MARTIN SHORT (O IRRITANTE)

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Foto: Carolyn Cole

Eu realmente acredito que quando você é engraçado, você é abençoado. Sua vida inteira é meio dourada. Eu estava feliz, embora não fosse a felicidade perfeita. Houve doença, tristeza e morte” Martin Short, em 2000.

O Will Ferrell se diz um cara com uma vida normal, ele não teve tragédias em sua vida, seu humor não nasceu da dor, mas é difícil pensar em caras como Jim Carrey e sua infância paupérrima no Canadá, Jerry Lewis com sua saúde debilitada e o filho com distrofia muscular, a depressão e o vício em drogas do Robin Williams. Todos eles conseguiram tirar da desgraça algo engraçado para fazer os outros rirem.

Mas ninguém andou tão de mãos dadas com a morte como o comediante canadense Martin Short (68). Entre um velório e outro na sua casa em Hamilton (Ontário, Canadá) ele se desdobrava em um show particular, sempre incentivado pela sua mãe, Olive Grace Hayter, uma violinista. Marty é o caçula de cinco irmãos, mas aos 12 anos, em 1962, perdeu o irmão mais velho, David Short, em um acidente de carro. Sua mãe morreu de câncer quando ele tinha 17 anos, logo em seguida seu pai Charles Patrick Short, de origem irlandesa, e que trabalhava numa empresa siderúrgica canadense, faleceu dois anos depois por complicações de um derrame. A situação foi tão superada que ele fez piada disso 27 anos depois no filme Clifford (idem,1994). Outras mortes viriam mais tarde.

Marty nunca teve o seu nome marcado em um filme de sucesso, mas ele teve seus pontos altos, ao lado do Chevy Chase em ¡Three Amigos! (Três Amigos, 1986). Comédia que fez uma boa bilheteria, quase 40 milhões de dólares nos Estados Unidos e foi dirigida pelo sempre competente John Landis. Com o roteiro escrito por Steve Martin, Randy Newman e Lorne Michaels, que é o pai do Saturday Night Live. Mas ter que aturar Chase colocando merda em seu trailer como batismo, não é tolerável. Chase sempre foi um boçal, mas um comediante considerado talentoso, e o próprio Short passou por cima disso, mas eles não ficaram “amigos”, já com o Steve Martin…

A parceria mais duradoura veio fora das telas com Steve Martin. Eles passam as férias juntos, viajam o país com um show típico do vaudeville (An evening you will forget for the rest of you Life), que estreou em maio deste ano na Netflix. Em que o público tem uma visão apocalíptica de Short vestido numa malha branca colada no seu corpo, definindo não só sua forma física, mas o contorno das suas partes íntimas, “Hello, ladies!”.

Ele trabalha para ruborizar o público, quando ele salta nos braços de um grandalhão com roupas típicas escocesas, enfiando seu dedo na boca do homem imitando uma gaita tocando “Amazing Grace”, o menos desavisado pode achar que ele tem algum complexo de Édipo. No show ele também implica com a idade avançada de Steve Martin, 72 anos, por incrível que pareça, Short aparenta estar bem mais velho que o amigo, são quatro anos de diferença, mas não contamos nenhuma ruga na cara do Steve. Os dois ainda fazem aparições de quebrar hosts como Jimmy Fallon, “Best Friends Challenge” deveria ser incluída no show deles, de tão engraçada que ficou. Uma amizade de mais de trinta anos que inclui três longas-metragens e infindáveis jantares.  

E esse ano ele foi reconhecido pela revista The New Yorker Magazine, como o maior convidado de todos os tempos em programas de talk show. Só no David Letterman ele foi cinquenta vezes e fazia falsos elogios de como David estava ficando tão jovem (ele pratica a mesma falsa lisonja com o Stephen Colbert) ou entrar com um roupão de banho curtíssimo no palco. Ele estava lá em um dos últimos shows do Letterman cantando uma música fúnebre de despedida.

