CARTER, O VINGADOR

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O gângster Jack Carter retorna para sua cidade em busca de vingança

Jack Carter: [nu, apontando uma espingarda] Fora!

Con McCarty: Vamos lá Jack, guarde-o. Você sabe que não vai usá-lo.

Peter: A arma que ele quis dizer!

Filme de estreia do britânico Mike Hodges, Carter o vingador (1971), o diretor ficou mais conhecido na TV, além de ser roteirista e dramaturgo, seu primeiro romance intitulado “The Wheels Come Off”, foi lançado em 2010. Get Carter conta uma história simples, tensa e violenta sobre vingança, adaptada do livro “Jack’s Return Home”, do escritor Ted Lewis (1940-1982), especialista em literatura criminal.

Em 2021 Hodges completa 50 anos de carreira, tendo realizado apenas 11 longas no cinema. Depois do suspense Diário de um gângster (Pulp, 1972), ele enveredou para a ficção científica com O Homem terminal (1974), adaptação do romance de Michael Crichton, que também assina o roteiro com Hodges. O ponto mais baixo da sua carreira pode ter sido o duvidoso Flash Gordon (1980), que nem a trilha sonora com músicas do Queen salvou, hoje em dia é considerado um cult movie, existem eventos e feiras sobre o filme. Seus dois últimos filmes foram Crupiê – A vida em jogo (1998) e Vingança final (2003), ele voltou para o suspense e a máfia, temas que lhe deixaram famoso.

Protagonizado por Michael Caine, o filme conduz uma áspera realidade sobre a vida dos mafiosos ingleses. Depois que Jack Carter retorna para a cidade de Newcastle, que outrora já foi importante centro naval da Inglaterra, ele que trabalha como capanga em Londres, acaba descobrindo que seu irmão morreu em um acidente de carro. Carter desconfia da morte do seu irmão, pois ele não era um homem que bebia e o acidente aconteceu por ele dirigir embriagado.

Ao chegar na cidade, um subúrbio de aspecto decadente, ele vai deslizando entre os destroços e as ruas da sociedade ao norte de Londres. O lugar foi mostrado com paisagens que estariam em ruínas, suas casas são geminadas, temos os pátios de carvão, inferninhos decadentes e as pensões, que para Jack, que observa ironicamente, as camas têm visto uma ação incalculável. Só que ele acaba se envolvendo de maneira violenta em uma série crimes com outros grupos criminosos. Antes de voltar para sua cidade natal, Jack Carter cometeu o erro mais grave que um gângster pode fazer, tinha um caso com a namorada do seu chefe, feita pela sueca Britt Ekland.

Como ele chega à conclusão que o acidente que seu irmão sofreu não foi bem o que lhe contaram. Ele vai investigar por conta própria e descobre que seu irmão trabalhava para pessoas que eram envolvidas em uma rede de prostituição. Eles escolhiam jovens garotas para participar de vídeos pornográficos, e Carter descobre que seu irmão descobriu que sua filha foi uma das jovens que participou de uma das filmagens. Ele ameaçou contar para a polícia e por isso foi morto.

Quando Carter entende a verdade por trás da morte do seu irmão, ele parte para a vingança, não poupando ninguém. O ódio dele só aumenta quando descobre que sua sobrinha foi envolvida. Além de ficar no encalço dos criminosos da cidade, ele tem que conseguir despistar atenção dos capangas do seu chefe, que nessa altura já descobriu que ele andou transando com a mulher dele.

Com um vasto elenco cheio de bandidos nada elegantes, salvo o protagonista, Caine em atuação inspirada e sensual. Temos de destaque o respeitado dramaturgo John Osborne, ganhador do Oscar e do Bafta, em 1964, pelo roteiro de Tom Jones (1963) ele interpreta um homem do submundo, era na casa dele que os vídeos eram filmados. Ian Hendry da série Os Vingadores (1961-1969) é descrito por Carter como o homem que tem os olhos que mais parecem dois buracos de mijo na neve, os dois protagonizam a cena final e emblemática na praia, sem quase nenhum diálogo.

As locações que incluem as docas, a praia, balças, e as ruas da cidade, demonstra um lugar em que as pessoas apenas pensam em sobreviver em empregos nas fábricas ou que elas podem ser tentadas a entrar para a criminalidade, para a prostituição, as drogas, as escolhas honestas são reduzidas. Mesmo os atos homicidas perpetrados por Carter, sejam ao mesmo tempo, condenáveis e justificados, nem ele sai ileso de condenação.

