OS MORTOS NÃO MORREM

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Eu tenho uma afinidade com os mexicanos. Eles são como meu povo favorito. Eu amo o México. Eu já estive lá duas vezes.” Os Mortos Não Morrem, 2019.

Anunciado com grande expectativa como o filme que abriria o Festival de Cinema de Cannes este ano, Os Mortos Não Morrem (The Dead Don´t Die) do diretor Jim Jarmusch, parece ter deixado o “glamour apenas no tapete vermelho da Riviera francesa.

Com um elenco considerado dos sonhos, nomes como Selena Gomez, Adam Driver, o ator habitual nos filmes Jarmuschianos, Bill Murray, RZA, Tom Waits e Iggy Pop. O trailer tinha a intenção, e eu acho que cumpriu, de mostrar um filme de zumbis para uma plateia inteligente e sofisticada, com quase zero sanguinolência.

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“Isso definitivamente vai acabar mal”.

Mas afinal de contas, qual o motivo de tantos comentários negativos em sites de avaliação de filmes sobre Os Mortos Não Morrem? Existe uma variação tão grande de público que frequenta os cinemas, e os fãs de Jim Jarmusch e os de filmes de zumbis. E às vezes as pessoas esquecem que certos diretores naquele momento não estão comprometidos nem em entreter, nem em ser complexo.

Desde sua estreia com Estranhos no Paraíso (Strangers Than Paradise, 1984) Jarmusch ficou conhecido por realizar filmes independentes ou que tinham características para rodarem em festivais de cinemas independentes. Aos poucos ele foi conquistando um grupo seleto de admiradores. Que provavelmente não foram esses que avaliaram seu último filme.

Você vai encontrar todos os elementos clássicos dos filmes de zumbis antigos. Tudo se desenvolve na discreta cidade de Centerville, o nome é comum, pois em Ohio, Texas, Pensilvânia e Utah também têm cidades com esse mesmo nome. Sem contar que faz uma homenagem para o saudoso Frank Zappa em 200 Motels (1971). Depois que a Terra sofre um colapso, ficando fora do seu eixo normal, coisas estranhas começam acontecer em todo o país. Os dias ficam mais longos, os relógios param de funcionar, animais domésticos somem e, por fim, o pior de todos, os celulares das pessoas também entram em pane.

Todo mundo ali parece não sair do controle em nenhum momento, mesmo depois da confirmação de uma invasão de mortos-vivos. É aí que o ritmo do filme fica tão lento quanto o caminhar dos zumbis. O diretor parece fazer isso de propósito, por quanto tempo você ficaria sentando assistindo a um filme que não avança? Muitas das reclamações foram essas, a lentidão e a repetição dos diálogos, “Tudo isso vai acabar mal”, é dito pelo personagem do Adam Driver o filme inteiro, e por vezes, dentro do mesmo diálogo. Era uma referência ao filme Star Wars. Driver participou em 2015 e 2017 como o vilão Kylo Ren, até o chaveiro dele é de Star Wars, talvez, só com o chaveiro os fãs já entenderiam a ligação. Só que o diretor insiste na repetição das mesmas falas, o que levanta a suspeita de que os personagens são burros, ou que a plateia não estaria prestando muita atenção. É nesse ponto onde mora o perigo, questionar a inteligência do público, se você não entendeu a piada que é o filme, vai se sentir magoado, e muito.

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Ele não fez um filme de zumbi reflexivo, como as histórias em The Walking Dead (2010 – presente) sobre como sobreviver em um apocalipse zumbi, e nem é moderninho como Extermínio (2002) e Guerra Mundial Z (2013). Pelo menos aqui os zumbis não correm. Mas eles têm uma nova característica, os mortos quando se levantam do túmulo, procuram fazer as mesmas coisas que faziam quando estavam vivos. É nessa parte que o diretor insere uma crítica, ainda que superficial, sobre a obsessão do uso de aparelhos celulares. Em uma sequência uma horda de zumbis vaga pelas ruas, e visualizamos as luzes da tela dos aparelhos nas mãos dos mortos-vivos. Nem depois de mortos deixamos de postar. Ele só não explicou, na verdade é um furo no roteiro, como que os celulares estavam funcionando, se eles tinham deixado de funcionar no começo do filme?!

As pessoas que assistiram ao filme acharam irritante o fato dele demorar trinta minutos para mostrar um zumbi, não era um zumbi qualquer, era o Iggy Pop. Apesar de não conhecermos a história por trás do personagem dele, aliás, ele faz isso com o personagem da Selena Gomez também, não sabemos quem são, de onde vieram e nem para onde vão. No caso do Iggy, ele e a namorada teriam morrido em um acidente de moto nos anos setenta, depois de assistir a um show do Blue Öyster Cult, o negócio é que o Iggy se apresentou com o Blue Öyster Cult e o Kiss em 1973.

