O TESOURO DE SIERRA MADRE

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O ouro não tem nenhuma maldição. Tudo depende dele ser achado pelo cara certo. Acho que o ouro pode ser uma benção ou uma maldição”. Fred C. Dobbs em O Tesouro de Sierra Madre, 1948.

O “estilo” conhecido como parte de uma expressão que cada indivíduo se expressa de maneira livre, sem ser imposto por regras ou normas. Muitos diretores ao longo dos anos tiveram o seu “estilo” reconhecido pelo público e crítica. Como é o caso do diretor americano John Huston, que passeava confortavelmente com temas exclusivamente masculinos, que iam desde ambição, complexas relações humanas e um pouco de cinismo. Revelando um pouco da sua própria natureza como homem, ainda que os temas dos seus filmes parecessem de homens durões, ele conseguia embutir certo romantismo.

O Tesouro de Sierra Madre (Treasure of the Sierra Madre, The, 1948, EUA)  conta a história de três homens em busca de riqueza em uma mina no México, primeiro eles se conhecem numa espelunca infestada de baratas e que a diária custava 50 centavos. Um deles, Fred C. Dobbs (Humphrey Bogart em mais um trabalho memorável com Huston), já demostra um pouco da sua personalidade aflitiva, ele permeia entre a pobreza e a mendiguez. Reparem em uma ponta do diretor Huston como um americano que Dobbie insistentemente pede dinheiro por três vezes, na última e já de saco cheio do esmoleu, ele dá uma moeda a mais e diz para ele aprender a se virar por conta própria.

No decorrer da narrativa Fred Dobbs vai de um homem com a única vontade de trabalhar e ganhar dinheiro para se sustentar, para um ser humano cruel, sem valores e que passaria por cima de qualquer um que ficasse no seu caminho. Os seus olhos brilham quando ele vê o ouro pela primeira vez, mas o seu semblante de pouca honestidade se esvai com a poeira daquelas montanhas rochosas mexicanas, quando a ganância fala mais alto. Ele não se importa com valores, senso de ética ou caráter, vemos um personagem sucumbir naquilo que o ser humano tem de pior, quando se tem dinheiro envolvido, ele vai enlouquecendo aos poucos e deixando uma persona nada agradável tomar o poder. Quando Dobbs está conversando com Curtin (Tim Holt) na praça por alguns segundos atrás de Dobbs o vento balança os galhos de uma árvore formando a palavra “evil”, que significa mal em inglês.

O sinônimo de honestidade aqui é medido pela idade, quando o velho Howard (Walter Huston, pai do diretor John) é questionado por Dobbs e Curtin, se ele não fugiria com o ouro, para Howard, ele não teria como fugir, já que é muito velho e mesmo que fugisse seria capturado pelos outros dois, por serem mais jovens. Ele diz que é o mais honesto dos três, mais que ali nenhum deles é o mais confiável. Tanto que na mente de Dobbs os outros dois planejam a todo momento roubar sua parte do ouro. Como é ele que já tem essa intenção de ficar com a parte de Curtin e Howard, ele tira por ele o mau-caratismo que os outros poderiam ter.

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Tim Holt, Walter Huston e Humphrey Bogart em O Tesouro de Sierra Madre

Certa vez, Walter Huston teria dito para John, que se um dia ele se tornasse diretor de cinema, que tratasse de conseguir um bom papel para ele. O dia chegou, e até hoje na história da cerimônia do Oscar foi a primeira vez que pai e filho foram premiados ao mesmo tempo com a estatueta de melhor ator coadjuvante para Walter e John levou como melhor roteirista e melhor diretor. Já Jack Warner teve que engolir as extravagâncias de John Huston, pois o filme fez expressiva bilheteria rendeu mais de 5 milhões de dólares na época de seu lançamento. Até hoje figura sempre na lista dos 100 maiores filmes do cinema mundial, um verdadeiro clássico com toda pompa e mérito.

O perfeccionismo e insistência de Huston em filmar longe 200 quilômetros da capital Cidade do México, em um vilarejo isolado chamado Tampico, traz um aspecto árido e selvagem para o filme, é como se você sentisse sob a pele toda aquela poeira presente no filme. Essa falta de “conforto” em filmar no meio do nada e debaixo do sol escaldante ajudou ainda mais na caracterização dos atores para compor seus personagens, eles suavam, e muito, e não era água borrifada em suas roupas. Apenas as cenas noturnas é que foram gravadas no estúdio. Contrariando o dono da Warner Bros. Jack Warner, que não via com bons olhos que quase 90% do filme fosse filmado em locação, O Tesouro de Sierra Madre foi uma das primeiras produções norte-americanas filmada fora dos Estados Unidos. Por duas vezes Humphrey Bogart quase escorrega em uma das pedras perto do acampamento deles, aquilo não fazia parte da composição da cena, aparentemente Bogart estava cansado mesmo. Como o filme mostra como o ser humano reage sob pressão, a escassez do luxo tirou dos atores interpretações exaltadas e nervosas.