Aqui vão as cenas mais memoráveis do filme de Mike Hodges:

Michael Caine naked film

>Caine completamente nu enxotando uns capangas da pensão onde ele estava hospedado, segurando apenas uma “enorme” espingarda calibre 12, indo até a calçada da rua, deixando uma senhorinha ruborizada.

>Britt Ekland seminua fazendo sexo por telefone com o personagem de Caine, em pleno êxtase ela é flagrada gemendo na cama pelo namorado, que pergunta se ela está tendo algum desconforto estomacal.

>Um carro é empurrado pelos homens que estavam atrás de Carter e cai no rio com uma passageira dentro do porta-malas, sob o olhar perpétuo de Caine.

>Um mafioso que tentou enganar Carter é jogado por ele de um edifício-garagem e o corpo é estatelado em cima de um carro que passava na rua.

>Ação rápida entrecortada entre Caine dentro do carro e na cama com uma jovem, para finalmente entendermos o significado do subtexto de tantos anúncios de automóveis existirem.

POR QUE VOCÊ NÃO FAZ UMA BOA XÍCARA DE CHÁ PARA TODOS NÓS?

michael caine ian hendry carter

O Jack Carter desenvolvido por Sir. Michael Caine é constituído como um anti-herói noir nato. Elegante por excelência, ele é do tipo que fuma cigarros franceses, e não se assuste, ele é um gângster que lê Raymond Chandler. Mike Hodges prestou homenagens as histórias clássicas do noir, de maneira muito respeitosa, quando vemos o personagem seguindo seu caminho para um fim não muito feliz. Carter é o que pode ser configurado como um anjo, mas da morte e vingativo, ainda assim terrivelmente sexy em algumas cenas quentes. Distribui tiradas cômicas e sarcásticas com muito prazer.

Pela visão de Carter tudo é justificado, se algo de errado foi feito ele vai lá e resolve a sua maneira, sem moralidade. É um homem de sangue frio, tão ruim quanto o pior dos criminosos que ele enfrenta. No final das contas, torcer pelo personagem, seria como desejar uma dor de dente por causa de uma dor de barriga.

Os olhos azuis de Caine ajudam a julgar suas vítimas, ele é o juiz e o carrasco de seus desafetos. Ao longo do filme você não verá Jack derramando uma lágrima, nem quando enterrou o irmão, nem quando descobriu o abuso sofrido pela sobrinha, mas seus laços familiares são fortes.

O trabalho do diretor de fotografia Wolfgang Suschitzky, resumi em transformar o ambiente menos sofisticado possível. Se a tela passasse cheiro daria para sentir o odor da maresia das águas turvas do mar, até a fumaça da chaminé no final parece querer tomar todo o lugar. Ele soube usar o cais, o proletariado, o subúrbio, ruas e casas para obter o máximo de força da região de Newcastle. Roy Budd responsável pela trilha sonora, entregou uma partitura contemporânea, como se fosse sempre um prenúncio que algo de mortal estava na espreita.

mike hodges get carter

Hodges entregou um filme seco, sem muitas reviravoltas, não que isso o torne simplista demais, é um lado do subúrbio de Londres numa época que não se utilizava muito essas locações para um filme de máfia. Um dos melhores expoentes do neo-noir britânico da década de setenta. É um filme sombrio, em que o diretor trabalhou a realidade de um período cruel, inserindo muita sensibilidade e pulverizou com um olhar destruidor. Carter, o vingandor vai ficando cada vez mais apurado com o passar das décadas, um clássico envelhecido em distintos tonéis de puro noir.

Existe uma refilmagem dirigida por Stephen T. Kay com Sylvester Stallone, Alan Cumming, Mickey Rourke e Michael Caine, mas é muito inferior ao filme de 1971, tem Caine em um papel menor, como o dono bar.

TRILHA SONORA ROY BUDD

FICHA TÉCNICA

Carter, o vingador (Get Carter, ING, 1971)

Direção: Mike Hodges.

Elenco: Michael Caine, Ian Hendry, Britt Ekland, John Osborne, Tony Beckley, George Sewell, Geraldine Moffat, Dorothy White, Rosemarie Dunham, Petra Markham, Alun Armstrong, Bryan Mosley, Glynn Edwards, Bernard Hepton e Terence Rigby.

Roteiro: Mike Hodges, baseado no livro “Jack’s Return Home“, de Ted Lewis.

Fotografia: Wolfgang Suschitzky.

Trilha Sonora: Roy Budd.

Duraçao: 112 minutos.

Cor.

Idioma: Inglês.

Produção: Michael Klinger.

MGM (Metrocolor).

País: Inglaterra.