PIQUENIQUE NA MONTANHA MISTERIOSA: SOBRENATURAL AUSTRALIANO SEM EXPLICAÇÃO

“Tudo o que vemos ou que nos parece ver/ Nada mais é do que um sonho dentro de um sonho.” Edgar Allan Poe.

O quadro O nascimento de Vênus (1485) do artista florentino Sandro Botticelli (1445-1510) foi uma encomenda do rico mercador Lorenzo di Pierfrancesco de Medici, para decorar sua casa, na Toscana. Trata da Vênus, já mulher, emergindo do mar em uma concha amparada por deuses eólicos (Zéfiro, Deus do vento do Oeste) em meio a uma chuva de rosas. Antes de pisar na terra ela é recebida por Horas/Ninfas com um manto púrpura todo desenhado de flores.

Por pouco a obra não foi jogada na fogueira, já que naquele período apenas as consideradas com temas católicos ou sacras escapavam, a Vênus de Botticelli celebra o paganismo. Ela representaria o amor espiritual, a beleza, uma dádiva do céu. E é essa a descoberta que a Srta.Poitiers descobre quando dá o último adeus para Miranda antes dela sumir em Hanging Rock, ela seria a própria Vênus.

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Miranda, o “Anjo de Botticelli”

Vendido como um filme inspirado em fatos reais, Piquenique na montanha misteriosa (Picnic at Hanging Rock, 1975), do australiano Peter Weir (Gallipoli), começa com a narração que um grupo de moças e a sua professora, que teriam desaparecido depois de um passeio na floresta, perto monte Macedon (localizado no estado de Victoria). No dia 14 de fevereiro de 1900, em que se celebrava o dia de São Valentim, conhecido como o padroeiro do amor, do casamento, do namoro, por causa dele em muitos países é comemorado o dia dos namorados. Foi durante o Império Romano no século III, que o bispo Valentim desacatou a ordem do Imperador Claudio II, que proibia a realização de casamentos, pois muitos soldados não estavam se alistando para combater na guerra, eles não queria abandonar suas esposas. Então contrariando o Imperador, o bispo Valentim continuou realizando os casamentos, para mais tarde ser condenado à morte. Hoje, em homenagem ao santo, o amor é celebrado.

A narração se encerra dizendo: “Durante a tarde, várias delas desapareceram sem deixar rastros”. 24 anos antes do filme A bruxa de Blair (1999) que foi lançado com a premissa de que os eventos ocorridos tinham sido verdadeiros. Coisa que não passou de puro marketing, assustou milhares de fãs e faturou quase US$ 250 milhões de dólares. Mas Weir não recorre aos sustos fáceis, nem a publicidade. Ele adaptou o livro da escritora Joan Lindsay, que havia publicado o romance em 1967. Assim como o livro, o filme também não esclarece e nem é essa a intenção, de desvendar o que realmente aconteceu com as três garotas e a professora.

Quando Lindsay foi até o seu editor para publicar o romance, ele insistiu que o livro fosse lançado como sendo uma história que ocorreu no início do século XX, na Austrália. Fingindo ser uma reportagem, para despistar que a história não teria solução. Terra povoada por forasteiros ingleses, fazendo com que os australianos se adaptassem ao modo de vestir deles, num calor infernal, como se comportar e viver, tudo sob a falsa sensação de europeização.

Lindsay enquanto era viva nunca desmentiu se a história era verdadeira ou não, ela sempre preferiu que os leitores julgassem como sendo real ou não. Contudo, a data em que as meninas teriam desaparecido seria 14/02/1900, num sábado, impossível, pois o dia correto seria uma quarta-feira, indicando que a história seria fictícia mesmo.

Durante uma tarde escaldante e empoeirada com a permissão da Sra.Appleyard (Rachel Roberts), diretora do internato para moças (Weir voltou ao tema em Sociedade dos Poetas mortos, só que lá era uma escola para garotos) um grupo de garotas, a professora McCraw, a mademoiselle Poitiers e o condutor da charrete partem rumo ao piquenique e de brinde as meninas conheceriam a lendária rocha vulcânica Hanging Rock.

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Hanging Rock e as meninas

Depois de advertir as meninas para terem cuidado quando chegarem na rocha, McCraw fala que elas podem encontrar serpentes por lá. O filme todo é uma ode sobre a repressão sexual feminina, foi uma serpente que ajudou a expulsar Adão e Eva do paraíso. O formato biomórfico das rochas, algumas de aspectos fálicos incluindo a banana que a professora come no piquenique. As rochas sempre filmadas em contra-plongée, como se a qualquer momento fossem ganhar vida. Um vulcão adormecido, para Freud, uma metáfora para o sexo, a libido representada pelas garotas, mas reprimidas pelas professoras. Quando uma delas é encontrada por um morador local e levada para casa dele, depois de examinada por um médico, que conclui que ela não foi violentada, um fato não é revelado, o corpete dela havia sumido.

