BASQUIAT: TRAÇOS DE UMA VIDA

BASQUIAT: TRAÇOS DE UMA VIDA (1996)
BASQUIAT: TRAÇOS DE UMA VIDA (1996)

Cinebiografia do artista urbano Jean-Michel Basquiat (Jeffrey Wright), narrada à trajetória do jovem pintor desde a sua saída dos guetos para ascensão repentina através dos seus quadros.

O filme é uma mistura de vídeo grafismo com linguagem pop exagerada, característica dos anos oitenta, época em que viveu o artista e trilha sonora recheada de figurinhas carimbadas da música mundial, como David Bowie, Joy Division, Van Morrison, PJ Harvey entre outros.

Bem retratado visualmente aquele período pela direção de arte, fase em que os street arts já deixavam de se tornar poluição visual para ganhar os trending top das artes.

SAMO, nome de guerra quando ainda morava na sarjeta e dormia numa caixa de papelão, que nas noites de chuva procurava abrigo na casa do amigo Benny Dalmau (Benicio Del Toro) e escrevia frases desconexas nos muros de Nova York. De poeta andarilho das ruas, que misturava calda de panquecas para desenhar o rosto da namorada na mesa de uma lanchonete até viciado em heroína (droga que o matou), esse foi Jean-Michel Basquiat. Heroína e Nova York sempre andaram de mãos dadas, para Basquiat, ela estava impregnada em suas roupas, cabelo, corpo e na sua arte.

Ao avistar o multiartista, Andy Warhol (David Bowie), entrando num restaurante, Benny Dalmau o convence de não apenas mostrar suas pinturas rabiscadas em pedaços de papel (o que ele chamou de arte primitiva), mas de vender. Não se pode dizer se realmente Warhol viu ali um talento, o fato é que ele ajudou Basquiat durante certo tempo. Formou-se uma relação dúbia, misto entre amizade e exploração de talento, de ambas as partes.

Trocando quadros por drogas, para sustentar o vicio, conhece Rene Ricard (Michael Wincott), crítico de arte, que consegue de improviso um espaço para ele expor alguns quadros. Não demora muito para que investidores de arte conceitual vejam em Basquiat um talento peculiar para pintura abstrata. O reconhecimento vem pela reportagem da revista New York Times, sugerindo que ele seria o Eddie Murphy das artes. Comparação que ele não gostou.

Fama, mulheres e drogas, parceiros habituais do artista, aos poucos vão se desgastando com o excesso provocado pelo consumo de cocaína e heroína, a então namorada Gina (Claire Forlani) o abandona, assim como alguns amigos. Decidido a ficar limpo, passa um tempo longe das drogas, acabar por reclamar que a fase deixa sua arte “morta”. Quando fica sabendo da morte de Andy Warhol entra de cabeça de vez nas drogas, acentuado com a paranoia.

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LUXO É SEGURANÇA, PENSA ELE

Jean-Michel Basquiat tinha origens haitianas, seu pai era haitiano e sua mãe porto-riquenha, mas nasceu no Brooklyn, Nova York. Começou a carreira sendo artista de rua, através do grafite, no final dos anos setenta. Mesmo tendo sido incentivado pela mãe, Matilde, no filme a figura dela é mostrada como tendo problemas psicológicos e vive internada numa clínica.

Ganhou fama com as frases pintadas nos muros do bairro nova-iorquino Soho, as mensagens eram assinadas com o pseudônimo de SAMO, que significa “same old shit” ou “sempre na mesma merda”.

“COMO UMA ROUPA DE PÁSCOA IGNORANTE”

“SAMO É UMA ALTERNATIVA A DEUS”

“MUITOS MENDIGOS DO BOWERY ERAM EXECUTIVOS”

“DENTES DE LEITE DE SAMO, $ 5.10 CADA PORÇÃO”

Além de pintor e poeta, Basquiat executou alguns projetos musicais, criou uma banda chamada GRAY, com o ator Vincent Gallo, com quem trabalhou no filme Downtown 81. Participou do vídeo clipe “Rapture” do Blondie.

Sua vida mudou quando o descobridor de talentos Rene Ricard escreveu o artigo, THE RADIANT CHILD, para a Artforum, em dezembro de 1981, em que mencionava o artista marginal como um verdadeiro representante do grafite nas ruas de Nova York e que sua arte é composta de uma agressividade artesanal se encaixando com uma sensibilidade política peculiar. Classificou Jean-Michel Basquiat como sendo, “Uma mistura de elegância e brutalidade”.

