O EXORCISTA

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Linda Blair possuída pelo demônio Pazuzu

Demônio : Eu não sou a Regan.

Padre Karras : Bem, então vamos nos apresentar. Eu sou Damien Karras.

Demon : E eu sou o diabo. Agora, gentilmente, desfaça essas correias.

Padre Karras : Se você é o Diabo, por que não fazer as correias desaparecerem?

Demon : Isso é muito vulgar uma demonstração de poder, Karras.

O começo da década de 1970 ficou marcado por revoluções estudantis, busca da liberdade, quebra de tabus, movimento Hippie (associado ao festival Woodstock, em 1969), drogas sintéticas, e o início da new Hollywood.

E O exorcista (Exorcist, The, 1973) marcou como o filme que abriu caminho para um novo tipo de horror, influenciou outros títulos, talvez, a maior referência do gênero. Foi tão badalado na época do seu lançamento nos cinemas, que abafou por algumas semanas o escândalo envolvendo o presidente Richard Nixon, o caso do Watergate, que culminou com a sua renúncia à presidência.

Teve um impacto cultural muito forte, as pessoas torciam cada vez a garotinha Regan MacNeill era punida quando a água benta queimava a sua pele, ela simbolizava a rebeldia, o profano e a luxúria. Depois desse filme uma onda de temas envolvendo crianças possuídas ou maléficas, invadiram os cinemas. Foi realizada uma sequência, porém, fraca do O exorcista lançada em 1977, outros foram na mesma linha; Os filhos do medo (1979), A Profecia (1976), O Iluminado (1980). Apesar que o filme dirigido por William Friedkin, não foi o primeiro a colocar uma criança como personificação do mal. Tara Maldita (Bad Seed, The, 1956) baseado no livro de William March, sobre uma menina que com oito anos já estaria envolvida com alguns assassinatos foi um dos primeiros que abordou o tema.

Antes de escrever o livro que deu origem ao filme, William Peter Blatty trabalhava escrevendo outros roteiros, e participou de um programa de televisão nos anos cinquenta e faturou US$ 10.000 mil dólares, perguntado o que faria com o dinheiro, ele respondeu que escreveria um livro.

Depois de ler notícias em um jornal, sobre a história de um garoto da cidade de Maryland, Roland Doe, que teria sido possuído por um demônio, em 1949, Blatty começou a pesquisar sobre o assunto. Para o filme trocaram o sexo do personagem, carregado de teorias filosóficas-teológicas, e o estúdio já imaginando que o livro seria um fenômeno de vendas, tratou logo de comprar os direitos da publicação. E Peter Blatty depois de fazer alguns rascunhos do roteiro, entregou a versão final para ser dirigida por Friedkin.

Ellen Burstyn é Cris MacNeil, atriz e mãe da pré-adolescente Regan MacNeil, interpretado pela estigmatizada Linda Blair. Que achando que a filha está mentalmente confusa por causa do afastamento do pai, Cris resolve levar a filha ao médico depois que ela urina na frente de vários convidados em casa e prevê a morte de um amigo da família. Depois de uma bateria de exames, Regan responde de maneira bastante hostil as perguntas do médico. Não encontram nada, ao não ser um leve estresse, mas logo em seguida a mãe presencia a cama da garota sacudindo e levitando violentamente. Sem respostas médicas, sugerem que ela procure apoio religioso.

Depois de encontrar o Padre jesuíta Damien Karras (Jason Miller), ainda abalado pela morte mãe, ele orienta que MacNeil procure algum psiquiatra, e tenta convencê-la a não se envolver com o exorcismo. Mesmo que o roteiro tenha se preocupado em passar uma mensagem sobre a discussão da existência de Deus, as plateias dos anos setenta não estavam interessados em refletir sobre a batalha do bem contra o mal. Elas na verdade desmaiavam e passavam mal durante a exibição, um homem inclusive processou a Warner Bros. depois que desmaiou e quebrou a mandíbula durante uma sessão.

A atriz Linda Blair foi ameaçada de morte e teve que ficar durante seis meses depois que o filme foi lançado, com guarda-costas, pois grupos religiosos acusavam o filme de fazer apologia ao Satanás. O exorcista é considerado pela crítica como um filme de terror sério, tanto que William Peter Blatty levou o Oscar de melhor roteiro adaptado. Até 2017 tinha sido o único filme de terror indicado ao Oscar de melhor filme, a hegemonia foi quebrada com Corra! (2017).

