BIRD BOX: É A MANEIRA DA NETFLIX DIZER ASSINE NOSSOS PLANOS E FIQUEM EM CASA, É MAIS SEGURO

 

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Sandra Bullock é Malorie no pós-apocalíptico Bird Box

Malorie: Chegou a hora. Sabem as corredeiras? Lembram o que eu disse sobre elas? Estão perto. É muito perigoso, e só tem um jeito de passar por elas. Olhando.

Garota: Eu olho.

Malorie: Não, eu decido. Certo? Só esperem um segundo.

Garota: Eu olho.

Malorie: Ninguém vai olhar. Ninguém olha. Está bem?

ATENÇÃO CONTÉM SPOILER

A maior audiência da plataforma online de filmes conhecida como Netflix, o filme Bird Box (idem, 2018), já foi visto por mais de 45 milhões de usuários, assinantes do serviço de streaming de vídeo. Desde Okja (2017), que recebeu uma indicação a Palma de Ouro em Cannes, a empresa vem investindo pesado na produção de longas-metragens com conteúdo original. Assim como Okja, Bird Box também teve uma curta temporada nas salas de cinema. O filme fez o seu debut no Festival American Film Institute (AFI FEST), na cidade de Los Angels, Califórnia, no dia 13 de novembro de 2018, mas só estreou de vez na multiplataforma no dia 21 de dezembro. As melhores campanhas são aquelas que lançam seus filmes para o natal e no período de férias, a tendência é ter um público maior de espectadores nessas datas.

Com uma campanha maciça de marketing na internet (precisamente nas redes sociais, lugar onde o filme se tornou muito popular), que ainda é o foco principal da empresa; apesar das discordâncias entre os grandes estúdios; e o debate se filmes produzidos para distribuição em plataforma online, merece concorrer com as outras produções, que são lançadas diretamente nos cinemas. Independentemente de qual seja o lugar de exibição, um filme é sempre um filme, se vai ser exibido em um cinema de rua, cineclubes, exibição caseira, o sentido da palavra e o seu destino final não muda, um filme não deixa de ser um filme porque passou em um local diferente de uma sala de cinema.

Para os estudiosos essa veneração religiosa do espaço físico conhecido como cinema, remete o mito da caverna de Platão (427 a.C. – 347 a.C.), que foi um dos grandes filósofos gregos da antiguidade. Dentro da caverna, seres são obrigados a olharem fixamente para uma luz que fica no fundo da caverna, eles ficam sentados de costas para a entrada, observando as sombras que são projetadas na parede. As figuras são as sombras de outras pessoas que passavam na frente de uma fogueira, que ficava atrás desses outros seres. Eles ouviam sons que viam de fora que sincronizava com as imagens que surgiam na parede. No conceito desenvolvido por Platão, se o indivíduo fosse forçado a olhar diretamente para o fogo que refletia as imagens, numa maneira de mostrar que nada daquilo que ele estava vendo era realidade, a luz apenas causaria uma confusão mental, além de deixar seus olhos sensíveis ou até cegos. Mesmo que aquele ser voltasse para a caverna para avisar aos outros que nada era real, os seus olhos já acostumados com a luz, interferiria na sua visão, causando uma cegueira. O que os outros concluiriam: que sair da caverna era extremamente perigoso, e eles impediram quem ousasse fazer.

Existe claro, a defesa da “magia do cinema”, que streaming nenhum vai tirar, é a ideia de você e a tela, o olhar fixo em imagens de um mundo de ficção, um lugar paralelo a sua realidade. São alguns dos inúmeros pretextos de que o fim do “cinema” está longe, espero. O cinema ainda é uma das maiores invenções do mundo moderno, e continua sendo bastante lucrativo, tanto que a própria Netflix começou a dar abertura para que os seus filmes ficassem nem que por uma curta temporada, sendo exibidos nas salas de cinema.

O ENREDO

Bird Box é uma adaptação do romance Caixa de Pássaros (ed. Intrínseca, 2015) do escritor norte-americano Josh Malerman. Que só aqui no Brasil já vendeu mais de 160.000 exemplares. Os leitores classificam o livro como um suspense psicológico e de escrita simples, que facilita a leitura. Os direitos autorais foram comprados pela Universal, que produziu o filme em parceria com a Netflix. A direção ficou com a dinamarquesa Susanne Bier, ganhadora do Oscar de melhor filme estrangeiro por Hævnen, em 2010, tendo ganhado também o Globo de Ouro e um Bafta, pelo mesmo filme. Na televisão ela levou o Emmy Awards pelo Gerente da Noite (Night Manager, The, UK, 2016) série adaptada pela rede BBC ONE, baseada em um livro de John Le Carré. O encarregado de escrever o roteiro foi Eric Heisserer, mais conhecido pelo filme A Chegada (2016).