Certa vez, Conan O´Brien estava entrevistando ele e uma modelo que acabará de torna-se atriz, enquanto ela falava da nova carreira, ele estava atrás dela fazendo pantominas, até O´Brien explodir no intervalo e dizer que estava tentando trabalhar. Caetano Veloso já dizia na letra de “Vaca Profana”: De perto, ninguém é normal. Mas Marty é considerado pelos amigos como um homem muito estranho, porém, um profissional bem ajustado naquilo que faz. Depois de escrever quase dezoito páginas de conversas, piadas e trivialidades, ele telefona para os produtores dos programas em que participa, ficando quase duas horas debatendo sobre que piada vai ser incluída ou não, quando você assiste Late Night, por exemplo, nada daquilo foi improvisado.

Ele fez parte do elenco do SCTV (Second City Television 1976-1984), mas aqueles caras eram tachinhas afiadas, muito difícil de competir. As sketches do Eugene Levy e do Rick Moranis, como Roy Orbison e Merv Griffin, respectivamente, são clássicas. Tanto que ele era o único que transitava bem em outros shows como Saturday Night Live (1975-até hoje) e MADtv (1995-2009). O nerd neurótico apaixonado pela cultura pop, Edward Mayhoff Grimley, conhecido apenas como Ed Grimley, é muito lembrado dentro do SNL, fez tanto sucesso que ganhou seu show solo. No momento ele está na paródia como o médico do presidente Donald Trump, Dr. Harold Bornstein. Para ele o governo do republicano não passa de um asterisco, e que o problema maior são os eleitores de Trump. Tanto que no show que ele faz com o Steve Martin, foi excluída qualquer piada contra o presidente, apenas para que o público sinta-se em uma zona neutra e fique confortável para o espetáculo. Eles vão para várias partes do país, encontram gente que gostam ou não do Trump. Ele ainda apareceu na série de TV Merlin (1998), em Damages (2007-2012) atuou em 13 episódios ao lado da Glenn Close. Ele substituiu Dave Foley na sétima temporada da sitcom How I Met Your Mother (2005-2014), foram três episódios como o chefe do Marshall (Jason Segel).

Ganhou dois prêmios Emmys Awards, em 1983 pelo roteiro de dois episódios do SCTV, “The Energy Ball” e “Sweeps Week” e quando foi anfitrião no tributo para Mel Brooks (AFI Life Achievement Award: A Tribute To Mel Brooks), em 2014. No total de oito nomeações na história do Emmy e mais 38 indicações em premiações diversas. Escreveu uma autobiografia em 2014, em que ele fala sobre a carreira, costuma dizer que em sua lápide deverá estar escrito: “E se tudo estivesse dado certo”, algo depreciativo, que ele também aborda no stand up, que se ele estivesse sido “salvo” não estaria fazendo stand up.

Teve o seu próprio talk show, The Martin Short Show (1999), misturava entrevistas e sketches, Jiminy Glick apareceu pela primeira vez aqui, mas não passou de uma temporada. Mesmo com todo o esforço Maya & Marty (2016) foi um fracasso, tendo sido cancelada depois de seis episódios. Primetime Glick (2001-2003) rendeu bons números e  se sustentou em três temporadas no total de trinta episódios, todo feito na base do improviso por Short. Kristina Vogel e Kevin Haney ganharam um Emmy na categoria de melhor maquiagem.  

Ele é um dos poucos comediantes que tem o rótulo de “nice”. Até quando ele é ofendido publicamente. No programa Today Show, em 2012, a apresentadora Kathie Gifford ao entrevistá-lo sobre o novo filme Madagascar 3, elogiou o fato do casamento dele está durando tanto tempo, mesmo em Hollywood, terra em que ninguém é ninguém, um ou outro casamento ainda sobrevive. Ela começou a falar de Nancy Dolman no presente o tempo todo. Uma pesquisa rápida no IMDB e ela descobriria que Nancy tinha morrido dois anos antes. Horas depois em sua conta no Twitter ela pediu desculpas pela gafe. No momento da entrevista ele não corrigiu Kathie, apesar de ter ficado confuso com o questionamento. “Eu acho que na televisão ao vivo as pessoas cometem erros e não há má intenção, eu acho que é bom que as coisas aconteçam assim”, disse ele fora do ar. Depois ele declarou que foi um erro inocente da parte dela e que ele ainda se sente muito casado com Nancy. O mais curioso é que três anos depois Gifford é que ficaria viúva. Em janeiro de 2013, durante um perfil para a Vanity Fair o repórter David Kamp, questiona como ele se sente tendo se tornado o que ele mais satiriza: uma estrela detestável e egocêntrica. Se fosse uma pessoa sem senso de humor teria acabado a entrevista ali. Um comediante que não ri de si mesmo é um derrotado.

