O ESPÍRITO DA COLMEIA

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O espírito da colmeia, (1973) de Victor Erice.

 

Além das paredes, pouco sobra da casa que você conheceu. Eu me pergunto o que aconteceu com o que tínhamos nela.” Teresa / O espírito da colmeia, 1973.

Durante os anos de chumbo do regime ditatorial de Francisco Franco (1939-1975) na Espanha, foi um período difícil para que a indústria cinematográfica se desenvolvesse de maneira eficiente e diretores com talento quase não podiam trabalhar. Quando os nacionalistas assumiram o poder passaram a controlar o cinema, criando regras e políticas de censura aos filmes espanhóis. O absurdo aconteceu quando Raza (1942) dirigido por José Luis Sáens de Heredia, obra fascista inspirada em um romance autobiográfico escrito por Franco, mas com o pseudônimo de “Jaime de Andrade”, eleito como o melhor filme dos anos quarenta, na Espanha, claro, época que o Franquismo esteve no apogeu.

O espírito da colmeia (El espíritu de la colmena, 1973) do realizador espanhol Victor Erice, começa com Era uma vez… dando noção de conto de fadas. A história se passa na comunidade rural Hoyuelos (Segóvia), e a chegada de um cinema itinerante que exibirá Frankenstein (1931) vai mudar a vida de uma pequena menininha de olhos grandes e aspecto frágil. Ana e sua irmã Isabel são filhas de um simples apicultor e uma solitária dona de casa. Uma das meninas fica impressionada quando o monstro supostamente  afoga uma garotinha em um lago, a cena foi cortada pelos censores espanhóis da época (quando o filme era exibido como propaganda política eles usavam o monstro como sendo o socialismo).

A garotinha Ana fica obcecada pelo monstro e indaga a irmã se realmente ele teria matado a menina no filme, Isabel responde que tudo que é mostrado no filme é falso, e que certo dia ela viu o monstro vagando por aí. Ela fala para a irmã que basta ela fechar os olhos e chamá-lo que ele aparecerá, como um espírito. O filme de Erice faz parte de uma cronologia não linear sobre a infância no interior da Espanha, são as remanescências da vida infantil do diretor.

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Em uma de suas caminhadas de volta para casa as duas irmãs param em uma propriedade abandonada, apenas a irmã mais velha fica examinando o lugar e um poço. Quando vão embora algo faz Ana voltar e admirar o lugar, mesmo que nada de estranho tenha acontecido.

A casa da família que é até hoje um monumento renascentista do século XVI, tem as janelas um formato peculiar, lembram a colmeia do pai das meninas, seus vãos vazios e longos dão um tom de distanciamento entre eles. Teresa, a mãe, de aparência muito mais jovem que o marido, sempre vai à estação de trem entregar cartas para um jovem desconhecido. O pai um homem estudioso, mas não chega a ser um personagem autoritário, as filhas o respeitam, assim como a esposa.

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Quando Ana volta para o local abandonado ela encontra um homem adormecido no lugar, ela não sente medo, e dali uma relação sensível se estabelece, é o monstro suave de Ana. Provavelmente ele era algum republicano foragido que encontrou abrigo naquele lugar, ele não faz nenhum mal para Ana, mas em uma noite ele é assassinado pelos soldados de Franco. Um casaco que era do pai de Ana e que ela levou para o homem é encontrado pela polícia, assim como um relógio de bolso.

Em uma conversa com as filhas sobre cogumelos bons e ruins, ele fala como identificar um ruim, que ele chama de “verdadeiro demônio” de cor marrom com lâminas pretas nas bordas. Quando ele escreve sobre suas vidas serem sem sentido é uma das alusões que o diretor faz ao regime de Francisco Franco.

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É um filme que demora para que o espectador entenda que ali existe uma família, ele mostra as meninas no cinema, o pai com as abelhas e a mãe com suas cartas, não existe um único quadro em que todos eles estejam reunidos. São imagens que vão introduzir ao estudo profundo da solidão, infância e o medo. Algo pertinente nos filmes do diretor em que os traumas psíquicos têm origem na infância. Não é fácil classificá-lo em um gênero, é amargo e misterioso.