Baseado no livro do escritor B. Traven, o roteiro foi escrito por Huston e por Traven, eles se comunicavam por meio de cartas. Que por não confiar muito no que fariam com a sua história, designou o seu melhor amigo, Hal Croves, para observar o que estava sendo feito no set. Como Traven era conhecido por ser um misterioso homem da literatura, diga-se recluso, fantasma ou até mesmo uma lenda folclórica do imaginário popular. Não se sabe qual seu nome verdadeiro ou data de nascimento, o fato é que as pessoas no set achavam que Hal Croves era Traven. Achavam isso pois invés de se referir “ele” quando falava do autor, ele se denunciava falando “eu”. Mas ora, se ele não era Traven, por quê ele se confundia? Curiosamente, Traven viveu parte da sua vida e morreu no México, local onde se passa a história de O Tesouro

A cena em que John Huston aparece como um turista foi dirigida por Humphrey Bogart, mas como Huston era famoso por fazer pegadinhas, disse para Bogart que as cenas não teriam vários takes. Em contra partida Bogart espalhava no set que um Huston era ruim, mas dois já era assassinato. Ele estava enciumado com a performance de Walter Huston, o desconforto de Bogart chegou aos ouvidos de John Huston, que pediu para o pai baixar o tom da interpretação. Antes de filmar O Tesouro…, Huston e Bogart já tinham realizado outros três fimes: O Falcão Maltês (1941), Garras Amarelas (1942) e Paixões em fúria (1948). Sobre trabalhar com Huston no México Bogart declarou: “John queria tudo perfeito. Se ele visse uma montanha próxima que pudesse servir para fins fotográficos, aquela montanha não era boa; muito fácil de alcançar. Se pudéssemos chegar a um local sem vagar por alguns córregos e caminhar através de áreas infestadas de cobras no sol escaldante, então não estava muito certo”.

Existem algumas falhas de continuidade durante o filme, além do escorregão de Bogart, ele já estava completamente calvo quando chegou para filmar no México. Por isso em algumas cenas ele está demasiado enlameado, para encobrir a peruca que ele usava. E um burro que era para estar morto numa cena aparece respirando com as patas amarradas. Os dublês de Bogart e Holt não fazem questão de esconder a cara na cena de luta no bar. No tiroteio com os mexicanos Dobbs recarrega seu rifle, mas quando ele atira não emite som nenhum. Quando Cody é morto eles pegam a carteira dele para saber quem ele é, mas Cody já tinha se apresentado antes para Curtin na aldeia. Na cena final quando o vento leva o ouro embora, mas não leva o saco de pano que estava no chão, o vento tem força para carregar o ouro em pó, mas não consegue mover vários saquinhos.

Quando John Huston lançou sua autobiografia, ele escreveu que o filme foi um dos que lhe rendeu maior prazer e que trabalhar com o seu pai foi o momento mais importante da sua vida. Mesmo a história do livro se passando em 1927, dois anos antes da depressão americana, o personagem de Humphrey Bogart já era um miserável antes da maior crise econômica que os Estados Unidos já passou. Huston transpôs para o filme parte dos diálogos concisos e sarcásticos do autor. Mesmo enaltecendo os mexicanos como bandidos (atualmente o governo de Donald Trump planeja construir um muro separando os Estados Unidos do México), já que o enredo se passa nos anos 20, fazia pouco tempo que a sangrenta Revolução Mexicana (1910-1920) havia acabado.

O Tesouro de Sierra Madre completou 70 anos este ano, e continua sendo um profundo estudo como a ganância do homem pode interferir nas relações humanas, transformado o caráter de qualquer pessoa.

FICHA TÉCNICA

O Tesouro de Sierra Madre (Treasure of the Sierra Madre, The, 1948, EUA)

Direção: John Huston.

Produção: Henry Blake e Jack L. Warner.

Roteiro: John Huston, B. Traven, inspirado no livro de B. Traven.

Fotografia: Ted D. McCord.

Música: Buddy Kaye e Max Steiner.

Elenco: Humphrey Bogart, Walter Huston, Tim Holt, Bruce Bennett, Barton McLane, Alfonso Bedoya, Arturo Soto Rangel, Manuel Dondé, José Torvay e Margarito Luna.

Oscar: John Huston (direção) e (roteiro), Walter Huston (ator coadjuvante).

Indicação ao Oscar: Henry Blake (melhor filme).

Idioma: inglês e espanhol.

EUA (Warner Bros.)

Duração: 126 minutos.

P&B.

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