RESENHA ESPECIAL: O PALHAÇO

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As agruras vividas pelo palhaço Benjamim, feito pelo ator Selton Mello, chega a ser quase autobiográfico, mesmo que ele não goste da referência, apenas cita como o ponta pé inicial para o argumento do filme. A ideia surgiu quando ele pensou em desistir da carreira de ator, em meados de 2009. Segundo ele, a crise existencial que pode acontecer com qualquer pessoa em qualquer profissão.

Dizem que o humor do palhaço, dita o humor do circo”, se for assim, O Palhaço (idem, 2011, BRA) é de uma tristeza só, é que o personagem do título acha que não faz mais tanta graça como gostaria, se sente até infeliz pela condição de fazer rir, mas e quem o faz rir? Questiona certa vez Benjamim.

O segundo longa-metragem dirigido pelo ator/diretor Selton Mello, o primeiro foi Feliz Natal (idem, 2008, BRA), é uma obra singela, sem ares de superprodução, mas com uma direção de arte impecável de Cláudio Amaral Peixoto. O filme que apenas faz rir nos momentos do picadeiro, mesmo sendo as mesmas piadas vistas em qualquer circo mambembe, faz esboçar um sorriso para quem o assisti, que alivia diante da tristeza inerente. A responsável pela equipe circense do filme em cena foi à coreógrafa Alessandra Brantes.

É um filme de estrada ou como queiram road movie. O que desperta o interesse, não é saber o próximo destino da trupe do circo, mas sim as paisagens exteriores e o que sente os seus personagens. Paisagens estas que foram filmadas no interior de São Paulo e em Minas Gerais, uma espécie de Fitzcarraldo (idem, 1982, ALE) moderno, em uma das sequencias, a equipe teve que montar a tenda do circo em cima de um morro, na cidade de Ibitipoca, na época mais chuvosa do ano.

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Quando Lola (Giselle Mota) sussurra para o palhaço que ele deveria ter um ventilador, se instala naquele personagem uma depressão que não é digna do papel que ele vive. Um palhaço tem que ter uma alma de palhaço, não uma alma de homem, pois homens são falhos, tristes, pobres… E é a pobreza que o acompanha durante todo o espetáculo, o circo não dá dinheiro, não tem público, tem caminhão quebrado, dívidas e um palhaço afundado em tristeza, por não ter um ventilador.

Poderia ser qualquer outro objeto, mas levando em conta o formato das hastes do ventilador, que bem lembram a figura desenhada na Kombi do Circo Esperança. Benjamim só consegue ter de volta a alegria e o sorriso, quando passa a possuir o objeto que tanto desejava, o que ele tanto queria sempre esteve ali: o circo. É o circo que o mantém vivo, a tristeza é passageira. Assim como foi a vontade que Mello teve em abandonar a profissão.

É uma visão grotesca de si mesmo, palhaços fazem rir e chorar ao mesmo tempo, o filme se propõe de maneira muito particular ao abordar este tema, com roteiro do próprio Selton Mello em parceria com Marcelo Vindicatto, os personagens aceitam a pobreza e as dificuldades em nome de uma arte milenar que não é tão valorizada como merece.

O POVO QUER PÃO E DIVERTIMENTO,O PÃO SE ACHA NA PADARIA E O DIVERTIMENTO NO CIRCO.

Pangaré & Puro Sangue são as duas atrações do Circo Esperança, que levam os espectadores ao riso frouxo, fora do picadeiro à dupla é filho e pai que literalmente fazem mágica com os rendimentos do circo. A situação é tão precária, que Benjamim tem que mendigar um sutiã velho para algumas mulheres, entre elas a esposa do prefeito de uma cidadezinha por onde o circo estava se apresentando, a situação é trágica, se não fosse cômica.

São inevitáveis as comparações que foram feitas entre O Palhaço e os filmes do diretor italiano Federico Fellini, que produziu obras memoráveis para o cinema como Estrada da Vida (La Estrada, 1954, ITA) e Os Palhaços (I Clowns, 1970, ITA). Carlitos personagem imortalizado por Charlie Chaplin no cinema, muito parecido com os trejeitos usados por Pangaré, assim como Didi, feito até hoje pelo humorista brasileiro Renato Aragão, que descaradamente se inspirou em Chaplin.

O personagem Benjamim gravita entre momentos febris, apáticos e ingênuos, não é um papel difícil, é apenas contemplativo, que passa por um rito de passagem, em busca de sua identidade (em certo momento literalmente) fora da vida circense. E é quando ele decide abandonar o circo, trabalhando como atendente, que ele encontra o seu próprio sorriso, alguém que lhe faz rir.

