TRUMBO: LISTA NEGRA

O radical pode lutar com a pureza de Jesus, mas o rico vence com a astúcia do Satanás”.

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Cinebiografia baseada no livro “Dalton Trumbo” de Bruce Cook, sobre a vida do roteirista norte-americano Dalton Trumbo (1905-1976), e o seu possível envolvimento com o comunismo. Dirigido por Jay Roach, que é mais conhecido por ter feito as comédias Entrando numa fria (2000), Os Candidatos (2012) e Austin Powers: Um agente nada discreto (2007).

O roteiro de John McNamara recria fatos que vão desde o fim dos anos quarenta até o começo dos anos setenta, sustentando na fase de perseguição logo depois que Trumbo foi acusado de traidor ao se recusar a responder os questionamentos do Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso (H.U.A.C), que o acusavam de ser membro do Partido Comunista dos Estados Unidos. Realmente ele fez parte do partido de 1943 até 1948.

Um dos líderes desse Comitê era o senador republicano Joseph McCarthy (1908-1957), que afirmava que a indústria de cinema mantinha ligações estreitas com o comunismo. A América deveria ser protegida e os filmes, roteiristas, atores e diretores eram acusados de usar “técnicas sutis que glorificavam o comunismo nos filmes”, influenciando os cidadãos americanos, realizando uma verdadeira lavagem cerebral. Curiosamente o filme de Roach omite a participação da figura polêmica do senador McCarthy, no que ficou conhecido em Hollywood como “caça às bruxas”, aparece apenas em imagens da época.

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Foto: California.

Esse comitê passou a realizar audiências públicas em outubro de 1947, chamando testemunhas que apoiavam a causa, entre eles, Robert Taylor, Ronald Reagan, Gary Cooper, Sam Woods, Adolphe Menjou, Errol Flynn, Elia Kazan. Lembrando que não eram apenas os que supostamente estavam envolvidos com comunismo que sofriam perseguição. Howard Hughes quando lançou em 1946 O Proscrito, rapidamente o filme foi retirado de circulação (sendo que já estava pronto desde 1941), ele teve problemas com a censura, conhecido como Código de Produção. Afirmavam que ele “glamorizava o crime e a imortalidade”. O que seria de diretores como Quentin Tarantino, Martin Scorsese, Lars von Trier nessa época. Até Elia Kazan que foi um dos que entregou companheiros no tribunal, para não perder a carreira, também sofreu ao lançar A luz é para todos (1947). A perseguição não era somente em torno dos “camaradas”.

“Os dez de Hollywood” como ficaram conhecidos, ao testemunharem, se negaram a responder os questionamentos do júri sobre se eram ou não comunistas. De acordo com a Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos, ninguém era obrigado a ter que responder se tinham sido ou se eram comunistas. O que aconteceu foi que mais de 300 artistas, técnicos e funcionários do governo tiveram seus nomes incluídos na Lista Negra, muitos foram demitidos e a carreira encerrada, alguns até cometeram suicídio.

Dalton Trumbo escolheu não delatar os amigos que eram simpatizantes do comunismo, tornou-se testemunha hostil, para eles, característica de um perfeito comunista. Fica onze meses na prisão federal Texarkana no Kentucky. Essa fase da vida dele é mostrada de forma enxuta pela direção, talvez por achar menos importante ou pela pressa de entregar um filme com duas horas de duração, vinte minutos a mais não traria complicações no resultado final, já que hoje em dia é comum filmes com mais de duas horas. Destaque para a montagem, composta de sequências em colchetes (comum em filmes de guerra), que facilitou o entendimento do espectador mais jovem alheio aos acontecimentos daquele período.

Para burlar o desemprego Trumbo e outros roteiristas passaram a trabalhar com pseudônimo, para quem era roteirista ou escritor, era até fácil, mas quem era ator, diretor, produtor, eles tinham que dar a cara a tapa. O que os famigerados líderes do Comitê não imaginavam era que ele levaria um Oscar de melhor roteiro original pelo filme A Princesa e o Plebeu (1953). O prêmio foi entregue para Ian MacLellan Hunter, que era amigo de Trumbo e que assinou o roteiro sem ter escrito, mesmo frequentando o círculo de amizades de Trumbo, ele não foi convidado para depor, como os outros.

