FAÇA A COISA CERTA

Códigos lingüísticos en Haz lo que debas (Do the Right Thing, Spike Lee, 1989)
Faça a coisa certa é um filme ambicioso do começo da carreira de Spike Lee

Nossa liberdade de expressão é a liberdade ou a morte

Temos que lutar contra os poderes constituídos

Deixe-me ouvi-los dizer

Lutem contra o poder.” (Public Enemy, “Fight The Power”, Álbum: Fear of a Black Planet, Ano: 1990).

Gosto de falar que o Spike Lee é o Martin Scorsese dos pretos, nunca um diretor conseguiu expor tão bem os dramas raciais no cinema como ele. Explorando temas conflituosos como a miscigenação, drogas, a música negra e a política. Antes diretores como Gordon Parks (Shaft), Melvin Van Peebles (Panteras Negras) e Ossie Davis (Cotton comes to Harlem), nos anos 70 lideravam o Cinema do Blaxploitation.

Blaxploitation pode ser considerado a voz do povo negro americano dentro do cinema Hollywoodiano. Desenvolvido por diretores negros, que trazia para a tela os sentimentos da juventude, defendia o movimento dos direitos civis, e panfletava sobre a liderança política dos Panteras Negras. Dentro desse novo gênero cinematográfico os protagonistas e vilões eram sempre negros. Eram filmes feitos para o consumo da comunidade negra, embalado com muito soul. Só que os filmes do diretor Spike Lee têm um propósito diferente, ele consegue atrair uma plateia mista para os seus filmes, diferente do que era feito na década anterior, sem esquecer o valor da identidade cultural negra.  

Lee estreou no cinema com o filme que hoje pode ser considerado como empoderamento feminino, Ela quer tudo (She’s Gotta Have It, 1986), sobre uma jovem que tem que lidar com três namorados, sobre forte influência da Nouvelle Vague. Teve um orçamento de US$ 170.000, arrecadou no mundo todo mais de US$ 7 milhões e foi sucesso de crítica. Abriu o caminho para que ele realizasse Faça a coisa certa (Do the Right Thing, 1989) Mais e melhores Blues (Mo’ Better Blues, 1990) e o aclamado Malcom X (idem, 1992). E esse ano ele ganhou o Oscar de melhor roteiro adaptado, pela comédia dramática policial Infiltrado na Klan ( BlacKkKlansman, 2018).

Ambientado em uma pizzaria do bairro Bedford-Stuyvesant, no Brooklyn, onde o calor de mais de 40° graus e a tensão racial anda mais aflorada do que nunca. Especialmente no final dos anos 80, onde o confronto entre a polícia e os negros eram intensos, a criminalidade em Nova York tinha números altíssimos. Hoje, melhorou mas não mudou, os casos de racismo ainda são muitos noticiados na mídia, para os americanos existe dois caminhos, ou eles gostam, ou odeiam os negros. Sal (Danny Aiello), ítalo-americano que paga seus impostos direitinho, gera renda e emprego para o único funcionário negro do seu estabelecimento, é constantemente incomodado por um jovem do bairro que não aceita o fato que todos os clientes dele são pretos, mas os homenageados com quadros na parede são celebridades brancas.

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Buggin Out questiona os quadros de pessoas brancas em uma pizzaria frequentada por negros

Conforme o calor vai aumentando as coisas vão piorando, Sal é até indiferente sobre algumas coisas, Mookie (Spike Lee) o entregador de pizza para lá de folgado, que costuma ocupar o telefone da pizzaria para assuntos pessoais, vive às turras com Pino (John Turturro). Pino o filho do dono da pizzaria, que não se sente nem um pouco confortável em trabalhar em um lugar cheio de negros, acha que o pai deveria abrir outro negócio, mas desta vez em um bairro italiano. Diz que os amigos dele tiram sarro dele por trabalhar ali. Sal pergunta se os amigos dele pagam pelo teto que ele mora e pela comida que ele come, pois é através do dinheiro daqueles pretos que eles sobrevivem e que ele só seria mais um abrindo uma pizzaria em um bairro italiano. Todos os heróis de Pino são negros, mas ele não enxerga eles como “negros de verdade”, para ele, eles são diferentes, mas ele não sabe explicar como admira esses negros e ao mesmo tempo não consegue conviver com eles diariamente.

Mookie tem um relacionamento amigável com o outro filho de Sal, Vito (Richard Edson) que entende o lado de Mookie, pois Mookie é o único que lhe ouve, sem agredi-lo verbalmente e fisicamente. Até Sal tem uma queda pela irmã de Mookie, ele é gentil com ela e ela com ele, o que desperta aflição em Mookie. Os outros personagens vão se cruzando ao longo dia, Tina (Rosie Perez) que tem um filho com Mookie, faz de tudo para que o namorado apareça em casa para visitar ela e o filho. O Prefeito e a Mãezona Ossie Davis e Ruby Dee, respectivamente, são dois velhinhos amáveis, mas briguentos ao mesmo tempo. Ainda tem o trio de senhores de meia-idade que passam o tempo profetizando os efeitos do calor na calota polar, eles compõem a válvula de escape que o filme fornece.