É a oportunidade que Selton Mello tem em fazer algo diferente dos seus outros papéis no cinema, mesmo que haja resquícios de Xicó de O Auto da Compadecida (idem, 1999, BRA) e o ingênuo Emanoel personagem da novela A Indomada (idem, 1997, BRA) ele consegue transformar todas as referências já citas, em pequenas homenagens a vida circense e a relação do cinema com ela.

O papel do palhaço Pangaré foi oferecido para os atores Wagner Moura e Rodrigo Santoro, que recusaram, porém ambos indicaram o próprio Selton Mello para o papel. Em uma entrevista concedida ao portal IG, em 2011, ele fala que o personagem é lindo demais e extremamente sensível, que depois de se ver na tela, concluiu que ficaria muito mais difícil se algum dos dois atores tivesse aceitado o papel, para ele seria complicado ensaiar os sentimentos que somente ele sentiu ao interpretar o personagem.

A ideia não é original, pois o palhaço que pinta o rosto e diverte toda a plateia não é inovador, antes do cinema, o circo era diversão barata encontrada nas pequenas cidades, com o advento do cinema, o público migrou para a outra arte, não que o circo tenha deixado de existir, mas as dificuldades que já eram grandes passaram a aumentar. E a sétima arte soube explorar ao máximo a união das duas artes.

Um dos pioneiros a tratar desta temática no cinema foi O Circo (The Circus, 1928, EUA), comédia dirigida, produzida e roteirizada por Charles Chaplin, que ganhou um Oscar® honorário da Academia quarenta anos depois de ter feito o filme.Outras produções que merecem destaques são: O Maior Espetáculo da Terra (The Greatest Show on Earth) que Cecil B. De Mille realizou em 1952, superprodução que ganhou o Oscar® de melhor filme e roteiro, que contava a trajetória dos artistas circenses, Os Saltimbancos (Man on a Tightrope, 1953, EUA) de Elia Kazan e Trapézio (Trapeze, 1956, EUA) de Carol Reed.

Depois que Benjamim (Selton Mello) abandona o Circo Esperança para procurar um emprego na cidade, Valdemar (Paulo José) decide dispensar Lola (Giselle Mota), a cigana dançarina que cospe fogo durante as atrações do circo, ela é uma espécie de ave de mau agouro. Ela desvia o dinheiro do circo, foi a pedido dela que Benjamim decidiu comprar o ventilador, trai Valdemar com outros homens. Antes de ir embora o próprio Valdemar devolve-lhe o dinheiro que ela havia desviado, para as despesas que ela possa ter.

Há outros tipos curiosos na trama, mas que não tem o devido destaque, o diretor abre pouco espaço para que se possa conhecê-los, e é só. Como é o caso da personagem Dona Zaira (Teuda Bara), que interpreta a senhora que necessita urgente de um novo sutiã, vez ou outra seus seios pulam para fora do vestido durante as apresentações.

O curioso é que Selton Mello escreveu o personagem especialmente para Teuda, que atua como uma mãezona do circo mambembe, figura típica que lembra as mamas gordas nos filmes de Fellini, em Fellini Oito e Meio (Otto e Mezzo, 1963, ITA) e Amarcord (idem, 1973, ITA/FRA).

O filme é repleto de participações especiais (entre elas alguns Globais, talvez porque a emissora cedeu o estúdio para as filmagens), destaque para o cantor Moacyr Franco, hilário como o delegado Justo, que aceita suborno para liberar a trupe de palhaços que se metem em uma briga no bar. Moacyr Franco venceu em 2011 o prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival de Cinema de Paulínia por este personagem.

Paulo José como Puro Sangue merece uma menção honrosa por ainda ser um dos melhores atores vivos do país, que vive entre o pouco e o quase nada que o circo oferece, sem perder a graça. Diz muito, sem precisar falar nada, apenas o semblante melancólico já nos oferece uma grande atuação. Um desafio para o ator, que há mais de vinte anos sofre com o Mal de Parkinson, doença que provoca tremores e alteração do equilíbrio, que é notado discretamente durante o filme.

São participações que aparecem e somem sem sabermos muito sobre eles, ecos do Cheiro do Ralo (idem, 2007, BRA) que tem Selton Mello no elenco, em que tipos bizarros compuseram a trama. Em O Palhaço, se destaca a humorista Fabiana Karla como Tonha, paquera de Benjamim (mais uma personagem que Benjamim pede um sutiã velho emprestado, no caso teria que ser dado mesmo).

Jorge Loredo o impagável Zé Bonitinho, papel que o imortalizou na televisão, é responsável pelo sorriso amarelo que Benjamim esboça de quanto de boca, quando este lhe conta a piada mais boba do filme, pode ser considerado o homem que fez o palhaço rir.

