LUIS BUÑUEL

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Realizador espanhol naturalizado mexicano, Luis Buñuel, completaria 116 no dia 22 de fevereiro de 2016, se estivesse vivo. Tentar entender os caminhos que levam o cinema a se tornar arte, primeiro é preciso entrar no mundo surrealista de Buñuel. Apesar de que o cinema de arte atualmente ande meio esquecido, por elevarem os meios da montagem em benefício de uma cena e as frivolidades de certos roteiros. O conhecido cineasta espanhol faz parte dos maiores grupos de artistas responsáveis por compreender o universo cinematográfico.

A estreia no cinema veio com Um Cão Andaluz (1928), feito em colaboração com o pintor Salvador Dalí. Trazia imagens desconexas, consciência social, hostilidade com as mulheres, visão modernista… Que serviu para influenciar muitos de seus filmes até o fim da vida. Criou ao longo de sua filmografia uma narrativa sólida, com imagens inquietantes que passeavam entre o inconsciente e a realidade.

Na A idade do Ouro (1930) seguiu os dogmas surrealistas de “não fazer arte”, cenários comuns e iluminação discreta. Na trilha sonora utilizou os tambores cerimoniais de sua amada Calanda, na Espanha. O filme foi uma encomenda do Visconde de Noailles, que produziu o filme, pois todos os anos ele dava de presente de aniversário para sua esposa um filme diferente.

Luis Buñuel estudou em um colégio de jesuítas, o que acendeu mais tarde na perda da fé. Tornando-se um ateu convicto. Fez parte da Geração de 27, movimento vanguardista que reunia vários intelectuais, artistas e escritores da época. Nesse período conheceu os boêmios Garcia Lorca, Pepín Bello e Salvador Dalí. Parte para Paris para estudar cinema. Quando voltou para Espanha, realizou A idade do Ouro, mas acaba se desentendendo com Dalí, inclusive boicota os créditos do filme para o pintor.

Anos mais tarde com o sucesso de A Bela da Tarde (1967), Dalí enviou uma carta para o amigo espanhol, com a proposta de realizar uma continuação de Um Cão Andaluz. Espinhoso e ainda ressentido de mágoas, Buñuel respondeu que: “águas passadas não movem moinhos”.

Até pouco antes da morte de Luis Buñuel, no começo dos anos 80, Salvador Dalí tentou mais uma vez contato. Estava descartado por parte de Buñuel qualquer tipo relacionamento, mesmo que apenas profissional com Dalí. Provavelmente morreu sem fazer as pazes com o amigo.

Nos anos 50 produz muito no México, mas sem sofrer tanta influência do surrealismo. Nesse período destacam-se: El Bruto (1952), Él (1952) e Nazarín (1958). Viridiana conquista a Palma de Ouro no festival de Cannes, em 1960. Mesmo o filme tendo sido proibido na Espanha, Buñuel não foi barrado no país.

Depois do sucesso internacional de Viridiana, filmou um dos seus filmes mais célebres, O Anjo Exterminador (1962). Uma leve sátira política onde desfilam os personagens mais hipócritas que acham que estão acima das classes minoritárias. Depois de 1965 optou por fazer todos os seus filmes em Paris, sempre com a parceira do produtor Serge Silberman e do roteirista Jean-Claude Carrière.

Obteve sucesso mundial com a história de uma mulher casada, mas que se prostitui em um bordel em A Bela da Tarde (1967). Baseado no livro de Joseph Kessel. O filme é uma homenagem ao fetichismo erótico e profundamente complexo em relação à psicologia dos personagens. Premiado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza, Buñuel dizia que o filme era pornográfico, mas carregado de erotismo casto.