Seu trabalho ainda hoje é destacado como tendo grande apelo social, ele representava o poder versus riqueza, lembrando-se das lutas raciais e das minorias.

Saltou da sarjeta imunda dos bairros de Nova York para exposições em galerias da Europa. Nesse meio tempo conheceu aquele que anos mais tarde viria ser o realizador deste filme: Julian Schnabel de Antes do Anoitecer (2000). Schanabel também é pintor, durante a fase áurea de Basquiat era visto com frequência do lado do artista, que é reconhecido no mundo das artes como tendo participado do movimento neoexpressionismo, surgido no final dos anos setenta, como meio de resgatar a pintura através da cultura alemã. Era um método em que os artistas se expressavam, como forma de restabelecer uma nova identidade cultural. Com influências do expressionismo, simbolismo e surrealismo.

SAMO IS DEAD

Dizem que os anos oitenta é a década para ser esquecida, discordo. Era um período de liberdade exagerada, não se pode limitar a arte! Música, arte, moda e o cinema nesse período eram tudo muito “over”, tanto merece ser lembrada como revisitada, essa década tão ímpar. Nesse filme os anos oitenta são bem representados pelas figuras de Andy Warhol, Basquiat e David Bowie, este último interpretando o primeiro da lista.

Talvez em ato premonitório o epitáfio SAMO IS DEAD, Samo está morto, pintado nas paredes de uma construção no Soho, veio a ocorrer no dia 12 de agosto de 1988. Jean-Michel Basquiat foi encontrado morto no seu estúdio, depois de consumir “speedball”, conhecido coquetel de drogas a base de heroína. Tinha 27 anos.

Sua obra pode ser divida em quarto fases:

GRAFITE NAS RUAS até 1979

PINTURA SOBRE TELA que se inicia em 1980 até 1982, figuras esqueléticas e rostos desproporcionais. Agregando o tema da morte.

PAINÉIS E MISTURA DE MATERIAIS utilizando-se de palavras e colagens até meados de 1985. Com forte interesse pela cultura negra e hispânica.

PINTURAS FIGURATIVAS era um novo estilo iniciado em 1986 que não chegou a ser concluído.

É considerado o artista negro (morto) que tem as obras avaliadas mais caras dos Estados Unidos. O rapper Jay-Z ostenta em sua cozinha um quadro de Basquiat. Para quem não tem os milhões de Jay-Z, pode se contentar em visitar o apartamento em que Basquiat viveu e morreu, o imóvel foi aberto aos visitantes, quem tem um pouco mais pode alugar por 487 euros, a diária?! A estadia tem que ser de no mínimo de três dias.

Basquiat: Traços de uma Vida (Basquiat, 1996, EUA), foi lançado oito anos depois da morte do artista. Como já mencionado anteriormente, é dirigido pelo companheiro artístico de Jean-Michel Basquiat, Julian Schnabel. Interpretado pelo então estreante e desconhecido Jeffrey Wright de Syriana (2006), desenvolveu bem o papel-título, captando os trejeitos e andado do pintor. Quem merece atenção especial é o ator/cantor David Bowie, que lhe coube como uma luva o personagem de Andy Warhol, a verdadeira mãe da cultura pop. Não poderia ter sido outro, senão Bowie. Dois ícones da cultural pop mundial.

O filme tem várias falhas no roteiro, com personagens excessivos e outros que somem e aparecem do nada, no caso o do Albert Milo (Gary Oldman) e do Benny que mais lembra um amigo imaginário.

Schnabel mostra toda sua devoção e amor pelo amigo ao apresentar de maneira fugaz a carreira de Basquiat. É levemente inspirado no texto original que Rene Ricard escreveu sobre a “arte primitiva” de Jean-Michel. Ricard faleceu no começo do ano aos 67 anos.

Basquiat não precisava de muito para criar, qualquer pedaço de papel, porta de geladeira, pneus, paredes, tudo lhe era visto como forma de expressar sua personalidade excêntrica. Não dava tanta atenção para os endinheirados, era solitário e até dispensava aqueles que um dia lhe deram a mão. Viveu de maneira insólita e buscava demostrar nas frases curtas a vida infortune que tinha.

BASQUIAT E ANDY WARHOL NAS RUAS DE NOVA YORK
BASQUIAT E ANDY WARHOL NAS RUAS DE NOVA YORK
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