Um outro momento constrangedor, menos para ele, mas para a apresentadora do Channel Ten, Kim Watkins, em um programa matutino da televisão australiana, em 2009, bem natural ele pergunta como ela conheceu seu atual marido, enquanto ela vai respondendo, ele vai beijando seu braço até chegar em seu pescoço. Ela só conseguia rir e ficar corada ao mesmo tempo. Enquanto ele continuava soltando galanteios do tipo “como você é incrivelmente sexy”, e se ela não aceitaria dois encontros antes do sexo. Segundo ela, encontro antes do sexo era que uma mulher elegante faria, ela não teria todo esse autocontrole, terminando com “você é muito charmoso”. Depois dá uma aula de beijo técnico nela e na cantora Natalie Bassingthwaighte (que porra de sobrenome é esse).

Bem, nessa época #MeToo e Time’s Up, não existiam. Nenhuma das duas se sentiu ofendida, pelo menos publicamente elas nunca falaram nada da situação. Hoje, isso seria condenável pelos movimentos feministas e ele já estaria sentado no banco dos réus ao lado do Bill Cosby e Harvey Weinstein. Mesmo sendo um momento quente na televisão, a linha entre ser um idiota e um cara engraçado é tênue.

ACHO QUE O PAPAI ESTÁ TENDO UM DERRAME Clifford Daniels, 1994

Sou muito fã do Clifford (idem,1994), não tenho vergonha de declarar isso, mas ter que ler a crítica do Roger Ebert (1942-2013) e olhar para aquela meia estrela que ele deu (meia estrela é pior que nenhuma), é dolorido. Atualmente ele tem lá o seu status de filme cult (mas eu sei que não é entre todos os fãs de comédia). Ok, era uma bosta de filme, intragável, algo que não deveria ter sido feito, mas não respingou no Marty nem no Charles Grodin (Grodin sempre foi um ator impermeável, ele saiu ileso de muita bomba). Estreou no dia 1 de abril, era para ser uma piada, o que acontece com as pessoas, elas não tem senso de humor, sei que essa não é a questão, o roteiro era ruim mesmo.   

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Demorei para entender que ele estava segurando um dinossauro (fálico).

Teria sido um veículo delicioso para o Martin Short desfilar tudo aquilo que ele sabe fazer de melhor (a altura ajuda), interpretar crianças irritantes e constranger adultos. Mas o filme não funcionou, ele custou 19 milhões dólares e arrecadou pouco mais de 7 milhões nos EUA, e ajudou a afundar um estúdio, antes de ser produzido. Olha que os dinossauros estavam em alta naquele momento. Para ele parecer menor do que ele já é, os botões da sua roupa eram desproporcionais e ele andava em um chão desnivelado ao lado dos outros atores e na cena da dança os figurantes tinham uma estatura diferenciada.

O que chama atenção é que com esse número de mulheres que acusaram pessoas do show bussines de assédio sexual, até hoje, as duas assistentes de maquiagem dele no Clifford não processaram ele por assédio, apesar que, ele foi displicente na verdade. Um dia antes, o diretor do filme, Paul Flaherty, disse para ele ir gravar no dia seguinte com as pernas depiladas, afinal de contas, ele estava fazendo um garoto de 10 anos, não se tem pelo nesta idade. Ele esqueceu de depilar e deixou para fazer isso no set, tirou as calças e sentou na cadeira enquanto uma moça passava Nair* em suas pernas e ao mesmo tempo ele estava sendo maquiado no rosto, colocou uma toalha no colo e levantou as pernas para o procedimento, só depois ele percebeu que o seu pênis estava para fora da cueca.

ENTÃO DRAKE, VOCÊ SENTE FALTA DO PREPÚCIO? Jiminy Glick, em 2016, para a rede NBC

Segundo Dave Foley, Jiminy Glick representa aquilo que o Martin Short gostaria de falar na cara das pessoas, mas não tem coragem de fazer de cara limpa. É como se ele tivesse criado um personagem tão malvado, quanto ele é na vida real. Em uma entrevista para o AV CLUB, em 2005, ele descreveu um pouco da personalidade do personagem: “Mas quando você improvisa, as pessoas jogam coisas em você, e então elas se tornam fatos novos. Eu penso em Jiminy como um cara que está numa posição de poder, mas não deveria está lá”, mencionou.

