DA 5 BLOODS

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Da 5 Bloods filme de estreia de Spike Lee na Netflix

Esses bizarros de Hollywood querendo vencer a Guerra do Vietnã. Eu faria questão de assistir a um filme com um herói de verdade, com um irmão nosso, tipo Milton Olive. Ele pulou sobre uma granada e salvou vidas. 18 anos, 11 meses e 15 dias de vida. Primeiro negro a receber a Medalha de Honra no Vietnã.” Otis/Da 5 Bloods, 2020.

O novo filme do diretor norte-americano Spike Lee é o primeiro projeto realizado por ele para uma plataforma de streaming. A Netflix lançou oficialmente no dia 12 de junho, com um orçamento que ficou entre US$ 35 e 45 milhões. Da 5 Bloods (idem, 2020, EUA) é um drama de guerra, filmado em meados de março de 2019, nas cidades Ho Chi Minh, também conhecida como Saigon, e na Chiang Mai, e na Tailândia. Esse é o último filme desde que ele ganhou o Oscar de melhor roteiro adaptado por Infiltrado na Klan (2019).

Um filme do Spike Lee é sempre aguardado, ele é um diretor conhecido por ser um ativista dos direitos dos negros americanos em seus filmes. A abordagem racial presente em seus roteiros é muito bem desenvolvida. Quando ele assume esse tipo de tema, você termina o filme com seus conceitos sobre o racismo reformulados. O diálogo e o debate continua depois que os créditos rolam na tela.

Talvez por carregar esse ativismo político a expectativa sempre vai além do esperado. Só o discurso no prólogo de Infiltrado na Klan é um soco no estômago de qualquer ser humano. Você não precisa ter a cor da pele diferente para se indignar com qualquer causa. O debate é humano, mas o peso da “cor”, só quem tem sabe, ser julgado ou morto por ser negro, é a pior coisa que existe na escala do Evolucionismo Social.

Da 5 Bloods é um filme de um roteiro que alguns anos já rodava em Hollywood. O título anterior chamava-se “The Last Tour”, e tinha sido escrito por Danny Bilson e Paul De Meo, mesmo depois da mudança de história eles continuaram com Lee. A primeira versão era sobre cinco homens brancos, já idosos, que retornavam depois de anos para o Vietnã. O diretor contratado seria o Oliver Stone (Platoon), que por problemas de agenda teve que se desligar do projeto. Foi quando o produtor Lloyd Levin achou que o roteiro poderia ser modificado e ofereceu para Spike Lee. Lee junto com seu co-roteirista Kevin Willmott, reescreveram tudo e os protagonistas seriam todos negros e ex-combatentes da Guerra do Vietnã (1955-1975).

“EI, AMOR, COMO ESTÃO AS COISAS? ESTOU VOLTANDO, MAS VOCÊ SABIA QUE EU VOLTARIA. ISSO! GUERRA É UM INFERNO”

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Spike Lee, Clarke Peters, Delroy Lindo, Jonathan Majors e Norm Lewis

Acompanhamos os quatro amigos Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isiah Whitlock Jr.), que depois de cinco décadas voltam para o país que os uniu de maneira trágica. Agora eles estão em busca de duas coisas: os restos mortais do soldado Storminꞌ Norman (Chadwick Boseman), companheiro morto em batalha e de uma fortuna em barras de ouro.

Com ajuda de Tiên Luu (Y. Lan), uma antiga prostituta, amiga de Otis, ela leva eles para formar uma parceria com um duvidoso francês chamado Desroche (Jean Reno), que Paul chama de Desroxo. Porém Paul desconfia que Tiên é uma traidora, e que ela e o francês vão passar a perna em todos eles.

O grupo então contratam o vietnamita Vinh Tran (Johnny Nguyen), que trabalha como guia na região e é meio fã dos quatro Bloods. Eles partem para o ponto que seria mais próximo onde um deslizamento de terra teria feito aparecer parte da aeronave que caiu com eles, anos antes do Norman ser baleado. Paul vivia assombrado pelo fantasma do amigo, que segundo ele, o visitava todas as noites. Ele estava sofrendo de estresse pós-traumático, uma herança cruel, de uma guerra que não era deles. O mais briguento dos amigos era Paul, falar com ele, era como riscar um palito de fósforo perto de um galão de gasolina.

Antes que eles se metessem na floresta adentro, David (Jonathan Majors), o filho de Paul, aparece de surpresa no hotel onde eles estavam hospedados. E insiste em participar da expedição na selva. Era uma maneira dele se entender com o pai, já que Paul tinha remorso do filho, sua mãe morreu no parto quando ele nasceu. Otis também descobre algo inusitado, Tiên teve uma filha com ele, enquanto ele ainda estava no Vietnã. Os veteranos recebem a notícia que Eddie está falido, ele era o ricaço do grupo. A outra novidade é que Otis ficou viciado em oxicodona, poderoso opioide.