Logo passa a trabalhar no estúdio King Bros., que produzia filmes de baixo orçamento, hoje chamado de filmes B. Trumbo com o seu exército de roteiristas são contratados pelos irmãos Frank e Hymie King, para “concertar” roteiros de gosto duvidoso. No seu pé está a colunista Hedda Hoppers (Helen Mirren) que vivia de hostilizar Trumbo e os seus amigos comunistas, e qualquer um que ousasse contratá-los.

Robert Rich foi o nome escolhido por Trumbo para levar o crédito pelo roteiro de Arenas Sangrentas (1957), mas uma vez ele é indicado ao Oscar, de novo leva a estatueta, com isso as desconfianças aumentam sobre quem seria a pessoa por traz do roteiro. Ele não nega nem confirma ser ele o autor do roteiro, pregando uma peça na imprensa.

Nesse meio tempo ele descobre que Buddy Ross (Roger Bart), amigo e colaborador de Trumbo durante o julgamento, delatou secretamente todos os que eram envolvidos com o comunismo, apenas para não perder o prestígio perante os estúdios e o glamour de Hollywood. Trumbo ao longo da narrativa vai perdendo os amigos, Arlen Hird morre de câncer no pulmão e Edward G. Robinson que também delatou os amigos vai se afastando dele.

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Foto: California

O que é mais controverso no filme (discretamente mencionado em tom de piada) e na vida real, é que Dalton Trumbo foi um dos roteiristas de cinema mais bem pagos da sua época. Ele vivia bem, era um homem rico, tinha posses, prestígio, fama, mas que por não assumir publicamente diante do júri se era ou não comunista, tem a sua vida arrastada para o buraco. Comunista assumido, mas que viveu como rico durante um bom tempo. Ficando na geladeira de Hollywood por quase duas décadas. Em tela vemos o declínio de um homem que lutou até o fim da vida para ter garantido o direito de trabalhar.

“VOCÊ É OU JÁ FOI MEMBRO DO PARTIDO COMUNISTA? H.U.A.C, 1947”

O escolhido para o papel de Trumbo foi o ator Bryan Cranston, famoso na televisão pelo seriado Breaking Bad (2008-2013), onde interpretava Walter White, que passa de mero professor de química para chefe do tráfico de drogas. Ele já havia participado das séries Malcolm in the Middle (2000-2006) e How I Met Your Mother (2005-2014). A escolha lhe valeu sua primeira indicação para o Oscar, na categoria de melhor ator, perdendo para Leonardo DiCaprio.

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Foto: California

Para quem lembra, ou sabe como foi à época de ouro do cinema americano, deve ter gostado, já que o roteirista vivia cercado de nomes importantes da indústria cinematográfica, como Edward G. Robinson, Kirk Douglas (de semelhança física impressionante com o verdadeiro), Otto Preminger, Edward Dmytryk e Arlen Hird.

Vamos dizer que o filme é apoiado no carisma de Cranston em um personagem completamente diferente do que o deixou famoso, já que ele não é tão parecido com Dalton Trumbo, mas usou bem os maneirismos e trejeitos de mão (a maneira como Trumbo segurava o cigarro na piteira), não chega a ser uma cópia fiel, como Philip Seymour Hoffman em Capote (2005).

O diretor fez bom uso dos spots, cinejornais, assim como a trucagem de imagens reais, com as do filme, que inclui até mudança de som. Ele tentou dar um tom parecido como em uma reportagem televisiva. As montagens de fotos raras de Cranston e de personalidades que posaram ao lado do verdadeiro Trumbo, algo parecido como o que foi visto no final do Iluminado (1980), de Stanley Kubrick, reforça o intuito de misturar realidade e ficção.

