APOCALYPTO: UMA CATARSE DA VIOLÊNCIA

Famoso galã dos anos 80 e 90 o astro Mel Gibson de Máquina Mortífera, se meteu em uma sinuca de bico quando foi preso por dirigir embriagado, em julho de 2006. Não seria a primeira vez que um ator de Hollywood era pego dirigindo bêbado. Só que ao ser autuado pelos policiais, ele vociferou palavras anti-semitas aos homens da lei, que óbvio lhe deram voz de prisão. Gerando uma polêmica sem tamanho.

Apocalypto 2007 Real : Mel Gibson Mel Gibson COLLECTION CHRISTOPHEL
Apocalypto
2007
Real : Mel Gibson
Mel Gibson
COLLECTION CHRISTOPHEL

Ele não é muito preocupado com a sua imagem pública, não segue os discursos pré-aprovados pela assessoria de imprensa durante as entrevistas coletivas e premières. Não liga para a opinião pública e dispara comentários ásperos sobre todo tipo de questão, como religião, política e homossexualismo.

Sua carreira de 20 anos estava preste a ir para o esgoto, por causa de meia dúzia de palavras preconceituosas e Hollywood estava pronta para varrer Mel Gibson para a terra do esquecimento, quando o inesperado aconteceu. Meses depois do ocorrido com os policiais judeus, ele sossegou e decidiu concentra-se apenas no seu novo filme, na época ele estava lançando nos cinemas Apocalypto (idem, 2006, EUA).

JAGUAR PAW foto:FOX
JAGUAR PAW foto:FOX

Depois de tantos escândalos não seria difícil apostar que o seu novo filme seria um fracasso ou que ele seria punido pelo público e pela mídia. Sem contar que ele proibiu a entrada da imprensa ou de qualquer outra pessoa que não fosse da equipe nos sets de gravação, ele filmou na Costa Rica, Reino Unido e México. Com roteiro escrito por ele, Mel Gibson, e pelo iraniano, Farhad Safinia (Boss). Apocalypto conta a história da trajetória do índio guerreiro, Jaguar Paw (Rudy Youngblood), sua luta pela sobrevivência em meio à selva e a sede de vingança.

Há elementos já conhecidos dentro da cinematografia de Gibson; como ação inerente, morticínio, violência ao extremo e tortura, mas a trama poderia muito bem se passar nos dias atuais. Entenda, depois de ser capturado por uma tribo rival, Jaguar passa o filme inteiro tentando fugir dos seus algozes, na esperança de salvar Seven (Dalia Hernandez), sua esposa que está grávida, presa dentro de um buraco com o filho pequeno, o simpático Turtles Run (Carlos Emilio Baez).

foto: FOX
foto: FOX

A boa sacada do roteiro foi transportar essa trama para época do Império Maia, deixando de lado a visão dos conquistadores do Novo Mundo, já visto em fitas como 1492 A Conquista do paraíso, de Ridley Scott. A visão aqui se dá de dentro para fora e o começo de uma possível desesperança. Possivelmente o filme não fluiria tão bem se a história não fosse amarrada há outros elementos narrativos e a ação incessante, herança de outros filmes dirigidos por Gibson.

foto: FOX
foto: FOX

Um elemento pessoal defendido com unhas e dentes por Mel Gibson é a procriação – para ele entre homens e mulheres –, o ator não é conhecido só pelos filmes, mas pela quantidade de filhos que têm. Quando o grupo sai para caçar e repartem parte da carne da anta, Blunted (Jonathan Brewer), de todos, o guerreiro mais alto e forte, fica com os testículos do animal. Em algumas culturas é considerado afrodisíaco comer esta parte de qualquer animal. Ele está com dificuldades para engravidar a esposa, mas ele não é retratado apenas como um índio infértil, os outros índios que já têm filhos, são vistos como inteligentes, ágeis e melhores caçadores. A brincadeira vai bem mais além, quando Blunted é humilhado na frente do resto da tribo, sempre visto como um bobo e sem serventia para a esposa.

A desconfiança e o medo aplaca o coração do jovem Jaguar, depois do encontro com o que restou de outra tribo indígena, que pedia passagem por dentro do território da tribo de Jaguar. Não se sabe ao certo o que aconteceu com essa tribo, apenas que estão magros e cansados, sem perspectiva de continuarem vivos. A partir dali há prenúncio de que algo de ruim estaria por acontecer.