Depois de uma longa caminhada eles param para descansar e David atendendo suas necessidades fisiológicas, se afasta um pouco, e encontra uma barra de ouro enterrada. Começam a escavar e encontram ouro por todo o lugar, conforme vão vasculhando o lugar, dão de cara com uma vala, e é lá que está os ossos de Norman. Os amigos levam todas as barras de ouro dentro de suas mochilas, que é meio sofrido, já que todos ali são para lá de setentões. Otis tem dores no quadril, Eddie tem o pé torto, Melvin é gordinho e Paul acha que é durão, mas é ofegante a cada dois passos.

Se recusam a dividir parte da fortuna com David, nem que ele carregue uma barrinha de ouro sequer. Passam a discutir e por descuido Eddie pisa em uma mina terrestre, metade do seu corpo é explodido, a outra parte não sobrevive nem 30 segundos. Nesse meio tempo a equipe que desarmava velhas minas, e que David conheceu uma moça que fazia parte aparecem. Dão de cara com os cinco e a situação de todos só vai piorar. Até Otis descobre que Desroche traiu eles e que pretende ficar com os milhões em ouro.

MINHA MÃE DISSE QUE O DINHEIRO É A RAIZ DE…

Spike Lee homenageou o filme que ele mais adora, que segundo esta resenhista, é o melhor exemplar sobre ganância que o cinema já fez: O Tesouro de Sierra Madre (1948), clássico indiscutível de John Huston. Veja como Paul é muito parecido com o personagem de Humphrey Bogart, no começo eles são homens comuns, cada um com a sua ambição. Bogart fazia bicos, (leia-se se que ele era um pedinte) e queria sobreviver. Viu no garimpo uma maneira de enriquecer e junto com mais dois amigos vão para o deserto mexicano na esperança de achar uma fortuna.

O ouro não tem nenhuma maldição. Tudo depende dele ser achado pelo cara certo. Acho que o ouro pode ser uma benção ou uma maldição”. Fred C. Dobbs em O Tesouro de Sierra Madre, 1948.

A sequência que Paul fala diretamente para a câmera (quebra da quarta parede), o monólogo febril dele lembra quando Bogart fica atordoado no deserto, que culmina com a sua morte pelas mãos dos mexicanos. O personagem do Delroy Lindo também morre pelas mãos do inimigo, que queria seu ouro, mas ele não perde a fé, ele vai sozinho para a cova que ele mesmo cavou, e isso não é uma metáfora.

Rousseau (1712-1778) disse que o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe, ambos os personagens vão numa escalada até a ganância, como se isso fosse vital para suas vidas. Seus valores, amizades, sanidade, tudo vai se dissolvendo, como castelos de areia, que de longe até parecem firmes, mas que basta uma onda do mar tocá-los, que deixam de existir.

5 da bloods Apocalypse Now

Lee faz várias referências ao Apocalypse Now de Francis Ford Coppola, em uma cena no clube noturno, o Dj toca atrás de um pôster luminoso gigante do filme. O helicóptero passando na frente do sol é um clássico, qualquer diretor que usar, o pensamento vai para o filme de 1979. É claro que não ia faltar a famosa cena do rio ao som da peça de Richard Wagner (1813-1883) que é a famosa “Cavalgada das Valquírias”, igual como no filme de Coppola. Além de citar Apocalypse Now, eles falam de como Rambo e Chuck Norris: O Homem da Lei, soam falsos quando retratam a guerra.

Quando Otis está baleado no chão no último ato, ele fala “Loucura! Loucura!”, não, ele não está citando o bordão do apresentador Luciano Huck, e sim o filme A Ponte do Rio Kwai (1957). Não ficou claro se algum dos roteiristas é que é fã do filme ou se o personagem de Clarke Peters está fazendo uma crítica sobre a banalidade da guerra.

David conta para Hedy (Mélanie Thierry) que seu nome é uma homenagem para um dos integrantes do grupo musical The Temptations, todos ali levam o nome de alguém da banda. O nome do soldado Norman é para o compositor Norman Whitfield, também produtor do The Temptations nas décadas de 60 e 70, pela Motown Records. Tem uma autorreferência no filme, o ator Jasper Pääkkönen que trabalhou em Infiltrado na Klan lá o personagem dele morre com uma explosão, em Da 5 Bloods também.

NÃO VÃO MATAR O PAUL. OUVIRAM? OUÇAM BEM. NÃO VÃO MATAR O PAUL. O GOVERNO DOS EUA NÃO VAI ME ELIMINAR. EU ESCOLHO… QUANDO E COMO VOU MORRER. SACOU?