Ele tenta alçar um voo sobre a situação do meio ambiente, mas, ao mesmo tempo, parece não querer se comprometer com a ideia. Pouco mais de 1 hora e meia para tratar do assunto, se não é foco passa por cima. Mas a indireta para o Presidente Donald Trump com o boné escrito FAZENDO A AMÉRICA BRANCA NOVAMENTE, sendo que o personagem de Steve Buscemi em uma conversa constrangedora com Danny Glover, sobre não gostar de café muito preto, já deixa claro que ele é uma pessoa preconceituosa. Quando os zumbis invadem a fazendo dele, e ele resolve partir para cima das criaturas, ele solta um “seus malditos refugiados”. Os dois policiais Murray e Driver lembram que não avisaram para ele sobre o perigo que eles estão passando, Driver pergunta se não é melhor avisar o fazendeiro do risco, ele responde com “foda-se”. Ele é um grande filho da puta que não merce viver, sacamos.

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Se você é fã do clássico A noite dos mortos-vivos (1968) vai gostar das referências, o carro utilizado pelo personagem da Selena Gomez é um Pontiac LeMans, mesma marca e modelo do filme de George A. Romero no prólogo original. Aquela zumbi que aparece pelada no meio do filme, é uma atriz que participou do filme de Romero. E os adolescentes forasteiros que param em Centerville teriam vindo da mesma cidade que George teria estudado.

Até achei que o filme fosse mais longo, mas pela ideia que ele vende, é um tempo razoável, nem todo mundo aguentaria o Bill Murray sendo quase monossilábico. Mesmo que é sempre bem-vindo quando ele faz uma comédia tida como “cabeça”. Alguns personagens mereciam mais tempo em tela, como o RZA, fiquei esperando um encontro nostálgico entre ele e o Bill Murray, ambos trabalharam juntos em Café e Cigarros (2003), do mesmo diretor.

A trupe de jovens liderada pela Selena Gomez, não tem relevância nenhuma, a não ser pelo carro usado pela personagem e pela frase do personagem do Adam Driver sobre os mexicanos. A cantora nasceu no estado do Texas, mas tem ascendência mexicana. A Carol Kane, que veio substituir o Bruce Campbell, ela tem duas falas durante o filme e a sua participação é pífia, ela fala “Chardonnay” duas vezes. Entendam como uma publicidade, não sei se foi gratuita ou não sobre o vinho, mas ela fez Os fantasmas contra-atacam (1988), onde era um dos fantasmas que visitava o personagem do Bill Murray, neste ela também é meio que um fantasma-zumbi, se é que isso é possível.

A ÚNICA MANEIRA DE MATAR OS MORTOS É MATAR A CABEÇA

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Ainda há uma brincadeira com o nome dos personagens, Adam Driver é Ronald Peterson, que fez Paterson (2016), o nome do personagem é o mesmo nome do título do filme dirigido por Jim Jarmusch. Tilda Swinton é a escocesa, com cara de elfo, chamada de Zelda Winston.

O ator Larry Fessenden ficou muito parecido com o Jack Nicholson, em O Iluminado (1980), tirando o bigode, ele se chama Danny Perkins. Danny era o nome do filho do personagem de Nicholson, que, assim como Jack Torrance, ambos cuidam de um hotel, e Perkins é o mesmo sobrenome de Anthony Perkins, que protagonizou Psicose (1960), que também é citado no filme. Por um momento você fica esperando ele bater na porta do quarto dos adolescentes e gritar “O Johnny está aqui”.

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Zumbi vestido com as mesma roupas de Bill Murray em Zumbilândia

O eremita interpretado pelo cantor/ator Tom Waits tem o nome de Hermit Bob, Hermit de eremita, já que ele vive na floresta como um. A repórter do canal de notícias é a atriz Rosie Perez, que no filme ficou como Posie Juarez. Já a piada com o casal de hippies feita pelo Iggy Pop e pela Sara Driver, é que quando eles voltam à vida eles preferem ficar “ligadões” em café.

Acredito que nenhum diretor faça um filme para ser esquecido, mas é muito perigoso quando se tenta insultar a inteligência da plateia, principalmente quando esta está acima da média. É muito bom quando se é um diretor independente com uma lista de amigos dispostos a fazer um pequeno cult, mesmo que tão suave quanto uma taça de Chardonnay.

FICHA TÉCNICA

Os Mortos não Morrem (Dead Don’t Die, The, 2019, EUA, SWE) 

Direção: Jim Jarmuschi

Elenco: Bill Murray, Tilda Swinton, Adam Driver, Chloe Sevigny, Selena Gomes, Steve Buscemi, Caleb Landry Jones, Rosie Perez, Carol Kane, Danny Glover, Tom Waits, RZA, Iggy Pop, Sara Driver.

Produção: Carter Logan e Joshua Astrachan.

Roteiro: Jim Jarmuschi.

Diretor de fotografia: Frederich Elmes.

Gênero: Comédia de terror.

Distribuição: Focus Features.

Duração: 1h44 minutos.

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Previsão de estreia no Brasil: 28 de novembro de 2019.