A personagem vivida por Sandra Bullock (Gravidade) se vê em meio ao caos pós-apocalíptico, quando em várias partes do mundo, em uma onda de surto de histeria coletiva, faz com que as pessoas cometam suicídio. Aparentemente a Malorie de Bullock está sofrendo de depressão, a personagem durante quase metade do filme usa roupas no tom azul, a venda nos seus olhos também é dessa cor, que é associada a depressão. Que também pode estar ligada com a cor que simboliza a água, pois nos dias atuais a personagem passa parte do filme percorrendo um rio.

A diretora Bier já declarou que o filme é uma metáfora sobre maternidade. Malorie começa o filme grávida, mas não era uma gravidez desejada, já que ela pensou em doar o bebê depois do nascimento. Ela também não demostra apego a condição de gestante, nem se vai ser menino ou menina. Pouco se sabe sobre o pai do bebê, apenas que ela dividia a casa com um homem, que ela afirma em conversa com a sua irmã que não era somente um amigo. É fácil associar a ideia da depressão ao personagem, ela é pessimista em relação a maternidade, um pouco desleixada com a aparência. Mas ao longo que a narrativa avança, outras interpretações vão surgindo. Não ter apego pela gravidez não significa que ela não ame seu filho, o que fica claro perto do epílogo.  

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Bird Box foi sucesso na Netflix, e um ótimo gerador de memes e desafios.

Depois que o carro que sua irmã dirigia capota, e ela se joga na frente de um caminhão, Malorie vai para uma residência com mais sete pessoas. Eles acabam descobrindo que o jeito de se manterem vivos é fechando todas as janelas. Eles conseguem chegar até um supermercado, com ajuda de um carro com GPS, mas como acontece em geral nesse tipo de filme, a quantidade de pessoas vão diminuindo, morrendo mesmo. Apenas duas pessoas do grupo não tem o paradeiro revelado, não sabemos o que aconteceu com  a Lucy (Rosa Salazar) e o seu namorado Felix (Machine Gun Kelly), pode ser uma ponta para uma futura sequência.

O filme alterna entre os dias atuais, que são as cenas que se passam no rio e as outras dentro da casa. Existe uma mudança gradativa na personagem de Sandra Bullock, no princípio sem se preocupar com a gravidez, mas depois que ela deu à luz, e em seguida  tem que cuidar do bebê da Olympia (Danielle Macdonald), que é forçada depois do parto olhar para a “criatura”. Durante a ida ao supermercado, Malorie leva alguns pássaros para casa, e eles seguem com ela até o fim. Como sugerido pela diretora que o filme é sobre maternidade, na cena da corredeira, Malorie, como uma ave que tentar proteger seus filhotes, levanta a coberta, como uma grande asa de pássaro.

Ela com o tempo se torna uma mãe cuidadosa, depois do parto ela já tenta proteger seu bebê, dá ordens nas crianças e fica sempre atenta para que eles não se percam quando saem do rio. Não escolhe nem um dos dois para “olhar” quando eles têm que atravessar a parte mais perigosa do rio. É nessa sequência de planos que fica claro seu amor pelas crianças, a diretora se utiliza de fundamentos psicológicos da montagem, quando alterna para a cena que Tom (Trevante Rhodesse) se sacrificou para salvar a vida de Malorie, do garoto e da garota. M é a letra inicial de mother, que traduzido se significa mãe, e também é a primeira letra do nome da protagonista, Malorie. 

O título Bird Box em tradução de forma literal, caixa de pássaro, logo as pessoas associam aos pássaros que a protagonista carrega durante todo o filme. Mas como em Bird Box podemos colocar em exercício uma infinidade de teorias, ele é bastante rico em interpretações e simbologias. Se reparamos que sempre quando um personagem sai da “caixa”, “casa”, “barco” algo de ruim acontece. Até em tão Malorie e Jessica estavam seguras em casa, no hospital e no carro. Depois do acidente, Jessica se mata, a esposa do advogado Douglas (John Malkovich), Lydia (Rebecca Pidgeon) morre quando sai de casa. Hoje em dia, algumas pessoas optam por ficarem em casa, invés de se deslocar para um cinema; a violência; o preço alto dos ingressos ou até mesmo a comidade do conforto de casa, fez crescer o número de assinantes de plataformas de streaming de filmes. É possível assistir a Netflix no computador, celular, tablet e naquela conhecida como “caixa mágica”: a televisão.

Em dados levantados no ano passado 69% da população brasileira fez uso do serviço, e estima-se que exista no Brasil 4 milhões de usuários só da Netflix. E o filme mais popular da empresa até agora, é justamente, um filme que prega que as pessoas só estarão seguras dentro de casa/caixa. É dentro de casa, através de uma caixa mágica ou pequenas caixas como um celular, computador ou tablet, que o filme se tornou tão popular. No final a tal caixa de pássaros se revela o santuário onde Malorie encontra refugio com os filhos. O final foi filmado diferente do livro, aquele lugar é, na verdade, onde as pessoas optaram por viverem livres, sem a ameça de olhar a qualquer momento para o monstro, então elas cegam os próprios olhos. Os pássaros eram os primeiros a sentirem quando a força estava se aproximando, no fim, vários deles estão reunidos, protegendo o que sobrou da humanidade, com suas pequenas asas. Assim como Malorie fez com os filhos dentro do barco.