Chadwick Boseman
Chadwick Boseman sentado em um trono estilizado que lembra a cadeira pavão de vime

A estreia do filme foi bem na época em que ainda ocorriam as manifestações antirracistas nos Estados Unidos, depois que o segurança George Floyd foi morto por quatro policiais brancos em Minneapolis. O Movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) ressurgiu com força, não só nos Estados Unidos, mas em outros países da Europa. Quando o grupo encontra o ouro no Vietnã, o desejo de Norman é que o dinheiro vá para o Movimento Negro. Os soldados negros eram os que iam para o fronte de batalha, eram os primeiros a morrer, e na linhagem de patente do Exército, os postos mais altos não eram ocupados por nenhum negro. Eddie antes de morrer acha que a vontade de Norman deve ser respeitada e que eles devem doar toda a grana.

O filme de Spike Lee é muito bem editado, ele mistura cenas reais, com algo que lembra um documentário. Os flashbacks são feitos com os mesmos atores, ele não utilizou a mesma técnica de Martin Scorsese no O Irlandês (2019) para rejuvenescer os atores. Pois o foco tinha que ser para o personagem de Chadwick Boseman. O diretor de fotografia Newton Thomas Sigel utilizou o formato de 16mm para as cenas de guerra nos flashbacks, que segundo ele seria o mesmo tipo de câmera usado para aquela época. Não acertaram tanto com os efeitos de tiro e sangue, o digital aqui excedeu. Mas a qualidade final do filme ficou em Ultra HD.

Infelizmente o filme tem problemas com a estruturação do roteiro, e por que digo “infelizmente”, é que se este filme fosse realizado por um diretor amador, os erros até que seriam aceitáveis. O que falta no filme é aquilo que Lee tem de sobra, que é a força narrativa em seus filmes. O elenco secundário foi mal escalado, nem todas as outras referências cinematográficas são capazes de elevar o filme para uma nota máxima. Da 5 Bloods é um dos filmes mais fracos dirigidos por Spike Lee nos últimos anos.

O ponto alto do filme e o mais bem desenvolvido foi o personagem feito por Delroy Lindo, as melhores falas são ditas por ele. Uma indicação ao Oscar poderia ser esperada, porém, aquela controvérsia de filmes que vão direto para o streaming e não passam por uma exibição nas salas de cinema, compromete qualquer indicação. A esperança será sua exibição no Festival de Cannes de 2020, já que a Netflix passou três anos sem indicar nenhum filme para o evento.

O outro acerto foi a trilha sonora embalada com canções do cantor Marvin Gaye, e que se torna tão atual no momento em que os conflitos raciais estão em alta no mundo todo, na verdade nunca deixaram de estar, mas muda com o tempo, de acordo com o que a mídia quer noticiar.

As alfinetas no Presidente americano Donald Trump aparecem de maneira bem direta. Paul votou em Trump, os amigos até zoam ele, perguntando se era ele no comício durante a campanha, ele diz que não, que são tudo é “Fake News”. Só que ele usa o famigerado boné “Make America Great Again” (Torne a América Grande Novamente), ele fala que o muro vai ser construído e que é bom os negros ficarem espertos. Ele também é racista, quando todos estão fazendo o passeio de barco e ele cruza com um nativo, Paul refere-se ao homem como “amarelo”, termo pejorativo para os asiáticos, e no clube lá no começo ele não quer que uma criança aleijada chegue perto dele. Desroche usa o mesmo boné que pegou de Paul, e no tiroteio final quando ele cai no sentido oposto ao Otis, é uma outra mensagem.

Da 5 Bloods é emocionante pela forma como ele foi conduzido por Delroy, Gaye saindo pelos poros, a futilidade da guerra, contudo, ele é vazio na sua essência, faltou o “Fight The Power”. Ao fim o que resta é a certeza que a ganância é o que move os homens.

FICHA TÉCNICA

Da 5 Bloods (idem, 2020, EUA)

Direção: Spike Lee.

Elenco: Delroy Lindo, Jonathan Majors, Clarke Peters, Norm Lewis, Isiah Whitlock Jr., Mélanie Thierry, Paul Walter Hauser, Jasper Pääkkönen, Johnny Nguyen, Lam Nguyen, Sandy Huong Pham, Jean Reno, Chadwick Boseman e Van Veronica Ngo.

Roteiro: Danny Bilson, Paul De Meo, Kevin Willmott e Spike Lee.

Diretor de Fotografia: Newton Thomas Sigel.

Trilha Sonora Original: Terence Blanchard.

Edição: Adam Gough.

Duração: 154 minutos.

Cor.

Gênero: Drama / Guerra / Aventura.

Distribuidora: Netflix.

Lançamento: 12 de junho (mundial).