Alertado por seu pai, Flint Sky (Morris Birdyellowhead), que essa tribo estaria sofrendo de uma doença chamada “medo” e que ele não deveria sentir “medo”, somente os fracos são acometidos por essa doença e ele tinha sido criado para não sentir “medo”. O medo nós enfraquece não nos permite seguir adiante, nós acovardamos até contaminar quem está próximo e é isso que vai manter Jaguar de pé até o fim.

Depois da calmaria da alvorada (plano de cobertura). Jaguar é imerso num sonho agourento, mas profético. O roteiro utilizou um elemento intermediário, que são as imagens que representam o sonho da personagem, para mais na frente o espectador fazer uma relação psicológica entre o sonho e o que Jaguar teria que enfrentar durante todo o restante do filme (analogia de conteúdo intelectual).

Raoul Trujillo como Zero Wolf. foto: FOX
Raoul Trujillo como Zero Wolf. foto: FOX

Enquanto isso a tribo é invadida pelo líder Maia, Zero Wolf (Raoul Trujillo), o poderio dele é representado pela quantidade de caveiras dependuradas em sua indumentária, destaque para a figurinista mexicana, Mayes C. Rubeo (Avatar), que soube retratar a história do povo maia através de um vestuário respeitável. Os índios considerados mais fortes são capturados, mulheres, idosos e crianças são deixadas de lado.

A câmera de Apocalypto não para. A história do filme é contada de forma acelerada, o diretor Mel Gibson praticamente não usou a câmera no tripé. As imagens em primeiro plano estão sempre se movendo e, até as que estão fora de campo (ver cena do ataque à tribo). O cineasta mostra-se interessado pela cultura maia, mas está longe de ser um apanhado correto sobre a queda e os verdadeiros motivos do fim do Império Maia. Ele apegou-se a uma história que vai desde perseguição, vingança, sensibilidade, violência e até apelo visual.

foto: FOX
foto: FOX

O espectador mantém uma relação emocional com o protagonista, a sequencia da perseguição pela floresta tem pontos altos e baixos, mas as cenas de violência são apoteóticas. Gibson acerta quando levanta a questão de que, o ser humano está aqui há muito tempo, com a vontade apenas para destruir o outro.

Aqui, o ritmo cinematográfico utiliza-se da liberação do subconsciente do espectador. Por vezes considerado misterioso em sua interpretação, o ritmo cinematográfico tem a intenção de criar uma ligação entre proporção de movimentos, de espaços e de tempos diversos. As cenas filmadas com a câmera na mão se tornam mais subjetivas. A tremulação das imagens sugere o cabeceio do indivíduo ao andar. É muito complicado coordenar tudo o que se move dentro de um plano/quadro, até que tudo se transforme numa harmonia visual aceitável.

Entre os séculos IV e X antes da chegada dos espanhóis, quem habitava as florestas da América Central e da Península de Yucatán (atual México) eram os povos maias, toltecas e astecas. Por volta de 1325, os astecas fundam a cidade de Tenochtitlán (hoje capital do  México), tido como um forte império.

Os maias eram povos sofisticados. Eles teriam existido durante três mil anos, criaram as cidades-estados, que são independentes, com governos teocráticos. A zona urbana da cidade é habitada apenas pela família real (ver cena do culto ao Deus Chac), governantes, sacerdotes e cobradores de impostos.

foto: FOX
foto: FOX

Os que trabalham na agricultura, os guerreiros escravizados de outras tribos e os trabalhadores braçais são os que integram a parte da camada subalterna. A agricultura é o que dá rentabilidade a economia, eles cultivavam milho, feijão, tabaco e alguns tubérculos. São os responsáveis por criar com precisão o calendário do ano solar com 365 dias e a escrita hieroglífica, esse tipo de alfabeto também foi utilizado pelos egípcios.

Foram pioneiros em construir técnicas de irrigação modernas para a época e passaram a fazer trocas comerciais. Os maias ergueram fabulosos e misteriosos templos de pedras de arquiteturas surpreendentes, utilizados para cultuar os deuses, todos relacionados com alguma coisa da natureza (sol, chuva, trovão), estima-se que existiam cerca de 166 divindades.

foto: FOX
foto: FOX

Depois de atravessar a mata e chegar à capital maia, o índio Jaguar começa a entender o motivo pelo qual ele e os outros foram capturados. Com a escassez das chuvas os maias costumavam reunir a família real, os sacerdotes e os chacs para a cerimônia dos sacrifícios humanos, para acalmar a ira do Deus Chac, responsável pela chuva.

