O ANIMAL CORDIAL

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Você não entendeu nada, eu não sou quem você pensa, eu sou quem eu quero ser”. O Animal Cordial, 2018.

*CONTÉM SPOILER

O slasher conhecido como um subgênero do terror B, que começou a ficar conhecido depois do sucesso O massacre da serra elétrica (1974), segue um roteiro simples, psicopata começa a matar de forma aleatória, acumulando um número significativo de vítimas, com muito sangue. Eles podem usar máscaras ou não. Normalmente são filmes de baixo orçamento até confundido com o gore e o splatter. O Animal Cordial (2018) da estreante Gabriela Amaral Almeida, tem em comum esses três tipos de subgêneros do terror e ainda flerta com o gorno, que é uma mistura de gore e porn, mas é até pudico comparado com outros filmes.

A trama se concentra em um único cenário e conta a história de um dono de restaurante Inácio (Murilo Benício) que passa por banho de sangue depois que o seu estabelecimento é invadido por dois ladrões. O local tem uma aparência limpa, não é aquele tipo de lugar escroto de beira de estrada, mesmo estando na periferia, mas não parece ser novo, é até um pouco brega.

Como ele não é um slasher abaixo da média, como o IMDB o classificou com um 6,5, eu colocaria mais meio ponto nesta nota. Não é um trabalho fácil de realizar, um filme desse tipo 100% brasileiro, a tendência aqui é consumir os filmes de terror que vêm de fora, contudo, o filme de Gabriela Almeida consegue ser satisfatório.

A diretora desenvolve de maneira correta a questão da consciência de classe, étnicas, raça e o fervor sexual. Diferente dos filmes americanos do gênero, essa parte da consciência de classe não é abordada com muita frequência, ou é sempre de maneira preconceituosa, os caipiras do interior nunca são gente boa nos filmes americanos. As primeiras vítimas são as que transam logo, as mulheres vão sendo eliminadas e uma quantidade mínima de personagens sobrevive.

O Animal Cordial não fica batendo na mesma tecla sobre essa divisão de classes, do pobre favelado que se torna bandido ou do operário que se submete aos caprichos do patrão. Ela se desprende logo quando o texto avança para esse lado. Talvez por ter estudado bem esse tipo de construção narrativa, ela tem mestrado em horror com especialização em Stephen King, sem mencionar as inúmeras referências ao Giallo.

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Djair (Irandhir Santos) é o cozinheiro chef do restaurante, é uma personagem trans, que não aguenta mais a jornada humilhante de trabalho imposta pelo patrão. Sem contar que Inácio acredita que foi Djair que contratou os dois bandidos para assaltar o local, mas não era a primeira vez que ele era assaltado ali. Sempre se imagina que os bairros da periferia são os mais perigosos e com um índice alto de crimes. Esse assalto caminha mais para uma vingança do que para um crime comum, o que não fica explicado, apenas subtendido. Quando Sara (Luciana Paes) a garçonete, entra em confronto com o personagem da Verônica (Camila Morgado), que é uma rica metida a besta, ela chama a moça de ladra. O motivo, nenhum. Ela não foi com a cara dela. Mas quando Verônica é assassinada por Inácio, Sara furta os brincos e a bolsa da defunta. O personagem faz um prejulgamento, que se confirma verdadeiro depois, não antes.

Além da violência gráfica, característica desse tipo de filme, é interessante como ela brinca com algumas metáforas, eles têm a problemática de não conseguir jogar o lixo do restaurante fora. Na primeira tentativa, ninguém consegue encontrar a chave que abriria a porta dos fundos, depois quando dois funcionários vão embora e são obrigados a ter que passar pelo salão com o saco de lixo na frente dos clientes, eles acabam deixando o lixo lá no meio do restaurante. Quando um dos assaltantes é preso na cozinha, ele pergunta o que eles cozinhavam ali, pois tem cheiro de carniça. Já infere-se que ali não teria somente restos de comida apodrecendo, mas teria corpos mesmos.

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Inácio tenta manter as aparências, mas mentindo, quando pede para os seus funcionários que fiquem até mais tarde. Pois ele teria ficado sabendo que alguém de uma conceituada revista de gastronomia passaria pelo restaurante naquela noite. Ele ensaia diante do espelho o texto que falaria para o crítico da revista, ali o rosto dele ainda não está transformado. Uma imagem límpida, de um homem apenas falido e sacana com as pessoas que trabalham para ele. Na medida que a narrativa se estende os espelhos mudam, o rosto de Sara é refletido em um espelho quebrado, assim como o de Inácio, são pessoas com as caras deformadas, aflorando suas monstruosidades.

É muito bem realizada a utilização do foco profundo, que é um tipo de efeito em que se mantém o foco em objetos, tanto perto quanto longe da câmera. O uso dos sintetizadores misturado com o Concerto No.4 in F minor, Op.8, RV 297, “L’inverno”, Allegro Non Molto, de Antonio Vivaldi, transforma a sanguinolência em algo pulsante. Para o final, nada mais justo que uma música romântica, do Mercury Rev “The Dark is Rising”, que resume bem o final da personagem Sara.

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Mesmo tendo inserido com qualidade um subgênero que nem é tão novo no cinema, mas pouco explorado no Brasil, Almeida foi bem suave em alguns pontos. Toda facada é mostrada em uma tomada extracampo ou fora de campo, é a mesma coisa, ela mesma censura essas partes. Em uma sequência quando Inácio é ferido com o estilete, a arma aparece limpa de sangue e novamente quando o personagem de Murilo Benício enfia o mesmo estilete em Sara, ele sai limpo. Quando Sara esfaqueia Inácio no final, as três primeiras facadas também saem limpas e não são explícitas. A serra utilizada por Sara para esquartejar Inácio aparece sem nenhum sangue. Parece ter um certo pudor com as partes mais violentas, o mesmo não pode ser dito da cena de sexo, em que a censura foi varrida para debaixo do tapete.

Porém, onde o filme de Gabriela escorregue mais seja nos diálogos, em especial nas cenas de maior tensão, mesmo inspirada nos filmes do diretor Quentin Tarantino, ela passa longe da verborragia presente nos filmes dele. Mas ela entrega um trabalho bem realizado, apoiado em cores, texturas, música e na entrega dos dois atores centrais, em especial a atriz Luciana Paes. A pergunta que fica é, mesmo o slasher não fazendo muito sentido, mas quatro personagens estavam amarrados com uma fita gomada, presos em uma cozinha cheia de objetos cortantes, um dos personagens era o cozinheiro que conhecia bem o lugar, não teve a ideia de procurar uma faca e se soltar? Pensando bem, isso é que é um bom slasher.

FICHA TÉCNICA

O Animal Cordial (idem, 2018)

Direção: Gabriela Amaral Almeida.

Elenco: Murilo Benício, Luciana Paes, Humberto Carrão, Camila Morgado, Irandhir Santos e Ernani Moraes.

Produção: Rodrigo Teixeira.

País: Brasil.

Faixa Etária: 18 anos.

Duração: 97 minutos.

Roteiro: Gabriela Amaral Almeida.

Cor

Gênero: Horror/Thriller.

Idioma: Português.