Outra aparição curiosa foi de Luiz Alves Pereira Neto, mais conhecido como Ferrugem, ex-astro mirim do programa Gente Inocente, ele é um funcionário da prefeitura que atende Benjamim quando este vai tirar sua carteira de identidade pela primeira vez, já que o mesmo só possuía uma certidão de nascimento e nada mais que pudesse comprovar quem ele era no mundo.

Além de prestar singelas homenagens para atores da velha guarda, faz do cinema o palco para que eles que se encontravam no ostracismo possam brilhar mais vez. Cada participação é especial em si, porque o diretor as apresenta de forma peculiar. Quando o mecânico interpretado por Tonico Pereira aparece, todos se encontram em um plano de frente para o ator e todos têm a chance de mostrar o seu número, caso típico em que a plateia interage com o artista no palco.

Na cena da delegacia com Moacyr Franco acontece o mesmo, delegado na mesa, Benjamim e o restante deles sentados assistindo o show. O ângulo em que os personagens são identificados pela primeira vez é sempre o mesmo, na cena com Jorge Loredo, Benjamin se encontra do lado oposto da mesma, é um stand-up comedy às avessas.

É através desses tipos estranhos que entram e saem da vida de Benjamim, que ele encontra o fim para a crise existencial por qual passou, durante toda a trama ele persegue um ventilador, que não era necessariamente para refrescar durante os dias de calor, mas o que ele realmente buscava e que estava ali o tempo todo: que é viver, viver, e viver para o circo.

Quem foi assistir O Palhaço pensando em se tratar de uma comédia, deu sim belas gargalhadas com os números circenses, aos que queriam um drama, também se emocionaram, para quem é cinéfilo e apaixonado pela sétima arte, teve o gostinho de apreciar um pouco do razoável cinema brasileiro, que se destacou nas salas do país em meio às produções mainstream costumeiras.

Entre uma alegria e outra, o filme mistura o tom burlesco com a religiosidade, todos do circo são devotos de São Filomeno, protetor dos palhaços, músicos e comediantes. Os sonhos se mesclam com a vida sofrida vivida por quem é da família circense, a cada parada que o Circo Esperança faz nas pequenas cidades do interior de Minas Gerais, se descobre um pouco do perfil psicológico de cada personagem, têm os que pintam o cabelo de louro para parecer estrangeiro, mas o que eles queriam mesmo era levantar a moral do circo que andava em baixa.

A cultura popular salta aos olhos, quando o caminhão que traz a trupe desfila pelas ruas e a criançada sai correndo atrás, como se a melhor coisa de suas vidas estivesse passando por ali naquele momento. Não tem como negar que o filme foi tratado por Selton Mello de forma idílica, com roupagem felliniana pulsando a todo o momento.

Mesmo tendo o sucesso de crítica e público, não foi o suficiente para que o filme entrasse na corrida do Oscar® de 2013 de melhor filme estrangeiro, O Palhaço disputou a vaga com Amor (Amour, 2012, FRA) de Michael Haneke, Os Intocáveis (Intouchables, 2011, FRA) de Olivier Nakache e Eric Toledano, No (idem, 2012, CHI) de Pablo Larraín.

No total foram 71 filmes inscritos para a disputa de apenas cinco vagas, outros títulos importantes que ficaram de fora foi o italiano Cesare deve Morire (idem, 2012, ITA), dos talentosos irmãos Taviani, que ganhou o Urso de Ouro 62º Festival em Berlim e o cruel Pietá (idem, 2012, COR) da Coréia do Sul dirigido por Kim Ki-duk. Confira abaixo a lista completa com os concorrentes e os seus respectivos países de origem:

Áustria: Amour, de Michael Haneke.

Canadá: War witch, de Kim Nguyen.

Chile: No, de Pablo Larraín.

Dinamarca: O amante da rainha, de Nikolaj Arcel.

França: Os intocáveis, de Olivier Nakache e Eric Toledano.

Islândia: The Deep, de Baltasar Kormákur.

Noruega: Kon-Tiki, de Joachim Rønning e Espen Sandberg.

Romênia: Beyond the hills, de Cristian Mungiu.

Suíça: Sister, de Ursula Meier.

NA TRILHA DO PROFETA

Composta por vários clássicos do brega nacional, a trilha sonora do filme O Palhaço ficou por conta do badalado músico e produtor Plínio Profeta, que já trabalhou com Selton Mello no Feliz Natal e atualmente no seriado Sessão de Terapia pelo canal à cabo GNT, também em parceria com Selton.