Eles acreditavam que a chuva só voltaria se cometessem os sacrifícios. Existem relatos de que antes da influência dos toltecas, os sacrifícios eram feitos com animais. Em Apocalypto, antes da chegada de Jaguar ao templo é possível ver iguanas amarradas de ponta cabeça, cachorros e algumas aves também faziam parte dos rituais.

foto: FOX
foto: FOX

Como já havia feito antes no filme A Paixão de Cristo (Passion of the Christ, the, 2004, EUA), que é falado em aramaico, em Apocalypto, os atores, alguns sem experiência nenhuma com cinema, tiveram que aprender o dialeto maia, ainda hoje falado na região mexicana de Yucatán. A linguagem tem uma sonoridade que lembra uma poesia antiga, funcionou, já que ainda é falada pelos povos k´iche e itza.

foto: FOX
foto: FOX

A curiosidade de Mel Gibson em fazer um filme sobre a história e os mistérios do povo maia, elevou o filme para um nível superior, alguns historiadores (europeus) afirmam que a história maia passou a existir depois da chegada dos descobridores à América.

Gibson parece gostar de temas em que os dilemas morais ou sociais fazem parte da vida dos personagens. Em seus filmes ele mostra até que ponto o ser humano age quando se encontra diante de circunstâncias extremas. Ele fez do filme algo tão visceral, que ao término da projeção o espectador fica em êxtase (teoria do êxtase proposta por Eisenstein), o mesmo aconteceu em A Paixão de Cristo, que dividiu opiniões. Apocalypto está aí para isso, para mandar um recado para os que adoraram ou odiaram A Paixão de Cristo.

PERDÃO SENHOR, POIS EU PEQUEI

Durante lançamento para divulgar Apocalypto, Mel Gibson concedeu entrevista para a revista brasileira SET (2007), ele demostrou arrependimento e vontade de seguir em frente, “Eu ouvi o que não queria e disse o que não devia, mas quero seguir adiante”, disse Gibson. Admitiu o erro e fez dessa experiência negativa uma dádiva para que ficasse focado no seu novo projeto como diretor.

Para Mel Gibson, a imprensa dá muita ênfase para o que os atores fazem fora das telas, “Infelizmente isso virou moda, afinal faz vender mais jornais”, explica. “Acho que a balança tombou, e a coisa ficou de um jeito que não dá para mudar. A solução, então, é tentar encontrar esse equilíbrio em você e nas pessoas que o cercam. Todo mundo já fez besteira na vida. Se pedirmos que levante a mão quem jamais disse algo de que se arrependeu, não veríamos muitas mãos levantadas”, confessa.

Essa não foi a primeira vez que ele causou discórdia com a comunidade judaica, em 2004, ele foi acusado de elevar o anti-semitismo no filme A Paixão de Cristo. Escancarou de vez o seu discurso pró-cristianismo e a sua fé em Cristo, segundo ele, estava apenas exorcizando seus demônios e que aquilo era uma forma de expressar a sua veia artística. Ele queria criar algo novo, em que as pessoas pudessem se identificar, compartilhar algo em que ele acredita.

É notório que Gibson é um convicto machista, preconceituoso e beberrão assumido, radical ao extremo, é a prova viva que pregar comentários racistas, preconceituosos ou difamação é muito diferente do que expressar opinião pessoal.

Ele joga no lixo a cartilha do politicamente correto. Mas, ele conseguiu fazer o impossível ou pelo menos tentou fazer com que as pessoas focassem em seu trabalho como diretor e que problemas pessoais sempre irão existir. Apocalypto soa como um “pedido de desculpas” ou como um “não me importo” de Gibson, enfim, seja lá o que for, ele está perdoado, por enquanto.

FICHA TÉCNICA

Apocalypto (idem, 2006, EUA).

Direção: Mel Gibson.

Com: Rudy Youngblood, Dalia Hernandez, Jonathan Brewer e Morris Birdyellowhead.

Roteiro: Mel Gibson e Farhad Safinia.

Produtores: Mel Gibson e Bruce Davey.

Diretor de Fotografia: Dean Semler.

Trilha Sonora: James Horner.

Desing de Produção: Tom Sanders.

Duração: 139 minutos.

Gênero: Ação.

 

 

 

 

 

 

Anúncios