OS MÚSCULOS DE VICTOR MATURE EM SANSÃO E DALILA

Hedy Lamarr como a maliciosa Dalila e Victor Mature e o seu corte de cabelo mais caro do cinema.

A história de Sansão e Dalila foi extraída do Velho Testamento (Livro dos Juízes, versículos 13 e 16), filmada de maneira grandiloquente por Cecil B. DeMille, em 1949. O diretor ficou famoso pelas adaptações bíblicas para o cinema, sempre carregadas com altas doses de erotismo. Com esse filme não foi diferente, a sex symbol Hedy Lamarr (que arrancava suspiros de homens e mulheres), era a Dalila e Victor Mature Sansão, que se deixou levar pelos encantos de uma mulher, pobre homem, mal sabia ele, que ali era o seu fim.

O nome de Lamarr em qualquer fita naquela altura era significava “sensualidade”, não tinha homem que escapasse, Louis B. Mayer a chamava de “a garota mais bonita do século”. Dez anos de carreira em Hollywood e dezoito filmes realizados, este era o primeiro em cores protagonizado por ela. Tanto que o diretor colocou o seu nome em primeiro lugar nos créditos de abertura.

Sansão era casado com a irmã de Dalila, Semadar (Angela Lansbury). Depois da morte da esposa, a cunhada aproxima-se para descobrir de onde vem à força descomunal do cunhado. Em troca de alguns objetos de pratas, ela descobre que a força está no cabelo. Corta as madeixas de Sansão e o entrega para os filisteus. O filme ficou conhecido como o corte de cabelo mais caro do cinema, a produção foi de três milhões de dólares. Tendo em vista que os filmes de DeMille já tinham custado mais que isso, era até modesto esse valor, mas uma fortuna para a época.

Em pouco mais de duas horas de projeção Hedy Lamarr apenas escorrega entre almofadas de cetim, profanado heresias no ouvido de Mature. Ele poderia ter a fé que fosse, que era impossível resistir a tentação da carne. Nosso herói não era de ferro, e o espectador torcia para que ele caísse nos braços da maliciosa filistéia. Mais parecia um ensaio para alguma revista sobre os modos como os filisteus se comportavam, do que ser fiel ao texto bíblico. Antigamente mostrar a coxa, vista por uma fenda entre véus dava o que falar e as atrizes ficavam marcadas, hoje, o nu frontal é quase banal. O mundo não se escandaliza mais com o cinema.

Mesmo os gigantescos cenários e os milhares de figurantes de Sansão e Dalila era de longe um épico pomposo, tratava de um romance entre a submissão e o poder feminino. Uma das sequências mais famosas é a sedução de Dalila na tenda árabe, roupas provocantes sempre funcionam quando se quer seduzir, toda mulher sabe disso, um decote mais profundo, uma saia mais curta, são truques infalíveis na arte da sedução, Dalila deixou um legado.

“Não assisto a filmes em que o busto do ator é maior que o da atriz”, bradou Groucho Max depois de ver o filme de DeMille. Lamarr tinha o corpo magro, esguia e nada de seios, com o perdão da palavra era uma despeitada. Mature era um homem forte, alto, mas era meio gordo, o que ocasionou uma leve protuberância no peitoral do ator. Nada que alguns meses de malhação não resolvessem.

DeMille tinha visto duas fitas em que Victor Mature aparecia, Paixão dos Fortes (My Darling Clementine), de John Ford e Beijo da Morte (Kiss of Death), de Henry Hathaway. Gostou do porte físico do ator, seria o Sansão perfeito, não fosse por algo, que o diretor não tinha percebido, em ambos os filmes, Mature passava o filme inteiro vestido com jaquetões e sobretudos. Impossível perceber músculos ou a falta deles com tanta roupa por cima.

Então veio a decepção, que naquele momento era irreversível, Cecil DeMille pediu para que Victor Mature ficasse de cuecas, revelou-se um ator flácido e fora de forma. DeMille, possesso e excêntrico que era, deve ter, como a gente fala aqui no Brasil, rodado a baiana. Mature já contratado do estúdio e faltando poucos dias para o início das filmagens, despedir o ator não era a solução, nem começar um treino pesado, também não adiantaria. Se o diretor vivesse na nossa época, nada do que alguns Vin Disel, The Rock e Arnold Schwarzenegger, para resolver o seu problema.

Sem músculos, o jeito foi transformar aquele homem farto de banha, em um herói na grande tela do cinema, capaz de destruir um exército de mil filisteus de uma vez. A cena mais conhecida do filme é quando Sansão destrói o templo dos filisteus, empurrando com as mãos duas colunas de mármore. Talvez ele tenha conseguido tal façanha no Livro dos Juízes, pois no filme de DeMille só por milagre Victor Mature conseguiria socar mais de um homem. Imagine mil deles. Ficou a cargo do espectador depositar fé na força do Sansão de Mature. Por ser um fato bíblico, entende-se que tal proeza vinha de uma força que não era humana.

Outra curiosidade é o tamanho do rabo-de-cavalo de Mature, bem menor do que é visto hoje em dia, nos anos noventa o estilo grunge desfilava com madeixas bem maiores. Naquele tempo os atores estavam sempre com o cabelo liso, corte impecável e muita gomalina, ninguém queria aparecer despenteado.

Apesar da descrença na força sobre-humana de Mature, Lamarr enchia a tela com erotismo e cinismo, mesmo não tendo variadas expressões faciais, nem tanta dramaticidade, quem precisa de grandes atuações quando se têm Hedy Lamarr no elenco. Cecil B. DeMille sabia disso, e é nisso que o filme é apoiado, os diálogos em nada tem haver com o Velho Testamento.

Sansão e Dalila foi um sucesso de bilheteria, levou dois Oscars da academia (1950), de direção de arte e figurino. A trilha sonora assinada por Victor Young ficou conhecida pela música Canção de Dalila.

FICHA TÉCNICA

Sansão e Dalila (Samson and Delilah, 1950, EUA)

Direção: Cecil B. DeMille.

Elenco: Hedy Lamarr, Victor Mature, George Sanders, Angela Lansbury, Henry Wilcoxon e Russ Tamblyn.

Duração: 128 minutos.

Gênero: Drama.

 

 

 

 

 

 

 

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