NICHOLAS BROTHERS E O “JUMPIN’ JIVE” PERFEITO

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Os Nicholas Brothers em Tempestade de ritmos, de 1943.

A Hollywood abertamente racista dos 40, quando atores negros eram escalados para papéis de meros engraxates, cozinheiros ou mensageiros de hotéis, até Billie Holiday apareceu de faxineira com espanador na mão em New Orleans (idem, 1947), já os  irmãos Nicholas Brothers eram os destaques quando entravam em cena, seus números musicais que duravam de 4 até 6 minutos deixavam a plateia boquiaberta. Eles pulavam em degraus gigantes, davam cambalhotas, saltavam mais de três metros e voltavam para a posição anterior sem o uso das mãos.

Febre em Hollywood eles acumularam em 15 anos de carreira aparições em curtas e pequenas pontas em outros filmes, e fizeram nove longas-metragens. Mas como naquele tempo o racismo era declarado no cinema norte-americano, os Nicholas Brothers não dançavam com nenhum partner branco, seus números sempre tinham outros negros em cena. E quando a dupla aparecia em alguma cena, os censores do sul cortavam, para não ofender a plateia “racista”. Apenas em um único filme é que eles tiveram um partner com a cor da pele diferente da deles, foi no filme O pirata (The pirate, 1948), a pedido do ator/dançarino Gene Kelly. Kelly também exigiu que a cena fizesse parte da história, para não ser cortada depois.

Deram um tapa com luva de pelica, em quem achava que a cor da pele fazia diferença, botaram para “quebrar” em uma sequência ao lado de Betty Grable em “The sheik of Araby”, de A vida é uma canção (Tin Pan Alley, 1940), os dois são vistos de peito nu e calças folgadas. Esse foi um dos poucos momentos em que eles contracenaram com uma mulher branca. É muito difícil imaginar que um talento tão grande para o sapateado, levado para os cinemas como grande espetáculo, tenha sublimado dois grandes gênios da dança. Só equiparados a Fred Astaire e Gene Kelly.

Sempre que estavam em cena, apareciam impecáveis, seus pais Ulysses e Viola Nicholas eram contra que os filhos se comportassem como o esteriótipo negro da época. Não falavam gírias, sempre usavam fraques e roupas elegantes, tanto faz se estavam na tela, no palco ou no dia a dia. Tinham etiqueta. O excepcional pianista Bobby Short se espelhava neles, e o cultuado Duke Ellington se inspirou na maneira como os Brothers se vestiam. Não eram negros caipiras com calças curtas até a canela, não falavam errado e nem usavam chapéu de aba larga.

Fayard Nicholas, além de ser o mais velho da dupla, foi ele que ensinou e coreografou a maioria dos passos ao lado do irmão Harold. Que provavelmente ele deve ter aprendido observando os sapateadores de rua em Nova York, quando se mudou do Alabama para a big apple no final dos anos vinte. Mas foi durante o renascimento do Harlem (bairro de Manhattan que antigamente tinha maioria de afrodescendentes de Nova York, de grande importância cultural, é lá que fica o famoso Apollo Theater). Foi no prestigiado Cotton Club que os dois irmãos se apresentaram pela primeira vez, no começo da década de 30, exibindo números musicais com sapateado. Não demorou para que se tornassem conhecidos na cena jazzística da cidade.

Antes de migrarem para o oeste, na Califórnia, eles subiram no palco mais importante da dança americana: a Broadway. Apresentaram uma versão do Ziegfeld Follies, de Ira Gershwin, com Bob Hope e Ethel Merman. Mas aperfeiçoaram a técnica na passagem pela Inglaterra, com parte do elenco de Blackbirds, foram aplaudidos por várias companhias conceituadas de ballet europeia. Chegando em Hollywood, já não eram tão desconhecidos, lá estrelaram sucessos como Abafando a banca (Kid millions, 1933), que foi a estreia deles. Harold aparece cantando por alguns segundos, e uma das garotas que embalaram o coro foi Lucille Ball (I Love Lucy), o resto não foi aproveitado, mas em 1951 parte da música foi colocada Royal Wedding (Núpcias Reais, 1951), aquele mesmo que Fred Astaire dança no chão, teto e paredes.

Vocês ainda podem encontrá-los em pérolas como Serenata Tropical (Down Argentine way, 1940), com uma atriz muito conhecida dos brasileiros: Carmen Miranda, ela também acabara de fazer sua estréia em Hollywood. A comédia musical Quero Casar-Me Contigo (Sun Valley serenade, 1941), que tinha a badalada orquestra de Glenn Miller e todas as músicas foram composta por ele, e o próprio Miller faz uma ponta. Em Sun Valley Os Nicholas Brothers aparecem ao lado de Dorothy Dandridge, então esposa de Harold (existe um filme para TV que conta a história dela, com Halle Berry).   

O musical Tempestade de ritmos (Stormy weather, 1943) um dos mais conhecidos da dupla, de elenco majoritariamente negro, os dois fazem miséria ao saltar aqueles degraus enormes e sapateiam em cima da orquestra de Cab Calloway, enquanto eles tocam. Pode ser considerado como o ápice de suas carreiras, mas em vários de seus filmes as participações da dupla foram reduzidas para que a plateia não percebesse que o elenco tinha dois atores negros. Clássico memorável do cinema Stormy era o musical favorito de ninguém menos que Fred Astaire. Kelly, Sinatra, Tommy Dorsey, todos brancos, que admiravam os Brothers, uma pena que a indústria cinematográfica americana tenha “tentado” podar tanto talento.

 

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