O DORMINHOCO

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Luna Schlosser: “Você não faz sexo há 200 anos?”

Miles Monroe: “204, se contar o meu casamento”. O dorminhoco (Sleeper, 1973, EUA).

 

Uma das comédias divertidas do peculiar Woody Allen, já conhecido do público por Bananas (1971) e aquela ponta surpresa em Cassino Royale (1967). Com uma filmografia relativamente extensa, mas com um público seleto e fiel, ele transformou a sátira ficção O dorminhoco (1973) em um apanhado de gags às avessas ao modo de vida politicamento correto, em especial ao excesso de preocupação em comer alimentos saudáveis.

Depois de passar por uma cirurgia na úlcera, no ano de 1973, que foi mal sucedida, o jazzista judeu Miles Monroe é submetido a criogenia, acordando 200 anos no futuro, em uma sociedade chamada de Federação. Não existem mais cidades, ruas, tudo agora é Distrito, até mesmo a existência de Richard Nixon é colocada em dúvida (como se no futuro fatos históricos fossem apagados, não se necessita de memória, quem precisa de raiz é árvore). É divertido ter que explicar quem eram todas aquelas autoridades, para quê servia a revista Playboy ou como o ego do escritor Norman Mailer (1923-2007) foi doado para um centro universitário.

Miles é levado para a casa dos médicos que o ajudaram a “descongelá-lo” (mas mantiveram seus óculos congelando junto, seria terrível um míope acordar no futuro hostil sem óculos). Incumbido da missão de espionar o projeto Aires, que ele não sabe do que se trata, já que era apenas um modesto proprietário de uma loja de comida saudável em Greenwich Village, a coisa mais excitante que acontecia era quando um cliente pegava botulismo. No meio do caminho conhece a bela, mas avoada Luna, aspirante a poetiza e sexualmente liberal, que o entrega para a polícia. Depois de escapar e convencer Luna a se juntar aos “revolucionários”, Miles vai parar em um centro do governo e acaba servindo de cobaia para uma lavagem cerebral.

Sem lembrar quem era Luna ou qual o propósito do projeto Aires, ele é sequestrado por ela e numa espécie de “regressão surrealista pirada”, Allen invoca o espírito de Blanche DuBois, personagem da peça Um bonde chamado Desejo, que virou filme com Marlon Brando e Vivian Leigh, aqui em papéis trocados, é uma das melhores gags, de alto valor intelectual.

Outro destaque fica por conta da piada com a banana e casca gigante, numa fazenda que planta morangos e tomates juntos!, todos os alimentos são enormes. Faz sentido e se contrapõe com o atual filme do diretor Alexander Payne, em Pequena grande Vida (2017), é o oposto, para resolver o problema do meio ambiente, consequentemente a fome mundial, são os seres humanos que são encolhidos.

É um filme de ficção científica notável, e filosófico, mesmo que a música tema atrapalhe em algumas sequências, o que predomina é o humor cortante do diretor, quando revela que relacionamentos entre homens e mulheres são fadados ao fracasso, em um mundo cheio de homens impotentes e mulheres frígidas. Brinca com a tirania, joga com o marxismo, depois que o Líder sofreu um atentado com uma bomba, seus seguidores pretendem clonar o que sobrou dele: o nariz, querem substituir uma Ditadura por outra, em que um nariz é o protagonista, não importa se é um nariz ou qualquer outra parte do corpo, regimes totalitários foram feitos para cair.

Há ainda referência ao filme 2001- Uma odisseia no espaço (1968), de Stanley Kubrick, quando o computador na sala de clonagem passa a discutir com Miles sobre o procedimento médico. Ele não bebeu só uma vez na fonte kubrickiana, no começo na casa dos médicos, quando oferecem comida e bebida, lembra Laranja Mecânica (1971). Ele passeia por outros títulos como THX (1971) e Z.P.G. (1972). Um quadro do pintor charlatão Walter Keane é motivo de adoração por Luna, bem antes da história ser levada para o cinema pelo diretor Tim Burton, em Grandes Olhos (2014).

É encontrado todos os elementos que tornaram Woody Allen famoso: o judeu resmungão, sua obsessiva e confusa relação com as mulheres. O personagem de Allen assim como em Bananas é um tipo atrapalhado, inclusive ele repete o mesmo tema musical utilizado  em Bananas. Miles é arremessado em várias situações embaraçosas, numa tentativa de revitalizar as comédias-pastelão do cinema mudo, com um tom de Bob Hope.

Mas suas alfinetas são o ponto alto (que não envelheceram, diferente de outras esquetes, sim, em determinados momentos lembra esquetes), quando sugere que alimentos gordurosos e cigarros fazem muito bem para a saúde, no futuro todos vamos poder nos esbaldar em pedaços generosos de banha e fumo. Tira sarro até da clonagem, tema pouco explorado na época.

FICHA TÉCNICA

O DORMINHOCO (Sleeper, 1973, EUA)

Direção: Woody Allen.

Com: Woody Allen, Diane Keaton, John Beck, Mary Gregory, Don Keefer, John McLiam, Bartlett Robinson, Chris Forbes, Mews Small, Peter Hobbs, Susan Miller, Lou Picetti, Jessica Rains, Brian Avery e Spencer Milligan.

Roteiro: Woody Allen e Marshall Brickman.

Fotografia: David M. Walsh.

Música: Woody Allen.

Produção: Jack Grossberg.

Cor.

Duração: 89 minutos.

Idioma: Inglês.