor de águas, pois ele nunca foi respeitado como ator sério, talvez tolerado, por sempre aceitar qualquer tipo de papel. Ele era o vilão nas telas e fora dela, não era um ator que se “comportava” no set de filmagem, não fazia questão de fazer a política da boa vizinhança. Para quê ter que sair do personagem, não é mesmo. Durante as gravações de Jungle Warrios (1983), ele surtou, quando saiu correndo pelado e soltando desaforos para quem quisesse ouvir nas ruas da cidade de Cuernavaca. O mais bizarro disso tudo é que o seu personagem era o chefe da polícia do setor de narcóticos.

Seus 12 anos passados em Taos não foram produtivos para sua carreira, sua vida e a sua saúde mental ficou tão debilitada, que ele teve que se internar numa clínica psiquiátrica. Anos mais tarde faria o personagem Walker Benson no filme Chattahoochee (1990), em que interpretou um dos pacientes do sanatório ao lado do ator Gary Oldman. Sua vida foi sempre assim, um tanto profética. Sua mansão em Venice tinha na entrada uma cerquinha branca de madeira igual a que aparece no início de Veludo Azul.

Ficou com a fama de “maldito” em Hollywood, o que não lhe impediu de dirigir novamente, mesmo que sem a euforia de Easy Rider. Seus próximos longas foram: Anos de Rebeldia (1980), drama sincero sobre o modo de vida punk americano. Fez as pazes com o público com o policial As Cores da Violência (1988), sobre um jovem policial que enfrenta as gangues de rua, interpretado por Sean Penn. o elenco ainda conta com Robert Duvall que faz o policial experiente que ajuda o personagem de Penn numa guerra mortal urbana. Arrecadou uma excelente bilheteria, o que causou impacto na crítica foi mostrar uma Los Angeles desglamourizada, destaque para a agressiva fotografia de Haskell Wexler e a trilha sonora de Herbie Hancock, que combinou muito bem com a narrativa.

Mas ninguém soube expressar melhor o que Dennis Hopper significou para o cinema, família, amigos e fãs, como Kris Kristofferson na canção chamada “The Pilgrin, Chapter 33”, do álbum The Silver Tongued Devil and I, do ano de 1971, que em 1979 foi regravada por Willie Nelson. Para os amantes do country, da subversão e da liberdade:

O Peregrino, Capítulo 33

Vê-lo perdido na calçada em sua jaqueta e suas calças jeans

Vestindo as desgraças de ontem como um sorriso

Já teve um futuro cheio de dinheiro, amor e sonhos

Os quais ele gastou como se estivesses fora de moda

E ele se mantém certo em mudança, para o melhor ou pior

Procurando por um santuário que nunca encontrou

Nunca soube se a crença é uma benção ou uma maldição

Ou se a subida valia a descida

Ele é um poeta, ele é um observador

Ele é um profeta, ele é um traficante

Ele é um peregrino e um pregador, e um problema quando ele está drogado

Ele é uma contradição ambulante, parte verdade e parte ficção

Pegando todas as direções erradas em sua volta solitária ao lar

Ele provou do bom e do melhor em seus quartos e bares

E ele trocou o amanhã pelo hoje

Fugindo dos seus demônios, senhor, à procura das estrelas

E perdendo todos que amou pelo caminho

Mas se este mundo continua a girar corretamente para o melhor ou para o pior

E tudo o que ele ganha é mais velho e sem lugar definido

Desde o balanço do berço ao rodar do carro da funerária

A subida valeu a descida

Ele é um poeta, ele é um observador

Ele é um profeta, ele é um traficante

Ele é um peregrino e um pregador, e um problema quando ele está drogado

Ele é uma contradição ambulante, parte verdade e parte ficção

Pegando todas as direções erradas em sua volta solitária ao lar

Há um monte de direções erradas nessa sua solitária volta para o lar

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Não que Norman Mailer estivesse errado quando fala que: para se conhecer um ator devemos assistir todos os seus filmes, bem ele escrevia uma biografia, são anos de pesquisa, entrevistas, checar fatos, mas Marilyn Monroe não era aquilo que víamos na tela, não era burra, nem ingênua. Tem coisas que apenas com o convívio diário ou conhecer quem viveu com o biografado, resulte em fatos mais acurados.

Já todos os personagens de Dennis Hopper tinham um pouco da sua essência como homem, e ele fazia questão de demostrar isso com a sua arte, sejam com personagens ambíguos, perversos ou viciados. Podemos ler uma biografia, assistir todos os filmes de um ator, suas peças, enfim, e talvez, mesmo assim ainda não seria capaz de encontrar sua identidade, muitos escolhem seus papéis por dinheiro ou fama, não procuram sua identidade na ficção. Assistir todos os filmes de Hopper é poder dizer, que sim, eu conheci o ator Dennis Hopper!

RECOMENDAÇÕES

Juventude Transviada (1955)

Sem Destino (1969)

Apocalypse Now (1979)

Anos de Rebeldia (1980)

O Casal Osterman (1983)

O Selvagem da Motocicleta (1983)

Veludo Azul (1986)

Chattahoochee (1989)

Quase sem destino (1990)

Paris Trout (1991)

Amor à Queima-Roupa (1993)

Morte por Encomenda (1993)

O Amigo Americano (1977)

Cercar e Destruir (1995)

Atos de Amor (1996)

Basquiat (1996)

COMO DIRETOR

Sem Destino (1969)

O Último Filme (1971)

Anos de Rebeldia (1980)

As Cores da Violência (1988)

Hot Spot, Um lugar muito quente (1990)