Apesar de não ter sido indicado ao Oscar de melhor filme, é um trabalho competente de um diretor expert em comédias. Tem no elenco coadjuvantes já conhecidos e até premiados como Helen Mirren, John Goodman e Diane Lane. Ficou devendo uma passagem sobre a juventude de Trumbo e a ironia que o perseguiu durante toda sua vida, pois anos antes dele ter sido delatado por alguns amigos, ele também já havia entregado algumas pessoas ao FBI, depois que pessoas ligadas ao Partido Nazista, pediram cópias do livro Johnny vai à Guerra (1939).

A figura de Dalton Trumbo não é tão popular aqui no Brasil como do ator John Wayne (1907-1979), que ficou no encalço do roteirista por bastante tempo. Trumbo ficou preso na figura dos “dez de Hollywood”, amargou anos de injustiça, teve o padrão de vida de rico que levava com a família, para ser tornar classe média. Amigos, figurões dos estúdios, imprensa, todos lhe viraram as costas, ser visto com ele, trabalhar com ele, não era bem visto pela Motion Picture Alliance. L.B. Mayer foi um dos que demitiram Trumbo, depois da pressão de Hoppers, para os padrões da época, um verdadeiro escândalo ter um funcionário comunista.

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Foto: Mitzi Trumbo e Cleo Trumbo

Somente depois que o vienense Preminger declarou publicamente que o roteirista de Exodus (1960), seria Dalton Trumbo é que ele voltou à ativa com renovado prestígio. Entre os seus roteiros mais conhecidos estão: Kitty Foyle (1940), Você me pertence (1942), Exodus (1960), Spartacus (1961), O Último Pôr-do-sol (1962), Adeus às Ilusões (1966), Havaí (1968), O Homem de Kiev (1968), Papillon (1974). Dirigiu uma única vez, Johnny vai à Guerra (1971), romance pacifista escrito por ele em 1939, sobre um rapaz que vai lutar na guerra, mas durante uma explosão ele acaba perdendo os braços, as pernas, e todo o rosto. Tem no elenco os atores Timothy Bottoms e Donald Sutherland, um dos filmes mais comoventes sobre os horrores de uma guerra.

Dalton Trumbo morreu de ataque cardíaco em 1976. Depois da retomada da carreira, com o sucesso de Arenas Sangrentas, é que a imprensa americana passou a chamá-lo de ex-comunista e que a Lista Negra não era tão perigosa, aí já era tarde demais. Trumbo: Lista Negra, de Roach é um pequeno relato de uma era sombria que foi a “caça às bruxas” na capital mundial do cinema.

FICHA TÉCNICA                                                     

TRUMBO: LISTA NEGRA (Trumbo, 2015, EUA)

Direção: Jay Roach.

Elenco:

Bryan Cranston – Dalton Trumbo

Diane Lane – Cleo Fincher Trumbo

Helen Mirren – Hedda Hopper

Louis C.K. – Arlen Hird

Elle Fanning – Nikola Trumbo

John Goodman – Frank King

Michael Stuhlbarg – Edward G. Robinson

Alan Tudyk – Ian McLellan Hunter

Adewale Akinnuoye-Agbaje – Virgil Brooks

Dean O’Gorman – Kirk Douglas

Stephen Root – Hymie King

Roger Bart – Buddy Ross

David James Elliott – John Wayne

Peter Mackenzie – Robert Kenny

John Getz – Sam Wood

Christian Berkel – Otto Preminger

Billy Slaughter – Repórter

Richard Portnow – Louis B. Mayer

Sean Bridgers – Jeff Krandall

Produção: Michael London, Kelly Mullen, Janice Williams, Shivani Rawat, Monica Levinson, Nimitt Mankad, John McNamara e Kevin Kelly Brown.

Roteiro: John McNamara.

Baseado no livro: Dalton Trumbo de Bruce Cook.

Gênero: Drama biográfico.

Música: Theodore Shapiro.

Edição: Alan Baumgarten.

Distribuição: Bleecker Street.

Lançamento: 12 de setembro de 2015.

Idioma: Inglês.

Colorido.

Duração: 123 minutos.