Profeta é referência quando o assunto é trilha sonora de filmes de comédia, gênero que se multiplica a cada ano no Brasil, tendo participado das produções de conteúdo duvidoso como E aí Comeu, Minha Mãe é uma Peça e Cilada.com. Neste filme em especial, ele incluiu violões, teclados, acordeão, banjo, violino e trombone para a faixa que traz o mesmo título do filme.

O acordeão é o instrumento que mais se destacou na trilha instrumental do filme, ele está presente em quase todas as músicas de autoria de Plínio Profeta. De origem alemã, também conhecida como sanfona, apresenta em tom melancólico durante as músicas tocadas no filme, como se fosse um lamento, por vezes de maneira mais aguda, nas cenas alegres.

O instrumento também é tocado pela dupla de irmãos Lorota, músicos do circo e por Valdemar. A faixa Tudo Passará, composta pelo cantor e intérprete Nelson Ned e Eu Amo a sua Mãe, são verdadeiras pérolas do samba-canção brasileiro. No total o filme conta com quinze faixas e com mais sete músicas tocadas no picadeiro.

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O QUE É A PALHAÇARIA?

No dia 10 de dezembro se comemora o dia do palhaço no Brasil, a palavra de origem italiana, que significa palha, teve o nome relacionado à figura cômica porque sua roupa era feita com o mesmo pano que revestia os colchões e as partes vazias da parte de dentro da roupa era completada com palha.

Porém o circo como conhecemos hoje teve inicio com o inglês Philip Astley, foi ele que inventou o circo como forma de entretenimento, transformando em um show, com palhaços, acrobatas, animais e público pagante. Mas nem sempre foi assim, na idade média, quando o Teatro teve problemas com a igreja católica, muitos artistas buscaram a rua como palco, com o passar do tempo foram se tornando cada vez mais conhecidos. Nas peças teatrais com temas religiosos, os palhaços sempre faziam o papel do diabo ou do narrador.

Atualmente o movimento da palhaçaria no Brasil se tornou oficio, com escolas por todo país que ministram aulas especificas para quem quiser aprender a arte de fazer rir, que vai além de se pintar de palhaço, inclui também a manipulação de bonecos, aulas de canto, violão, ações codificadas, aulas de tombos e outras gags.

O que se entende por trás dessas oficinas não é só aprender fazer rir, mas aproximar os interessados na arte da palhaçaria em desvendar o palhaço como ser humano, através da máscara do personagem por meio de brincadeiras, jogos e atuação cênica.

No Brasil desde 1991 a ONG Doutores da Alegria que foi criada para atuar junto às crianças hospitalizadas com câncer, a brincadeira se dar com a figura do palhaço se fazendo passar por doutor, tudo feito com muito bom humor. Ficaram conhecidos depois que o filme Patch Adams_O Amor é Contagioso (Patch Adams, 1998, EUA), que contava a trajetória verídica do médico americano Patch Adams e sua técnicas nada ortodoxas no tratamento de seus pacientes, que incluíam muito humor e altas doses de amor.

Outra figura que se tornou conhecida no cinema, sem a graça e alegria do Dr.Adams, foi o palhaço assustador criado pelo escritor norte-americano Stephen King, baseado no livro A Coisa, com o título de It_Uma Obra Prima do Medo (It,1990, EUA), em que uma pequena cidade é assombrada por uma criatura sobrenatural, que aparece na forma de um palhaço conhecido como Pennywise, podendo se transformar em qualquer coisa. O filme foi inspirado em um caso famoso de um palhaço assassino (literalmente), John Wayne Gacy, que morreu de injeção letal em 1994, acusado da morte de vinte e nove garotos.

PALHAÇADA CEARENSE

No último mês de março, a cidade de Fortaleza recebeu o primeiro Festival de Circo do Ceará, durante os seis dias a programação contou a participação de artistas circenses brasileiros e estrangeiros. Com o intuito de homenagear a oralidade, a irreverência e o improviso no tema “Palhaçada Cearense”, teve cerca de 80% de artistas locais participando do evento, que contou com oficinas, minicursos, treinamentos e palestras.

FICHA TÉCNICA

Gênero: Comédia

Direção: Selton Mello

Roteiro: Marcelo Vindicatto e Selton Mello

Elenco: Álamo Facó, Bruna Chiaradia, Cadu Fávero, Erom Cordeiro, Fabiana Karla, Giselle Indrid, Giselle Motta, Hossen Minussi, Jackson Antunes, Jorge Loredo, Larissa Manoela, Maíra Chasseraux, Moacyr Franco, Paulo José, Renato Macedo, Selton Mello, Teuda Bara, Thogun, Tonico Pereira, Tony Tonelada.

Produção: Vania Catani

Fotografia: Adrian Teijido

Trilha Sonora: Plínio Profeta