Na parte final é travada a sequência do exorcismo, conhecida como “Rituale Romanum” com a chegada do Padre Merrin (Max von Sydow) experiente que já fez inúmeros exorcismos e é recém-chegado da antiga Nívine, em Hatra (Iraque). Mas nessa disputa o demônio vence, depois do famoso jato de vômito esverdeado, Padre Merrin não resiste e morre. Vendo que também perderia a luta, Karras aceita o demônio e se joga ou é jogado pela janela do quarto de Regan, salvando-a. Segundo a Igreja Católica, o procedimento correto para uma sessão de exorcismo, eles teriam que ter quatro pessoas, o Padre, Padre assistente, caso o outro morresse durante o ato, uma pessoa da família do mesmo sexo da vítima e um médico.   

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O Padre arqueólogo Merrin no Iraque

Regan estaria possuída pelo demônio Pazuzu, não é citado no filme, mas sua estátua aparece duas vezes, no início no Iraque e perto do final. Ele é conhecido na mitologia assíria e babilônica como um ser que espalha a fome nos períodos de seca, e traz os gafanhotos na época das chuvas. Nomeado como o Rei dos demônios do vento.  

QUE DIA EXCELENTE PARA UM EXORCISMO

Além de ser cultuado pelos fãs do horror, o filme se tornou uma lenda devido as mortes de vários membros da equipe de produção, nove pessoas morreram e um incêndio destruiu um dos set de filmagem durante um final de semana.

O figurante barbudo que atua como assistente do médico na cena dos exames de Regan, ele realmente era um técnico de raio x, que trabalhava em um hospital quando participou do filme. Seis anos depois ele foi condenado por assassinar um crítico de cinema, depois de receber uma pena de 20 anos de prisão, ele revelou que ele era o “assassino do saco”. Uma série de mortes que ocorreu entre 1977 e 1978, corpos de homens eram encontrados desmembrados dentro de sacolas, contudo, não foram encontrados indícios que Paul Bateson tivesse cometidos esses crimes. Friedkin filmou as histórias desses crimes nos anos oitenta.

O ator Jack MacGowran que faz Burke Dennings, que cai da escada e quebra o pescoço depois de visitar a casa de Regan, morreu dias antes do filme estrear, de uma gripe forte que ele pegou em Londres. Vasiliki Maliaros de origem grega, que nunca tinha trabalhado com atuação, conheceu o diretor William Friedkin em um restaurante em Nova York e a convidou para o papel da mãe do Padre Karras, morreu no Bronx, assim como  MacGowran. Ela foi escolhida porque Friedkin achava que ela era parecida com a mãe dele e com a mãe do escritor Peter Blatty.

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“Rituale Romanum”

A cena do exorcismo vista hoje, ela não é só repugnante por estar em um filme de terror, mas a garota amarrada na cama, toda a parafernália, a nojeira do falso vomito de sopa de ervilha e os espectadores se deliciando com a rebeldia de um objeto sagrado usado como prazer, nem choca tanto.

A cama levitando, rodeada por dois Padres que oram diante do corpo da adolescente cheio de chagas, mas se levarmos em conta todos casos de pedofilia envolvendo Padres da Igreja Católica, que eclodiram nas últimas décadas, tudo isso exprime repulsa, não pela mise-en-scène, mas pelo que ela representa diante da inocência que inúmeras crianças perderam ao serem violentadas por esses religiosos.

FICHA TÉCNICA

O exorcista (Exorcist, The, 1973, EUA)

Direção: William Friedkin.

Roteiro: William Peter Blatty, baseado em seu livro.

Produção: William Peter Blatty.

Elenco: Ellen Burstyn, Max von Sydow, Lee J. Cobb, Kitty Winn, Jack MacGowran, Jason Miller, Linda Blair, Reverendo William O’Malley, Barton Heyman, Peter Masterson, Rudolf Schündler, Gina Petrushka, Robert Symonds, Arthur Storcch e Reverendo Thomas Bermingham.

Idiomas: Inglês, Latim, Grego, Frances, Alemão e Árabe.

Fotografia: Owen Roizzman e Billy Williams.

Oscar: William Peter Blatty, pelo roteiro e Robert Knudson pelo som.

Cor

Duração: 122 minutos/132 minutos (versão estendida).