O ALFAIATE DO PANAMÁ

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Harry, menino, eu lhe disse várias vezes, um homem que diz a verdade deve ser descoberto mais cedo ou mais tarde. Tente sinceridade, isso é uma virtude. Mas a verdade é uma aflição!”

Quem não se lembra da história do Pinóquio, personagem criado pelo italiano Carlo Collodi, boneco de madeira entalhado num pedaço de madeira pelo artesão Geppetto, mas que tinha o hábito de contar mentiras, cada vez que o fazia, seu nariz crescia. No mundo em que vivemos, a propagação de mentiras através das redes sociais tomou um rumo inesperado.

Ao contrário do boneco do conto infantil, espalhar as chamadas “fake news” como são conhecidas, elegem até presidente da República. Na época que o romance homônimo do escritor britânico John le Carré foi escrito, as famigeradas correntes do Whatsapp ainda não existiam. Mas o ato de escutar histórias e repassá-las aumentando ou distorcendo um fato ali e outro acolá, não é novo. É assim que se desenvolve o personagem Harry Pendel (Geoffrey Rush), alfaiate que presta serviços para importantes membros do governo panamenho.

Depois da chegada do atraente espião Andrew Osnard (Pierce Brosnan), na Cidade do Panamá, depois que foi forçado a ficar um tempo fora de Londres, devido ao envolvimento nada ortodoxo com algumas mulheres na Espanha. Brosnan foi o último James Bond antes da escolha de Daniel Craig, e é considerado o menos carismático pelos fãs da série, mas em O Alfaiate do Panamá (2001), ele desempenha um espião amoral, de métodos duvidosos e atraente sexualmente.

Depois de ameaçar Pendel com o seu passado criminoso na Inglaterra, Andy Osnard convence Pendel a espionar e conseguir documentos secretos. Para isso Pendel tem que mentir para esposa Louisa (Jamie Lee Curtis), que trabalha diretamente com o presidente panamenho. No momento não está acontecendo nada de estranho no Panamá, a não ser uma leve tensão sobre a segurança do canal.

Então Osnard com ajuda do amigo mentiroso, repassa informações que uma célula de antigos rebeldes do ex-governo de Noriega, a “oposição silenciosa”, tramaria algo contra o governo. Michelangelo ‘Mickie’ Abraxas (Brendan Gleeson) não passa de um beberrão endividado que ainda fica indignado com o que o país se tornou, passa longe de ser um rebelde atuante. Na boca de Pendel ele se transforma no líder do grupo, ele reinventa aquilo que ‘Mickie’ deveria ser e não é. Sua repetida frase “nunca de rodillas”, faz lembrar outro revolucionário, o mexicano Emiliano Zapata, que dizia: “Eu prefiro morrer de pé, do que viver de joelhos”. Sua funcionária no ateliê, Marta (Leonor Varela), que teve parte do rosto desfigurado anos atrás, se torna parte da imaginária “oposição silenciosa”.

BEM-VINDO AO PANAMÁ, CASABLANCA SEM HERÓIS

No filme de John Boorman, responsável pela obra-prima Amargo Pesadelo (1972), deixa transcorrer personagens ambíguos. Osnard não é patriota, ele é explorador, manipulador, traiçoeiro, apenas na espera de se dar bem e receber algum lucro financeiro com toda aquela mentira. O Harry Pendel de Rush é um mitômano inveterado, fadado ao fracasso, que acredita na própria mentira, sem culpa, sem perder a inocência.

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O filme é um engodo de personagens cínicos, mas não excluam o filme por causa disso, faz parte do universo dos personagens de John le Carré. São figuras desonestas, que caminham para um final grotesco, talvez, o filme não tenha feito sucesso pela falta de maniqueísmo, e o resultado das manobras do personagem Andy Osnard volta-se para uma coroação no epílogo. Levemente inspirado no livro Nosso Homem em Havana, de Graham Greene.

O autor John le Carré perguntado uma vez em uma entrevista, quais eram as melhores adaptações para o cinema de suas obras, ele classificou; O Espião Que Sabia Demais (2011); O Jardineiro Fiel (2005) e O Espião Que Saiu do Frio (1963); como as mais relevantes já feitas. Mesmo John le Carré escrevendo o roteiro e sendo o produtor executivo, parece não ter gostado do resultado final. Custou US$ 18 milhões de dólares e faturou até 2004 pouco mais de US$ 14 milhões. O filme conta com o iniciante Daniel Radcliffe, antes de ser contratado para os filmes da franquia Harry Potter e de um dos maiores dramaturgos do Reino Unido, o já falecido Harold Pinter, que interpreta o tio Benny.

Uma das diferenças entre o livro e o filme, além do fato que o filme foi feito cinco anos depois da publicação, no livro a soberania do Canal do Panamá ainda não tinha sido repassado para a República do Panamá. No filme essa transição já está no final quando os Estados Unidos transferem o poder do Canal para os panamenhos, em 1999. O Canal que foi construído pelos americanos no começo do século XX, e é considerado uma das maravilhas da engenharia moderna.

Boorman mostra uma cidade tropical, corrupta, criminosa, mas exótica em sua peculiaridade. Existe um final alternativo na cópia em DVD, em que Harry Pendel atira em Osnard, foi cortado pelo diretor, que achou muito pessimista. Até agora é a única obra que John le Carré considera como uma comédia, fato incomum na sua carreira de escritor.

FICHA TÉCNICA

O Alfaiate do Panamá (Tailor of Panama, The, 2001, EUA, IRL)

Direção: John Boorman.

Roteiro: John le Carré e John Boorman.

Elenco: Pierce Brosnan, Geoffrey Rush, Jamie Lee Curtis, Daniel Radcliffe, Brendan Gleeson, Harold Pinter, Leonor Varela, Catherine McCormack, Lola Boorman, David Hayman, Mark Margolis, Martin Ferrero, John Fortune, Martin Savage e Edgardo Molino.

Duração: 109 minutos.

Cor.

Idioma: Inglês.

Gênero: Comédia, Drama/Suspense.