Em 1972 é laureado com o Oscar de melhor filme estrangeiro por O discreto charme da Burguesia (1972). Perdendo na categoria de roteiro. Contava a história de três casais que tentavam a todo custo, mas sem sucesso, sentar e comer juntos. Considerado o mais bem sucedido filme do diretor. É interessante que ele foi o responsável pela criação dos efeitos sonoros do filme, mesmo já estando praticamente surdo. Em uma entrevista perguntado se esperava ganhar o Oscar, Buñuel foi enfático:

“É claro. Já paguei os 25 mil dólares que eles queriam. Os americanos podem ter seus pontos fracos, mas costumam cumprir as suas promessas.”

Refletiu sobre o cristianismo em A Via Láctea (1969) e volta a filmar com a atriz francesa Catherine Deneuve em Tristana, sobre uma jovem que é seduzida pelo velho Fernando Rey, para mais tarde vingar-se dele.

O derradeiro filme dirigido por ele foi o sensual Esse obscuro objeto do desejo (1977). Em que um milionário tenta de todas as formas fazer sexo com uma jovem camareira. O papel da camareira é feito por duas atrizes. A crítica à igreja católica e a burguesia não é tão evidente como em outros filmes.

Luis Buñuel morreu na Cidade do México em 1983, em decorrência de um câncer no fígado, aos 83 anos. Ele ainda sofria de diabetes e era um fumante inveterado. Como já tinha manifestado em vida, pediu que quando morresse fosse cremado.

Jeanne Rucar Buñuel ficou casada com Buñuel por 50 anos e em seu livro de memórias, Memorias de una mujer sin piano (Madrid: Alianza Editorial, 1991), ela conta que o marido podava sua vida. Jeanne não podia fazer ginástica, porque a roupa não decente. Deixou de tocar o piano que tanto gosta por causa dele.

Não lia certos livros porque Buñuel dizia que ela não ia entender. Ficava longe da vida intelectual do marido. Também não deixava a esposa ter amigos e os filhos eram proibidos de trazer amigos para dentro de casa, segundo ela, o barulho de estranhos incomodava.

Em casa não gastava com nada, mas tinha uma coleção de armas, possuiu mais de 20. Buñuel era contra tudo, não era republicano, era contra a ditadura, tinha horror à monarquia, mas era machista ao extremo. Jeanne não podia ficar no mesmo ambiente quando ele estava recebendo os amigos dele em casa. Se a esposa fosse sair, tinha horário para voltar, e ele ficava esperando ela na porta de casa, tendo que sempre explicar quando se atrasava. Porém ela nunca pensou em divórcio. Mas afirma que o marido era doce, gentil e romântico e que ele nunca brigou com ela.

O fruto desse machismo de Luis Buñuel excluiu Jeanne de tudo. Pois era ele que escolhia onde iriam morar, o que comer, como gastar o dinheiro da família. Ela conta que ele nunca compartilhou nada de seus projetos cinematográficos com ela e ele escolhia os amigos que ela teria. Incentivava a esposa apenas nos bordados e costura, ela teria que viver para ele e para os filhos. E que ele sempre a protegeu de tudo.

Perguntada uma vez sobre se a vida que levava junto dele não era um horror, ela respondeu:

“Para mim, não era um horror, eu estava realmente feliz. Quem não gostaria de ser protegida pelo homem que ela ama?”

FILMOGRAFIA

Esse Obscuro Objeto do Desejo (1977)

O Fantasma da Liberdade (1974)

O Discreto Charme da Burguesia (1972)

Tristana, Uma Paixão Mórbida (1970)

A Bela da Tarde (1967)

Simão do Deserto (1965) (Média-metragem)

Diário de uma Camareira (1964)

O Anjo Exterminador (1962)

Viridiana (1961)

A Adolescente (1960)

Nazarin (1958)

Ensaio de Um Crime (1955)

O Bruto (1953)

O Alucinado (1952)

Subida ao Céu (1951)

Os Esquecidos (1950)

El Gran Calavera (1949)

Terra Sem Pão (1933) (Média-metragem)

A Idade do Ouro (1930)

Um Cão Andaluz (1929)

 

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