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O trio de profetas

Os coreanos donos de uma loja, que também sofrem preconceito, por serem estrangeiros e outros moradores do bairro acham que eles estão ali apenas para tirar o lugar de outra pessoa. Negros com preconceitos contra asiáticos, latinos versus negros, italianos contra negros e vice-versa, todo mundo parece se odiar. Em um determinado momento todos olhando para a câmera bradam ofensas raciais e étnicas, despejam tudo aquilo que estaria engasgado.

Existiu uma época que o rap, antes dessa globalização cultural do pop, em que a linguagem dessas letras ainda não tinham sido manipuladas, o movimento do hip-hop era bem mais politizado. No passar das décadas, o filme completa trinta anos este ano, o rap levantava a bandeira de ser subversivo e revolucionário, com o tempo essa ideologia partidária se perdeu, tudo é esteticamente mais vendável e agradável hoje. O prólogo abre com a música do grupo Public Enemy, deixa claro que naquela época eles eram necessários para transmitir o incomodo que os negros passavam em diferentes traços sociais.  

Faça a coisa certa é filmado em cores saturadas que passam a sensação de ânimo e alegria e ao mesmo tempo inquietude, como se a qualquer momento algo fosse explodir. Lee faz um exercício de ângulos de câmera inclinados interessantes, quando os atores olham diretamente para a câmera ele joga com o plano médio. Também faz uso do primeiríssimo plano e da profundidade de campo. Esse estilo mais livre de filmar lembra as histórias em quadrinhos. Ele propositalmente usa o som alto do rap para incomodar mesmo, como quando Radio Raheem (Bill Nunn) aparece na pizzaria e Sal pede que ele desligue o som e na segunda vez em que ele não está nem um pouco disposto abaixar o volume, culminando em uma tragédia anunciada.  

HOJE VAI FAZER MAIS DE 40º GRAUS

O filme é bem controverso e te obriga a ter que escolher um lado, mesmo não dando soluções fáceis para resolver os problemas que vão surgindo, um simples esbarrão pode levar a conflitos efervescentes. Tudo é muito agressivo, até mesmo Sal que era tolerante, explode quando seu restaurante é invadido por uma horda de pessoas raivosas, que não estão nem aí se ele era inocente. Era para o amor vencer o ódio, como sugere Radio Raheem, não com aquele calor intenso.

O diretor convida o público para passar um dia comum em um bairro caloroso do Brooklyn, ele nos traz o rap truculento do Public Enemy em “Fight the power”, que vai ecoando pelas ruas em meio aos prédios de tijolos avermelhados. O Mookie de Spike Lee  tem muito da vida do próprio diretor, não que seja uma autobiografia, mas Mookie tenta ser honesto numa rotina medíocre. Transborda realidade, entre personagens cheios de ambições e pessimismos. Quando escutamos o programa de rádio do Sr. Love Daddy (Samuel L. Jackson) alertando para a onda de calor que está fazendo em Nova York e que isso estaria deixando as pessoas inquietas.

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Mookie depois do caos

Os habitantes daquele bairro só se exaltam e as coisas só pioram. Disposto a se vingar do dono da pizzaria, Buggin Out (Giancarlo Esposito) começa a fazer uma campanha de boicote, ele não aceita que o estabelecimento pendure quadros de pessoas brancas. Uma coisa o filme mostra; a intolerância e a falta de empatia ainda são coisas que podem destruir o ser humano, independentemente da cor da pele ou da origem da raça.

O filme de Lee deu voz para que a comunidade negra pudesse expor suas experiências de vidas através da óptica deles mesmos, sem rasura. Ele tenta te deixar quieto, é difícil não querer debater, não querer ouvir depois de Faça a coisa certa. Ele vai instigar você a se posicionar, discordar, revoltar.

Até mesmo pessoas que você consideraria como neutras podem se rebelar diante do caos, para tudo existe um limite. E ninguém é passivo o tempo todo. A abordagem do filme de Lee é radical, desafiadora e ambiciosa. O título do filme é uma citação do militante pelo direito dos negros americanos Malcom X: “Você tem que fazer a coisa certa.

FICHA TÉCNICA

Faça a coisa certa (Do the Right Thing, 1989, EUA)

Direção: Spike Lee.

Roteiro: Spike Lee

Fotografia: Ernest R. Dickerson.

Música: Rubén Blades, Cathy Block, Chuck D, Flavor Flav, James Weldon Johnson, Rosamond Johnson, Raymond Jones, Bill Lee, Sami McKinney, Michael O’Hara, Lori Perry, Mervyn Warren e Public Enemy.

Elenco: Spike Lee, Danny Aiello, Ossie Davis, Ruby Dee, Richard Edson, Giancarlo Esposito, Bill Nunn, John Turturro, Samuel L. Jackson, Rosie Perez, Martin Lawrence, Frank Vincent, Miguel Sandoval, Rick Aiello, John Savage, Steve Park, Ginny Yang e Sherwin Park.

Idioma: Inglês.

Duração: 120 minutos.

Cor

Indicação ao Oscar: Spike Lee (roteiro original) e Danny Aiello (ator coadjuvante).

Festival de Cannes: Spike Le (Palma de Ouro).

Gênero: Comédia/Drama.

 

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