A FAVORITA E O ABUSO DA LENTE GRANDE ANGULAR

A Favorita e um estilo de fotografia ousada.

“Hoje em dia você pode simplesmente pegar uma DSLR ou até mesmo o seu iPhone e fazer imagens. É uma questão de colocar seus olhos em uma câmera. É aí que você aprende sobre composição, fotografando o mundo ao seu redor. Não precisa ter aceso de maneira especial; há sempre luz natural. Se você puder criar um interesse no mundo cotidiano ao seu redor, provavelmente estará indo na direção certa.” Robbie Ryan.

 

Com 10 indicações ao Oscar 2019 o filme do grego Yorgos Lanthimos (O Lagosta), A Favorita (Favourite, The, UK, EUA, 2018), chama atenção pelo requinte da direção de arte e pelo trabalho ousado do diretor de fotografia, Robbie Ryan, habitual colaborador dos filmes do diretor Ken Loach.

Junto com o diretor, a direção de arte assinada por Caroline Barclay, e a fotografia com luz natural, criaram uma atmosfera barroca ao filme. O barroco na cinematografia é muito utilizado para designar uma arte extremamente ornamentada, extravagante, cheia de preciosidades. O trabalho com a lente grande angular e o efeito de olho de peixe, que dá um aspecto de distorção, além de ser muito utilizada em paisagens, aqui é a combinação perfeita com o estilo suntuoso da arquitetura que o filme propõem. Percebe-se que as imagens das cenas internas trançam linhas convergentes, é o que a grande angular faz, principalmente quando você quer captar o que está na sua frente.  

Robbie Ryan combina a distorção das imagens com giros de câmera em 180° graus, de Lanthimos, para mostrar todos os espaços internos do filme ao máximo. A intenção era criar movimentos de câmera e os mais variados ângulos. É a primeira vez que Yorgos e Ryan trabalham juntos, Lanthimos é considerado muito criativo e excêntrico, ele exigiu que não fosse utilizada nenhum tipo de luz artificial. O que não foi muito complicado para o diretor de fotografia, já que na época das filmagens era primavera e a luz do sol colaborou em Hatfield House, Hatfield e Hertfordshire, na Inglaterra, local onde o filme foi realizado.

Todo o palácio Hatfield House foi iluminado com luz natural, mas Ryan mantinha o equipamento de luz extra, dentro do set, e segundo ele foi utilizado pouquíssimas vezes. Mesmo transbordando criatividade no set, o que poderia atrapalhar, pelo contrário, os dois trabalharam em sintonia. Na cena dos patos, Ryan já tinha imaginado que ela poderia ser feita em câmera lenta, e estava apenas esperando quando que o diretor usaria, não demorou muito e Lanthimos decidiu que ela deveria ser filmada daquele jeito, como Ryan tinha pensado.

Ryan é fã do trabalho do diretor John Cassavetes, que para ele trabalhou muito bem com a luz natural, mesmo que digam que usar a filmagem digital capta melhor a luz, Robbie Ryan ainda prefere a película em 35mm. Os filmes A parte dos Anjos, Jimmy’s Hall e Eu, Daniel Blake, todos de sua parceira com Loach, foram rodados em 35mm. Com Yorgos ele declarou que ficou um pouco desconfortável em não ficar com a câmera na mão e o uso travelling. Em outros trabalhos de Ryan, pode-se verificar que ele é do tipo que gosta que a câmera acompanhe o ator, traçando movimentos, como se fosse  um personagem. A Favorita pode lhe render seu primeiro Oscar da Academia, seu trabalho pode ser comparado ao de John Alcott em Barry Lyndon (1975).

SINOPSE

A trama se desenvolve no século XVIII, quando a Inglaterra estava em guerra com os franceses e uma Rainha moribunda é disputada por duas serviçais. A Rainha Anne é interpretada pela atriz britânica Olivia Colman, indicada ao Oscar de melhor atriz. Lady Sarah Churchill,  (Rachel Weisz), Duquesa de Marlboroughe, era quem comandava o reino e cuidava da saúde da Rainha, suprindo tudo que ela precisava, incluindo a ausência do Rei Jorge da Dinamarca, que não é citado no longa. Era uma amizade que ia além de meros cuidados, Lady Sarah dividia a cama com a Rainha Anne, mas a “amizade” fica abalada com a chegada de uma prima distante de Lady Sarah.

Abigail (Emma Stone), logo passa a trabalhar na corte, despertando o interesse da Rainha e o ciúme em Lady Sarah. Com roteiro original de Deborah Davis e Tony McNamara, ele não é historicamente fiel ao fatos, já que trata de personagens que existiram, há muita licença poética aqui. O filme lembra um pouco A Malvada (All About Eve, EUA, 1950), que tratava de uma alpinista social que não media esforços para alcançar seus objetivos, só que diferente do filme de Joseph L. Mankiewicz, este é carregado de muita maldade e sexo.

INDICAÇÕES AO OSCAR 2019

Melhor Filme: A Favorita   

Melhor Diretor: Yorgos Lanthimos   

Melhor Atriz: Olivia Colman   

Melhor Atriz Coadjuvante: Emma Stone    e Rachel Weisz

Melhor Roteiro Original: Deborah Davis e Tony McNamara   

Melhor Direção de Arte: Fiona Crombie e Alice Felton   

Melhor Figurino: Sandy Powell   

Melhor Fotografia: Robbie Ryan   

Melhor Montagem: Yorgos Mavropsaridis

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