O apresentador obeso sem papas na língua surgiu quando Marty estava atuando no filme Pure Luck (Pura Sorte, 1991), o personagem dele tem uma reação alérgica ao ser picado por uma abelha, ele fica inchado igual ao Jiminy. A caracterização serviu de base para o outro personagem. Não seria a primeira vez que ele junta parte de outros personagens, Ed é meio Clifford, menos diabólico, é claro, mas os dois são dementes, “me dá um tempo”, diria Ed Grimley.  

De uma certa maneira, ele tem uma tendência para maneirismos infantis, até quando ele está fora dos personagens, na brincadeira da caixa, com o Jimmy Fallon, já citada no começo do texto, em determinado momento ele faz uma voz infantil e na hora da entrevista no Sunday Morning ele sobe no piano como um menino travesso. Ele não tem limites quando a câmera está ligada.

Com esse personagem ele entrevistou astros como Tom Hanks (que é muito seu amigo), Steve Martin, Julia Louis-Dreyfus, Dennis Hopper. Quando ele pergunta para Mel Brooks; “Qual o seu problema com os nazistas?”, o que ele queria com isso? Passar uma rasteira no Mel ou estava sendo idiota mesmo, como é o personagem. Ficou cara a cara com ninguém menos que Jerry Lewis, que ele costumava satirizar no SCTV, como uma celebridade que não se atualizava e que já estaria datado para a comédia, isso nos anos oitenta.

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© 2016 NBC Universal Media, LLC

Mas quem teria a coragem de perguntar para o rapper Drake (que é canadense), como foi a sua circuncisão e se ele não sente falta do “capô”. Não só o cantor se contorceu com a pergunta, como quem assistiu o vídeo também. Os dois terminaram na sauna, é assim que Jiminy Glick finaliza seu show. A quem diga que ele expressa sua mesquinhez interior com o personagem.

Gilda Radner, que foi sua primeira namorada, morreu de câncer prematuramente aos 42 anos, ela era uma comediante excepcional, ele está no documentário Love, Gilda (2018), que abriu o Tribeca Festival neste ano. Foi quando Nancy substituiu Gilda em “Godspell” (1972), que ele conheceu sua futura esposa, Nancy Dolman, que também era cantora, ele terminou com Radner e em 1980 casou-se com Dolman. Nancy que tinha câncer nos ovários e passou três anos lutando contra a doença, acabou morrendo por falta de oxigênio, alguém não soube manusear o equipamento direito ou o cilindro de oxigênio aparentou defeito. No dia seguinte ele se apresentaria no Emmy, sua participação foi cancelada e ele passou mais de um ano sem fazer aparições públicas.

Ele é o cara que sempre se apresenta “ligado”, as coisas nunca são frias quando ele está em um show da TV. Questionado por David Marchese, na Vulture em fevereiro deste ano, se não existiria algo de inerentemente insincero em sua persona pública, ele disse que ele não é assim duas da manhã, e que um cirurgião não fica com um bisturi 24 horas na mão. Agora conhecemos o motivo pelo qual Paul Thomas Anderson chamou ele para o papel do dentista viciado em cocaína, Dr. Rudy Blatnoyd. Lá você vai encontrar toda a cartela de linha que ele costuma usar no cinema, TV ou quando ligam uma câmera na sua frente. Se Marty Short fosse uma droga, ele daria uma “good trip”.

RECOMENDAÇÕES

¡Three Amigos ! (1986)

Father of the Bride (1991)

Clifford (1994)

Merlin (1998)

Primetime Glick (2001-2003)

RECOMENDAÇÕES DOURADAS

Late Show com David Letterman (1993-2015)

The Tonight Show com Jimmy Fallon (2014-2018)

Steve Martin and Martin Short:  An evening you will forget for the rest of you Life (2018) Disponível na Netflix .

Inherent Vice (2014)

The Completely Mental Misadventures of Ed Grimley (1988-1989)

Vanity Fair: The Cat’s Meow (2013) Perfil.

*Marca de um creme depilatório.

 

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