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A criatura apareceria em um sonho da personagem Malorie, a sequência foi cortada na edição final. É o ator Dirk Rogers que está debaixo da forte maquilagem.

OUTRAS SEMELHANÇAS

Pode-se encontrar logo de cara semelhanças com outra adaptação cinematográfica, Ensaio sobre a Cegueira, escrito pelo nobel de literatura, o português José Saramago. Lá a humanidade é acometida por uma cegueira “branca” e contagiosa, virou filme pelas mãos do diretor brasileiro Fernando Meirelles, em 2008. Em Bird Box não existe este contágio direto. Mas ao ouvir algumas vozes e olhar fixamente para algo, que não é mostrado no filme, as pessoas se machucam gravemente, se jogando de um prédio, ateando fogo em si ou usando armas letais.

Não se sabe o que é, como surgiu, se tem cura, parece ser um caminho que Hollywood resolveu seguir como uma receita de bolo. Eles seguem a linha de que não estamos preocupados em explicar nada, apenas como sobreviver nesse mundo pós-apocalíptico. Desde o britânico Extermínio (2002), o seriado The Walking Dead (2010), essas narrativas de sobrevivência em um mundo hostil ganharam destaque no cinema e na televisão. O recente Um lugar silencioso (2018) onde uma família isolada em uma fazenda, não pode fazer nenhum tipo de barulho. O vilão é um monstro com uma audição que capta qualquer ruído, o diferencial do filme é a falta de diálogos, o que não afastou o público.

Bird Box lembra muito Fim dos Tempos (2008) do diretor M. Night Shyamalan, na estória a humanidade vem sofrendo de um misterioso vírus que faz com que as pessoas cometam suicídio, tem um início bem mais pesado do que o filme de Bier. Mas não foi bem recebido pela crítica, que costuma ter um pé atrás com Shyamalan. Apesar que O Sexto sentido (1999) e Corpo Fechado (2000) são duas unanimidades entre os fãs. O rascunho do livro Caixa de Pássaros foi escrito por Josh Malerman antes do lançamento do filme de Shyamalan.  

No final quando Malorie está perto de encontrar a escola de cegos ela é perseguida por essa força invisível, mas o balançar das folhas no meio da floresta, lembra o monstro de fumaça do seriado Lost (2004), que se manifesta de forma semelhante.

Existem algumas falhas de continuidade, no barco antes das corredeiras a faixa da garota muda de lugar duas vezes. Os olhos de quem aceita ver a criatura têm um aspecto acinzentado, mas a mulher no hospital antes de bater a cabeça no vidro, mantêm a cor natural dos olhos. No supermercado, Douglas tinha deixado sua arma dentro do carrinho, na cena em que vão tentar tirar uma pessoa presa na dispensa, sua arma aparece na sua mão. É difícil acreditar que depois que a garota quase se afoga no rio, aquela caixa de sapatos, que é feita de papelão, conseguiu ficar intacta quando ela é resgatada. Os pássaros também não se afogaram com aquela água toda.

Tem uma quebra de ritmo depois da primeira hora, e com um final otimista, que decepcionou os fãs. Poderia ter ido além do que ele se propunha, mas encaixando tudo e tentando esquecer uma “barriga” bem no meio, não é só um passatempo, mesmo tendo virado modinha na internet. É preciso gostar desse tipo de narrativa e não perder a boa vontade.

FICHA TÉCNICA

Bird Box (idem, EUA, 2018)

Direção: Susanne Bier.

Roteiro:  Eric Heisserer, baseado no romance Caixa de Pássaros, de Josh Malerman.

Trilha sonora: Trent Reznor e Atticus Ross (Outside) .

Músicas: I Say a Little Prayer, compositores Hal David e Burt Bacharach, cantada por Dionne Warwick. Coming Down, de Kristin Gundred, com a banda Dum Dum Girls. Piano Sonata No. 47 em B Minor, HOB. XVI: 32 – Il Menuet, escrita por Franz Joseph Haydn, com performance de Ben Lester.

Elenco: Sandra Bullock, Trevante Rhodes, John Malkovich, Sarah Paulson, Jacki Weaver, Rosa Salazar, Danielle Macdonald, Lil Rel Howery, Tom Hollander, Machine Gun Kelly, BD Wong, Pruitt Taylor Vince, Vivien Lyra Blair, Julian Edwards e Parminder Nagra.   

Cor.

Duração: 124 minutos.

País: Estados Unidos.

Locação: Califórnia (EUA).

Som: Dolby Digital e Dolby Atmos.

Produção: Bluegrass Films, Universal Pictures e Netflix.

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