Lindos anjos angelicais, vestidas de branco, uma pureza etérea, que vai sublimando ao passo que vão adentrando na caverna. Seguindo o “Anjo de Botticelli”, Miranda (Anne Lambert), três das quatro meninas somem depois de entrar em uma passagem de pedras. Edith (Christine Schuler), a mais medrosa, é quem desce em êxtase, alarmando que as outras haviam sumido. Inicia-se uma busca pelas rochas, sem sucesso. Quando um jovem inglês chamado Michael, resolve sozinho passar uma noite na montanha, culpado por ter naquela tarde espionado as garotas enquanto subiam à montanha.

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As ninfas observadas pela rocha vulcânica

Além das três meninas, McCraw também desapareceu, Edith conta ao sargento Bumpher, que enquanto estava descendo a montanha, avistou de longe a professora McCraw, também correndo, sem as roupas íntimas. McCraw que parecia saber detalhadamente tudo sobre a formação do vulcão e fazia anotações peculiares da inclinação da rocha gigantesca.

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Michael sente uma culpa pelo desaparecimento das jovens

Em 1900 os colonizadores europeus ainda eram figuras estranhas e permanentes, a esposa do sargento sugere que não foi nenhum nativo que sumiu com as meninas, mas alguém de fora. O diretor não deixa transparecer nenhuma pista sobre o sumiço delas, é tudo um mistério, envolto numa nuvem de poeira amarelada. Poderia ser um algum tipo de rocha alienígena? Um evento sobrenatural, místico ou pagão? Muitas perguntas que o espectador vai fazendo, umas desvendadas, outras sugeridas. Mas como o personagem Sr.Whitehead (Frank Gunnell) fala em um determinado momento que: “Algumas perguntas têm respostas e outras, não”.

Mas o mote do filme pode ser o desejo sexual reprimido das garotas, das professoras, e do jovem Michael com o seu ajudante Bertie, que no final descobrimos que ele era o irmão perdido da órfã Sara (Margaret Nelson). Sara, que é a que mais sofre com o desaparecimento de Miranda, por quem ela escrevia cartas perfumadas e apaixonadas de amor.

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A apaixonada Sara encara uma furiosa Sra.Appleyard

Miranda tendo um pressentimento logo de manhã, antes de sair para o piquenique, sugere que Sara procure outra pessoa para amar, pois ela em breve não estará mais ali. Sara que esconde uma flor para Miranda, que sabe quais são as prediletas dela, as mesmas flores vistas no quadro de Botticelli. O sentimento das duas é mais espiritual do que carnal. Nutrindo um ódio mórbido pela jovem Sara, a Sra.Appleyard depois de vários pedidos para que a garota fosse embora da escola, teria jogado a menina da janela. Ou talvez, prevendo o pior ela teria se jogado da janela.

Os relógios têm um significado importante na história e na vida real, logo ao chegar na montanha o relógio do cocheiro para exatamente ao meio-dia. O da professora também para. Depois de um tempo todos caem em um sono profundo, se perde a noção do tempo, ao retornar para a escola, o cocheiro não sabe explicar quanto tempo se passou depois do sumiço das garotas. Lady Lindsay, como também era chamada, ficou conhecida além do romance, por também conseguir misteriosamente parar relógios. Por onde ela passava o relógio de alguém parava. Anne Lambert lembra que na época das filmagens, quando ela estava no monte Macedon, viu de longe Joan Lindsay e foi até o seu encontro, só que ela não sabe como, simplesmente caiu quando chegou perto da autora.

Por mais de 20 anos um trecho do capítulo do livro que explicaria o que aconteceu com as meninas foi retirado da publicação original. Ao entrar na caverna elas teriam se deparado com a professora McCraw despida, e então elas também começariam tirando a roupa. O corpete delas flutuaria e as garotas seriam sugadas para uma outra dimensão. A rocha seria um portal, por isso fatos estranhos aconteceriam por lá. Talvez por vender a ideia de uma trama sem solução fosse mais rentável, e foi. Peter Weir desenvolveu a história em cima do tema da ausência, a falta de pistas é o que segura o interesse.

O que mantém o fascínio do filme durante décadas é justamente que qualquer resposta sobre o sumiço fictício ou não das meninas, se parece com um sonho febril, angustiante, uma alucinação sob o forte calor daquela parte do hemisfério sul. Ninfetas violadas sem sexo, paranormalidade, o fervor do erotismo, um mistério sem solução, que Weir fez questão de respeitar. Piquenique na montanha misteriosa é a tríplice que une Violência por acidente (1974) e The Last Wave (1977) sobre os fantasmas de um novo país e o poder místico da natureza.

FICHA TÉCNICA

Piquenique na montanha misteriosa (Picnic at Hanging Rock, 1975, AUS)

Direção: Peter Weir.

Roteiro: Cliff Green, baseado no livro de Joan Lindsay.

Produção: A.John Graves, Patricia Lovell, Hall e Jim McElroy.

Elenco: Rachel Roberts, Vivean Gray, Helen Morse, Kirsty Child, Tony Llewellyn-Jones,

Anne Lambert, Jacki Weaver, Frank Gunnell, Karen Robson, Jane Vallis, Christine Schuler, Margaret Nelson, Ingrid Mason, Jenny Lovell e Janet Murray.

Fotografia: Russell Boyd.

Trilha sonora: Bruce Smeaton.

Música não original: Bach, Mozart e Beethoven.

Idioma: Inglês e Francês.

Duração: 115 minutos.

Cor.