Erice transforma um espaço rural simples numa delicadeza de uma cidadezinha castelhana. Os personagens têm sonhos de sair dali, relembram de como eram suas vidas antes do regime, mas a realidade se confunde com a impressionável Ana e o espírito do monstro personificado em um fugitivo. O que aconteceu com aquelas vidas, que visão de futuro elas teriam.

Quando o filme estreou e passou pela censura e teve o corte na cena do afogamento, os censores acharam o filme tão lento, que jamais o público assistiria, pelo contrário ao reviver o passado Erice deu uma nova chance para a Espanha.

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Destaque especial para a fotografia em tons solares que lembram a cor do mel e tons terrosos de Luis Cuadrado, ele estava quase cego quando filmou, entregou um trabalho rico em texturas e profundidade. Combinado com a história de uma garotinha de 6 anos vamos imergindo na imaginação de uma criança, um ano após o fim da Guerra Civil Espanhola em que Francisco Franco saiu vencedor.

Foi o começo de um período violento e conservador, um misto de nazismo e fascismo. Franco governou até 1975, quando morreu em 20 de novembro daquele ano. O filme de Erice é uma metáfora sobre os anos de perseguição do governo Franquista.

VICTOR ERICE / DIRETOR

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Victor Erice

Prestes a completar 80 anos, Erice tem uma filmografia curtíssima, são três longas; O espírito da colmeia (1973); El Sur (1983) e O sol de marmelo (1992), ainda assim é considerado por muitos críticos como o melhor diretor de cinema espanhol. E os elogios são por causa de dois filmes apenas, o já citado O espírito da colmeia e El Sur, ambos de época, centrados na infância e no interior de cidades da Espanha. El Sur que originalmente teria três horas de duração, ficou reduzido apenas aos 90 minutos já rodado por Victor Erice, o produtor Elías Querejeta achou que o que se tinha era o suficiente para a proposta inicial do filme, então a parte que seria filmada no sul da Espanha não foi realizada.

Victor Erice nasceu na cidade de Karrantza Harana (País Basco) em 1940, mesmo ano que se passa a história em O espírito da colmeia. Erice chegou a estudar economia, direito e ciências políticas na Universidade de Madri. Depois ingressou na escola de cinema, nos anos sessenta, com foco na direção. Antes do seu primeiro filme ele dirigiu alguns curtas e escreveu críticas para o jornal Nuestro Cine durante 10 anos.

Até filmar El Sur se passou uma década, e nove anos depois ele dirigiu O sol marmelo já nos anos noventa, sobre a vida do pintor realista Antonio López García, que tentava captar a luz no momento exato em que um marmelo, já maduro cai de uma árvore. O filme ganhou o prêmio do júri no Festival de Cannes em 1992. E em 2014, 22 anos depois o diretor e o meticuloso pintor se reencontraram no ciclo Encontro e Consciência na Fundación Canal de Madri, López e Erice, talvez, sabiam que era impossível tal momento ser captado e projetado em uma pintura. Para López tanto a luz da aurora como a do crepúsculo já não iluminam mais.

Em 2006 Victor Erice dirigiu um curta-metragem chamado La Morte Rouge em que relembra como foi o seu primeiro contato com o cinema, e que impacto um filme pode causar em uma criança.

Em maio de 2010 foi membro do júri no Festival de Cannes. Sua última aparição pública foi em uma Universidade na cidade do Porto (Portugal), além da presença dele, alguns de seus filmes foram exibidos no evento.

FILMOGRAFIA VICTOR ERICE

O espírito da colmeia (1973)

El Sur (1983)

O Sol de marmelo (1992)

FICHA TÉCNICA

O espírito da colmeia (El espíritu de la colmena, ES, 1973)

Direção: Victor Erice.

Roteiro:Victor Erice, Ángel Fernández Santos e Francisco J. Querejeta.

Elenco: Ana Torrent, Teresa Gimpera, Isabel Tellería e Fernando Fernán Gómez.

Fotografia: Luis Cuadrado.

Trilha sonora: Luis de Pablo.